Um americano reporta da Síria com um ponto de vista e uma mensagem

Ben Hubbard

Em Beirute (Líbano)

  • On The Ground News via The New York Times

    Bilal Abdul Kareem ao lado de um combatente mascarado e com cinturão explosivo na Síria

    Bilal Abdul Kareem ao lado de um combatente mascarado e com cinturão explosivo na Síria

Em um trecho de estrada no norte da Síria, um míssil veio do céu e destruiu um carro, matando um militante islâmico e deixando os destroços de metal retorcido em um bosque de oliveiras.

Logo depois, um afro-americano magro, careca e barbado convertido ao islã, um ex-comediante stand-up de Nova York, chegou ao local.

Falando para uma câmera de vídeo com ultraje pouco velado, Bilal Abdul Kareem mostrou os fragmentos do míssil que, segundo ele, indicavam um ataque por drone americano, acrescentando que levou ao hospital as crianças que brincavam perto dali.

"Algumas pessoas aqui não acham que foi uma boa ideia", ele disse sobre o ataque, perguntando se há uma "guerra aberta" contra os sírios desde que países como os Estados Unidos possam "pegar seu homem".

A reportagem de janeiro foi uma das centenas que Abdul Kareem fez dentro da Síria nos últimos anos, construindo sua reputação como uma voz singular fazendo a cobertura da guerra a partir de áreas mantidas pelos rebeldes, das quais outros jornalistas ocidentais fugiram por medo de serem sequestrados ou decapitados pelos jihadistas.

Ao longo do caminho, Abdul Kareem já entrevistou combatentes estrangeiros do Reino Unido, da Arábia Saudita e de outros lugares, além de ter sobrevivido ao cerco ao leste de Aleppo pelas forças do governo, no ano passado.

Enquanto critica duramente os jihadistas do Estado Islâmico, ele realizou longas entrevistas com membros da afiliada síria da Al Qaeda. Em uma, um clérigo jihadista proeminente da Arábia Saudita explicou por que se juntar à jihad (guerra santa) na Síria é uma obrigação religiosa, além de os combatentes na Síria serem "a primeira linha de defesa" contra os xiitas.

Essas entrevistas levaram críticos a rotularem Abdul Kareem como um propagandista da jihad.

O governo sírio e seus aliados russos dizem que ele tem ligação com os terroristas. Apesar de os Estados Unidos não assumirem uma posição pública sobre seu trabalho, analistas de terrorismo dizem que ele fornece uma plataforma não crítica, em língua inglesa, para os jihadistas.

"É uma abordagem suave, açucarada", disse Alberto M. Fernandez, um ex-alto funcionário de contraterrorismo do Departamento de Estado e atualmente vice-presidente da Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio.

Gregg Vigliotti/The New York Times
Darrell Lamont Phelps (centro), agora conhecido como Bilal Abdul Kareem, em seu livro escolar de 1988 da Mt. Vernon High School, do Estado de Nova York (EUA)


Isso atende à estratégia da afiliada da Al Qaeda na Síria, a Frente Nusra, de se misturar com o movimento rebelde mais amplo ao mudar de nome, anunciar um rompimento com a Al Qaeda e se mesclar com outras facções, ações que não convenceram os Estados Unidos de que o grupo mudou, disse Fernandez.

"Mas para o mundo em geral, dentro da Síria e nas redes sociais, há um esforço para reinventá-los como jihadistas mais gentis", ele disse, acrescentando que Abdul Kareem faz parte desse esforço.

Abdul Kareem nega. Quando o contatei sobre seu trabalho, ele sugeriu brincando que eu aparecesse para jantar, na casa dele no norte da Síria.

Em uma série de entrevistas pelo Skype, ele discutiu seu trabalho e explicou como passou de um menino frequentador de igreja em Mount Vernom, Nova York, com gosto por "piadas de sua mãe é tão gorda", à função improvável de correspondente de guerra no Oriente Médio.

Ele insistiu que é um jornalista independente que não pertence a nenhum grupo militante, é contrário à violência contra civis e não tolera armas.

"Você acha que esta guerra precisa de mais um negro sem cabelo empunhando um (fuzil) Kalashnikov?" ele perguntou, rindo.

Mas ele reconheceu que fala com membros das facções radicais islâmicas da Síria, incluindo a Al Qaeda, para fornecer ao público ocidental uma janela para o ponto de vista deles.

