China tem "Torre Eiffel" e "Casa Branca", mas nova réplica causou mal-estar

Owen Guo

Em Pequim

  • AFP

    Réplica da Tower Bridge de Londres em Suzhou, na China

    Réplica da Tower Bridge de Londres em Suzhou, na China

A China tem no mínimo dez Casas Brancas, quatro Arcos do Triunfo, duas Grandes Esfinges e pelo menos uma Torre Eiffel.

Agora, uma versão da Tower Bridge de Londres na cidade de Suzhou, leste da China, reacendeu um debate a respeito da pressa que a China tem de copiar marcos históricos estrangeiros, enquanto o país reconsidera décadas de experimentação urbana que produziu um número extraordinário de cópias de estruturas de renome mundial.

Esta semana, fotos da ponte foram postadas na internet por diversos veículos da mídia. Uma manchete proclamava: "A Incrível 'Tower Bridge de Londres' de Suzhou: Ainda Mais Magnífica que a Verdadeira".

De fato. Os urbanistas de Suzhou claramente a haviam incrementado. A ponte, concluída em 2012, tem quatro torres --em comparação com as duas que se estendem ao longo do Tâmisa em Londres--, o que abriu espaço para uma autoestrada.

Carros e pedestres enchem a ponte e suas plataformas de observação. À noite, as torres são banhadas por luzes azuis e amarelas. Como era de se esperar, ela também atraiu casais ansiosos por dar um lustre europeu às suas fotos de casamento.

Suzhou, na província de Jiangsu, a leste da China, é provavelmente mais famosa por seus antigos jardins e pacíficas vistas à beira da água. Muitas vezes chamada de Veneza do Leste, ela abriga parte da mais primorosa arquitetura tradicional da China, com casas-pátio caiadas e passarelas sinuosas sobre lagos repletos de flores de lótus. (O Astor Chinese Garden Court do Metropolitan Museu of Art de Nova York foi insipirado em uma casa de Suzhou.)

No entanto, Suzhou também se juntou à afobação de outras cidades chinesas nos últimos anos para erguer clones de famosas estruturas estrangeiras, em parte como golpe de publicidade e em parte para atrair investimentos.

Nem todos aprovam. Comentários na internet a respeito da ponte de Suzhou foram mordazes.

"Pirataria!", escreveu um.

"Constrangedor", escreveu outro.

Li Yingwu, presidente do escritório de arquitetura OAD em Pequim, disse que a ponte é um plágio e questionou a decisão de se construí-la em uma cidade que já tem um rico patrimônio arquitetônico próprio.

"Fiquei muito surpreso de vê-la sendo construída em Suzhou, porque ela preservou sua cultura muito bem", disse Li em uma entrevista. "Isso mostra que oficiais locais não têm confiança em sua própria cultura. Eles não entendem que a arquitetura tem essencialmente a ver com cultura. Não é meramente um objeto".

Um comentário feito na última semana no JSChina.com.cn, um site de notícias do governo da província de Jiangsu, dizia: "Não temos nenhum motivo para aprovar essa réplica de uma construção icônica, e todos os arquitetos chinesas precisam refletir sobre isso".

Ele dizia ainda que a cópia impediria uma promoção da cultura tradicional chinesa.

De acordo com Cheng Taining, um arquiteto da Academia Chinesa de Engenharia, muitos oficiais veem projetos estrangeiros como atalhos para se conquistar um aspecto de modernidade e cosmopolitismo.

"Oficiais chineses gostam de coisas estrangeiras vistas por eles", contou Cheng ao "Beijing News" em 2015. "Eles dizem, 'Por favor projetem um prédio que se pareça com aquele prédio no exterior'. Isso fica óbvio nos inúmeros prédios clonados na China. Oficiais acreditam que construir uma 'Casa Branca' ou uma rua 'em estilo europeu' confere status".

Não está claro por que a ponte de Suzhou, que está ali há anos, de repente atraiu um surto de atenção. Mas as críticas que ela tem recebido estão alinhadas com os pedidos do presidente Xi Jinping por uma maior ênfase no legado cultural da China.

Em um discurso feito em 2014, Xi pediu para que parassem com as "construções esquisitas", um apelo que ecoou no ano passado quando o Conselho de Estado, o Executivo da China, criticou exemplos da arquitetura urbana que fossem "exagerados, excêntricos, esquisitos" preferindo construções que fossem "apropriadas, econômicas, ecológicas e agradáveis aos olhos".

Em dezembro, em um discurso perante a Associação de Literatura e Arte e a Associação de Escritores Chineses, Xi pediu para que os artistas "consolidassem a confiança na cultura chinesa".

A ponte de Suzhou foi encomendada pelo governo de Xiangcheng por volta de 2008, de acordo com uma funcionária do Suzhou Municipal Engineering Design Institute, que construiu a ponte; ela atendeu ao telefonema, mas se negou a dar seu nome. Oficiais locais não responderam imediatamente a pedidos de comentários.

"Acho que a ponte foi construída só para ser decorativa", disse Zhou Qian, 36, que trabalha em uma construtora a um quarteirão da ponte. "Não tem uma real utilidade".

Essa versão da Tower Bridge é só uma das 56 pontes copiadas em Suzhou. Outras incluem versões da Ponte da Baía de Sydney na Austrália e da Ponte Alexandre 3º em Paris. As estruturas de estilo ocidental eram supostamente uma tentativa de marcar o distrito de Xiangcheng como um centro comercial e financeiro internacional.

A ponte certamente promoveu alguma atividade comercial, como os estúdios especializados em fotografia de casamentos em Suzhou. que prosperaram.

"Os efeitos nas fotos da ponte ficarão muito bons, e você nem precisa viajar para o exterior!", disse uma mulher que atendeu o telefone em um estúdio de Suzhou que oferece sessões de fotos na Tower Bridge. Ela só forneceu seu sobrenome, Su.

A popularidade do local se reflete nas notícias locais a respeito do número de acidentes de trânsito causados por sessões de fotos na ponte.

Mesmo a 53 km de distância, em Xangai, um estúdio oferece um pacote de viagens que inclui fotografias de casamento na Tower Bridge de Suzhou, a um preço de 19.999 yuans, ou cerca de R$9.100.

Tradutor: UOL

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