Seu esperma está com problemas?

Nicholas Kristof

  • BBC Worldwide/Discovery

Vamos começar falando sobre sexo.

Enquanto o casal termina seu "serviço", milhões de espermatozoides começam o deles: uma corrida até um óvulo para fecundá-lo. Mas, ultimamente, segundo os cientistas, uma proporção cada vez maior de espermatozoides —hoje de aproximadamente 90% em um homem jovem comum— tem saído com má-formação, às vezes com duas cabeças ou duas caudas.

Mesmo quando têm a forma adequada, os espermatozoides de hoje muitas vezes são nadadores lamentáveis, cambaleando como bêbados ou esperneando feito doidos em círculos. As contagens de espermatozoides também parecem ter caído bruscamente nos últimos 75 anos, de formas que afetam nossa habilidade de reproduzir.

"Houve uma queda não somente no número de espermatozoides, mas também em sua qualidade e capacidade natatória, sua capacidade de cumprir sua função", disse Shanna Swan, uma epidemiologista da Faculdade de Medicina de Icahn de Mount Sinai, que observa que pesquisadores também associaram os problemas de sêmen a uma menor expectativa de vida.

Talvez você estivesse esperando outra coluna sobre gafes políticas em Washington, e eis que você se depara com uma conversa sobre maus nadadores. No entanto, esta não é somente uma curiosidade intrigante, mas sim uma preocupação bastante urgente que afeta a reprodução, possivelmente até mesmo o futuro de nossa espécie.

Andrea Gore, professora de farmacologia na Universidade do Texas em Austin e editora do jornal "Endocrinology", colocou a questão para mim desta forma: "A qualidade do sêmen e a fertilidade nos homens diminuiu. Nem todos que querem se reproduzir vão conseguir. E os custos das disfunções masculinas para a qualidade de vida, além do fardo econômico para a sociedade, são inestimáveis".

Estudos feitos em humanos e animais sugerem que um dos principais culpados é uma classe comum de químicos chamada de disruptores endócrinos, encontrados em plásticos, cosméticos, sofás, pesticidas e inúmeros outros produtos.

Devido às ligações ambientais, a "The New Yorker" uma vez se referiu elegantemente à crise como "esperma silencioso", e inúmeros estudos ao longo dos últimos 25 anos têm contribuído para a preocupação de que o esperma do mundo está com problemas.

Assim como os homens e os rapazes. Aparentemente relacionado com o problema do declínio na qualidade do sêmen está um aumento nas ocorrências de câncer testicular em muitos países, no número de testículos que não descem e na ocorrência de uma má-formação congênita do pênis chamada hipospádia (na qual a uretra sai para o lado ou para a base do pênis em vez da glande). Esses problemas muitas vezes ocorrem juntos e são chamados de síndrome da disgênese testicular.

Ainda não há um consenso quanto à escala do problema, e os dados nem sempre são confiáveis. Mas alguns cientistas estão começando a perguntar: em algum momento vamos enfrentar uma crise na reprodução humana? Será que podemos fazer com nós mesmos o que fizemos com as águias-carecas nos anos 1950 e 1960?

"Acho que estamos em um ponto crítico", me disse Niels Erik Skakkebaek, um estudioso de fertilidade dinamarquês pioneiro nesse campo. "A questão é se vamos ser capazes de nos sustentar."

Um estudo recente revelou que, dos candidatos à doação de esperma na província de Hunan, na China, 56% se qualificaram em 2001 porque seus espermas atendiam aos padrões de salubridade. Em 2015, foram somente 18%.

"A qualidade do sêmen entre os jovens chineses caiu ao longo de um período de 15 anos", concluiu o estudo, que envolveu mais de 30 mil homens.

Talvez ainda mais alarmante seja a descoberta de um experimento de sete anos conduzido por cientistas canadenses em um lago em Ontário, no qual eles adicionaram químicos disruptores endócrinos e observaram o impacto sobre os peixes Pimephales promelas.

Os químicos tiveram um impacto devastador sobre os machos, muitas vezes transformando-os em peixes hermafroditas, com características de ambos os sexos mais incapazes de se reproduzir.

A crise da saúde reprodutiva masculina parece começar no útero. Fetos masculinos e femininos começam basicamente iguais, e depois os hormônios levam à diferenciação entre machos e fêmeas. O problema parece ser o fato de que químicos disruptores endócrinos imitam os hormônios e confundem esse processo, interferindo no processo biológico da formação do macho.

E como deveríamos nos proteger? Swan disse que ela evita plásticos o quanto pode, incluindo alimentos ou bebidas que tenham encostado em plástico ou tenham sido aquecidos em plástico. Ela recomenda a ingestão de alimentos orgânicos para evitar resíduos de pesticidas, e também que se evite tomar Tylenol e outros analgésicos durante a gravidez. Recibos de impressoras térmicas, como em bombas de gasolina e caixas eletrônicos, também são suspeitos. Em caso de dúvida, ela consulta guias no site ewg.org/consumer-guides.

Contudo, isso não é somente uma questão de ações individuais, mas também uma questão de política pública que afeta dezenas de milhões de pessoas, sua capacidade reprodutiva, sua saúde e expectativa de vida.

O mais necessário, acima de tudo, é uma regulação mais agressiva sobre os disruptores endócrinos. Os Estados Unidos têm sido muito mais vagarosos do que a Europa na regulação de químicos tóxicos, e a maior parte das substâncias químicas vendidas nos Estados Unidos nunca tiveram sua segurança testada.

A questão mais ampla é por que permitimos que a indústria química —ao gastarmos US$ 100 mil (R$ 316 mil) por membro do Congresso com lobby — escape de uma regulação efetiva dos disruptores endócrinos. A dissimulação da indústria sinaliza uma reprise da batalha da indústria do tabaco contra a regulação sobre o fumo.

Se você duvida do que está em jogo, lembre-se disto: o futuro de nossa humanidade depende da saúde de nossos espermatozoides.

 

Tradutor: UOL

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