Com muita frequência, ele disse, o Ocidente desdenha os combatentes islamitas como "terroristas", sem entender o que os motiva, assim como os islamitas não conseguem entender os Estados Unidos. Isso prende ambos os lados em uma batalha interminável onde todos perdem, ele disse, o que ele acredita que só pode ser resolvido por meio de diálogo.

Ele reconheceu que sua iniciativa é difícil, especialmente com o presidente Donald Trump na Casa Branca. Trump tem pedido por uma intensificação da guerra contra o que chama de "terrorismo radical islâmico", de modo que o diálogo com os islamitas parece improvável.

"Eu tenho essas conversas com os membros da Al Qaeda, e às vezes você os convence e às vezes não", ele disse. "Eu me pergunto sobre o quanto eu seria bem-vindo caso fosse a Washington e dissesse: 'Ei, pessoal, gostaria de conversar com vocês sobre a Al Qaeda'. Eu me pergunto se seria recebido com a mesmo chá com uma colher de açúcar."

On The Ground News via The New York Times
Bilal Abdul Kareem reporta de Aleppo, na Síria


Abdul Kareem nasceu Darrell Lamont Phelps e foi criado por sua mãe em Mount Vernon. Uma foto em um anuário de 1988 de seu colégio o mostra como um garoto sorridente vestindo smoking e gravata borboleta.

Como conta Abdul Kareem, ele se mudou para Nova York, onde tentou música, teatro e comédia stand-up antes de se converter ao Islã, atraído por seu conceito de Deus e sua ênfase em uma vida asseada.

Ele decidiu estudar árabe para que pudesse ler as escrituras islâmicas por conta própria e viajou para o Sudão antes de se estabelecer no Egito.

Lá ele conseguiu emprego apresentando um programa religioso de língua inglesa em uma emissora de televisão financiada pelos sauditas, mas entrou em atrito com a direção do canal por causa de seu interesse em atualidades e pediu demissão. Posteriormente ele fez documentários na Líbia, Ruanda e em outras partes para um canal islâmico no Reino Unido.

Em 2012, ele foi à Síria para documentar como os combatentes islamitas que controlavam o território estavam atuando, e a Síria passou a ser seu foco desde então. Desde o início, ele colaborou com veículos de notícias ocidentais na produção de reportagens sobre os combatentes estrangeiros. Mas ele sentia que eles só queriam as "histórias de bandidos" que tratavam os combatentes de modo sensacionalista, ele disse.

Assim, ele e alguns amigos fundaram a "On The Ground News" (notícias no terreno) para produção de vídeos e artigos originais a partir da Síria, que ele distribui por meio do Facebook, Twitter e YouTube. Ele disse que recebeu parte dos fundos de indivíduos solidários que ele se recusou a citar.

Atualmente com 46 anos, Abdul Kareem é casado e tem cinco filhos, que vivem com a mãe deles fora da Síria. Ele se recusou a dizer onde, por temor de que a ligação deles com ele possa lhes causar problemas com as autoridades.

Além de sua família e de poder se comunicar com as pessoas em inglês, ele sente falta da "pizza italiana de Nova York", ele disse.

Ele já cobriu diferentes aspectos da guerra, incluindo civis feridos em ataques aéreos, a destruição causada pelos ataques com foguetes e o ponto de vista dos combatentes, com frequência perto das linhas de frente.

Por todo seu trabalho há a visão de que a batalha contra o governo do ditador Bashar Assad é uma causa islâmica justa contra um opressor brutal, e o ultraje pelo mundo não estar fazendo mais para ajudar.

"É uma guerra sectária e não permita que ninguém lhe diga o contrário", ele disse. "Se lhe disserem que não é, elas não sabem ou estão mentindo."

O perfil de Kareem cresceu de modo significativo no ano passado, quando ele ficou preso no cerco ao leste de Aleppo pelas forças do governo, e enviava relatos quase diários sobre a deterioração da situação humanitária.

Desde então, ele permanece nas partes controladas pelos rebeldes na província de Idlib, no noroeste da Síria, onde espera que seu trabalho leve a uma conversa entre os militantes islâmicos e os Estados Unidos.

"Se os dois lados decidirem que a única forma de seguir em frente é apenas lançar ataques um contra o outro, então é o que decidiram fazer", ele disse. "Mas uma boa xícara de chá e algum diálogo nunca fizeram mal a ninguém."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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