Com Trump na Casa Branca, alguns executivos se perguntam: por que não eu?

James B. Stewart

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    Howard Shultz, executivo-chefe da Starbucks, em um hotel em Milão, Itália

    Howard Shultz, executivo-chefe da Starbucks, em um hotel em Milão, Itália

Depois de chegar ao topo de uma grande corporação e amealhar uma fortuna, os executivos-chefes muitas vezes se perguntam: e agora?

Depois de Donald Trump, a resposta pode ser a disputa pela Casa Branca.

Trump não tinha experiência política ou militar, os caminhos tradicionais para os altos cargos políticos. Virtualmente, sua única qualificação era a carreira empresarial, e ainda assim com altos e baixos, considerando sua quase falência.

"Existe uma sensação de que se Trump conseguiu por que eles não poderiam?", disse David Gergen, codiretor do Centro para Liderança Pública na Escola Kennedy de Harvard e que foi assessor de quatro presidentes. "Eles foram mais bem sucedidos, têm mais experiência e dirigiram uma empresa de capital aberto, que é mais equivalente ao que um presidente faz do que uma empresa privada" como a Organização Trump.

Stu Loeser, que foi secretário de imprensa de Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova York que pensou em disputar a Presidência no ano passado, concordou. "Se você dirige uma empresa que emprega dezenas de milhares de pessoas, gerou muito lucro e teve um sucesso inegável, e você vê um presidente que, para ser franco, muita gente nos negócios não respeita muito, você pensa: por que não eu?", disse ele.

Loeser dirige sua própria firma de consultoria estratégica e me disse que tem clientes executivos de empresas que estão considerando disputar um alto cargo público. "Não posso dar seus nomes, obviamente", disse.

Nomes corporativos de destaque amplamente comentados como candidatos na próxima eleição presidencial incluem executivos-chefes como Howard Schultz, da Starbucks, Robert A. Iger, da Disney, e Marc Benioff, da Salesforce.com, juntamente com Sheryl Sandberg, diretora de operações da Facebook, e Oprah Winfrey, presidente e executiva-chefe da Harpo Inc., que é dona de metade da Oprah Winfrey Network.

Todos negam que sejam candidatos, ou mesmo pensem seriamente nisso. Mas todo mundo nega com tal antecedência das primeiras primárias, como fez Hillary Clinton quatro anos atrás, e isso não impediu ninguém de especular. É o caso especialmente das pessoas que, chocadas com o governo Trump, mal podem esperar pela próxima campanha.

"Eu sinto que muitos desses executivos estão reagindo a um desejo do público por um homem ou uma mulher forte, um líder forte", disse Gergen. "Há uma sensação de que foi por isso que Trump se elegeu. Você vê a mesma coisa na Europa, na Ásia, em uma longa série de países. As pessoas estão insatisfeitas com os políticos normais. Os militares e empresários com um histórico forte são uma alternativa atraente."

À parte a experiência empresarial comprovada, eles são nomes amplamente conhecidos e se identificam com marcas comerciais de sucesso. E têm bastante dinheiro para financiar suas campanhas.

Falei nesta semana com diversas pessoas que pelo menos discutiram a possibilidade de disputar cargos com Schultz e Iger. (Todas pediram que seus nomes não fossem revelados.)

Schultz, 63, com uma fortuna estimada pela "Forbes" em US$ 3 bilhões, quase se candidatou no ano passado, mas recuou ao concluir que seria muito difícil derrotar Hillary, que parecia ter a indicação democrata garantida na época e grande probabilidade de se eleger presidente.

Essas circunstâncias obviamente mudaram de forma drástica. Com Trump no poder, a próxima corrida democrata parece extremamente aberta, e muitos amigos e potenciais doadores estão pedindo que ele concorra. Schultz parecia abrir caminho em dezembro, quando anunciou que deixaria o comando da Starbucks em abril. Mas ele continua ativamente envolvido na expansão das rotisseries de alto nível da empresa, assim como em suas iniciativas de impacto social.

"Howard Schultz está definitivamente sendo procurado", disse Gergen. "Ele tem uma poderosa consciência social. Vem de um lugar muito diferente que o tipo de executivo-chefe com um grande ego que quer as vantagens do poder presidencial."

Schultz não quis comentar.

No ano passado Iger, 66, disse a "The Hollywood Reporter" que "muita gente --muita-- me pediu para tentar um cargo público", e na semana passada a publicação de entretenimento realimentou a especulação quando reportou que Iger tinha conversado sobre essa possibilidade com Bloomberg.

Pessoas que discutiram uma possível candidatura presidencial com Iger me disseram que sua conversa com Bloomberg, alguns anos atrás, concentrou-se em uma possível candidatura à Prefeitura de Nova York, cidade onde Iger tem um apartamento. Nova York há muito aceita candidatos não residentes, como Clinton, por isso a residência de Iger na Califórnia não seria um obstáculo.

Iger e Bloomberg não quiseram comentar.

Se algum desses cargos, incluindo a Presidência, seria realmente melhor que o de executivo-chefe da Disney é uma questão em aberto. Depois de anunciar precocemente sua aposentadoria, Iger disse há pouco que está disposto a prorrogar seu contrato, o que eliminaria a necessidade de uma estratégia de saída elaborada, pelo menos nos próximos anos.

Broches de campanha com "Vote em Benioff" e "Marc Benioff para presidente" circularam dois anos atrás na conferência anual da Salesforce em San Francisco, a Dreamforce, que atrai centenas de milhares de participantes e foi considerada por alguns como uma plataforma de lançamento para uma campanha de Benioff.

Assim como Schultz, Benioff tem uma ambiciosa agenda social e filantrópica. Ele começou o "Pledge 1%" [Prometa 1%], o modelo da Salesforce de doar 1% de seu produto, 1% de suas ações e 1% do tempo dos funcionários para ajudar organizações beneficentes a realizar suas missões --prática que a Salesforce diz que hoje é seguida por 1.400 empresas. Benioff foi um defensor declarado dos direitos de gays e lésbicas e ajudou a criar uma rede de líderes empresariais contrários às leis que limitam os direitos LGBT em Estados como Indiana, Geórgia e Carolina do Norte.

Benioff, 52, cuja participação na Salesforce vale mais de US$ 3 bilhões e que tem uma fortuna líquida estimada pela "Forbes" em mais de US$ 4 bilhões, também escreveu três livros, incluindo o best-seller "Behind the Cloud" [Por Trás da Nuvem]. Mas não é um nome famoso, e é mais conhecido nos círculos de negócios e tecnologia.

Solicitado a comentar, Benioff disse: "Os negócios são a melhor plataforma para mudanças".

A próxima turnê nacional de Sandberg para promover o novo livro que ela coescreveu, "Option B" [Opção B], que descreve seu confronto com a morte repentina do marido em 2015 e outras histórias de lidar com a adversidade, alimentou especulações (e possível excesso de otimismo) de que o livro seria o trampolim para uma campanha presidencial.

Como uma bilionária (US$ 1,47 bilhão, segundo a "Forbes") e uma executiva importante no sucesso estrondoso do Facebook, Sandberg tem um enorme reconhecimento do nome. Seu livro anterior, "Lean Índia" [Incline-se], foi um campeão de vendas e inspirou um grito de união das mulheres. Ela trabalhou em política antes, como assistente do ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers, e foi doadora da campanha de Hillary. Foi considerada candidata a um cargo de destaque em um governo de Hillary.

Sandberg negou qualquer ambição presidencial imediata, insistindo que adora seu trabalho no Facebook. Aos 47, ela não sofre pressão para disputar este ciclo eleitoral.

(Relatos generalizados de que o fundador e executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, se candidataria a presidente parecem ainda mais exagerados. A especulação parece ter sido deslanchada por uma reportagem na Bloomberg News de que Zuckerberg manteria o controle de votos no Facebook mesmo que vendesse suas ações e tivesse um cargo no governo durante até dois anos. Zuckerberg negou qualquer interesse por candidatar-se.)

Depois há Winfrey, 63, que para muitos democratas seria a candidata dos sonhos: ela tem um poder estelar incomparável, é uma mulher afro-americana, dirigiu uma empresa de sucesso e tem uma fortuna avaliada pela "Forbes" em US$ 3 bilhões.

Em uma entrevista transmitida na semana passada na Bloomberg Television, mas gravada em dezembro, o apresentador David Rubenstein levantou a ideia: "Está claro que não é preciso ter experiência no governo para ser eleito presidente dos EUA, certo?"

"Foi o que pensei", respondeu Oprah. "Eu pensava: 'Puxa, não tenho experiência, não sei o suficiente'. E agora estou pensando: 'Oh! Oh.'"

Mas quando Rubenstein começou a perguntar: "Enquanto você considera se irá se candidatar a presidente dos EUA ou não...", ela interrompeu: "Não, isso não vai acontecer".

Enquanto alguns podem criticar as credenciais de Trump para ser presidente, ele trouxe para sua campanha um nível de reconhecimento que será difícil qualquer outro executivo imitar, com a possível exceção de Oprah.

"Trump passou décadas construindo sua marca e sua imagem como um empresário de sucesso", disse Loeser. "Ele foi o astro de um dos programas de televisão mais vistos nos EUA. Quando você pousava em La Guardia, via o avião de Trump. Quando ia a Las Vegas, o edifício mais alto da cidade tinha o nome Trump no topo."

Gergen concordou: "Trump é um artista há anos. A maioria dos executivos não é artista".

E os executivos-chefes "não estão preparados para ser avaliados minuciosamente", disse Gergen. "É especialmente difícil trabalhar com a imprensa. Eles estão acostumados a ter camadas de pessoas ao seu redor, mas na política você está ali enfrentando os repórteres todos os dias."

"Veja o Rex Tillerson", acrescentou ele, referindo-se ao chefe da Exxon que virou secretário de Estado. "Ele é extremamente bem visto nos círculos corporativos, mas está tendo problemas com a imprensa."

Loeser disse que está ajudando clientes a avaliar o tipo de ataque que podem esperar em uma campanha disputada.

"Você tem de prever como eles irão persegui-lo, porque eles irão", disse Loeser. "Oprah é uma das pessoas mais amadas dos EUA. Mas alguém examinou cada minuto de todos os programas que ela fez para ver se há alguma coisa polêmica? Porque alguém fará isso."

Gergen sugeriu que alguns executivos poderiam querer mirar mais baixo. "Acho que executivos-chefes de empresas tendem a dar melhores governadores ou prefeitos", disse. "Eles podem ser mais pragmáticos e menos ideológicos. Alguns nomes que você está ouvindo, tenho dificuldade de vê-los com a ala Elizabeth Warren ou Bernie Sanders do partido. Eu não chamaria a isso de um par perfeito."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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