Preparando-se para o futuro usando aprendizados do furacão Sandy

David W. Dunlap

Em Nova York

  • Todd Heisler/The New York Times

    Trabalhador cruz o andar térreo na 540 W. 26th St, que é cerca de 1,2 metro acima do nível da rua, em Nova York

    Trabalhador cruz o andar térreo na 540 W. 26th St, que é cerca de 1,2 metro acima do nível da rua, em Nova York

Andar térreo não é exatamente o termo certo.

Em um novo prédio que abrigará galeria, salas de aula e escritórios e está sendo construído no bairro de West Chelsea em Manhattan, o piso principal fica a mais de 1,20 m do chão.

Isso não é meramente um conceito de design. Pisos elevados são obrigatórios em áreas sujeitas a alagamento como o terreno do novo edifício da West 26th Street, que fica a somente 365 metros do Rio Hudson.

West Chelsea foi atingida em cheio pelo furacão Sandy em 2012, assim como Lower Manhattan, onde a Savanna, a empresa de investimentos imobiliários por trás do prédio da 26th Street, tinha dois prédios comerciais que foram derrubados pelas enchentes.

"Aprendemos muito em primeira mão com a Supertempestade Sandy", disse Peter Rosenthal, responsável legal pela Savanna e seu diretor de desenvolvimento.

Construir um andar térreo que não fique no chão é uma forma de se defender de um futuro ameaçador.

Comunidades de todo o país estão enfrentando as crescentes evidências da mudança climática e elaborando meios de reforçar edifícios e infraestrutura para que aguentem a elevação dos níveis do mar e das tempestades cada vez mais intensas, ainda que o governo Trump esteja revertendo políticas propostas para a mudança climática.

"Não vamos mais gastar dinheiro nisso", disse recentemente a repórteres em Washington Mick Mulvaney, diretor da Agência de Gestão e Orçamento. "Consideramos que isso é um desperdício do seu dinheiro".

As pessoas que vivem, trabalham ou constroem em planícies aluviais como West Chelsea e outros lugares dizem que elas não podem ser tão indiferentes, e elas vão gastar dinheiro, sim.

"Estamos optando por encarar esse desafio de frente, investindo para tornar nossos bairros mais resilientes e fazendo nossa parte para reduzir a poluição que leva à mudança climática", disse em um comunicado o prefeito de Nova York Bill de Blasio, depois que o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para anular as políticas para a mudança climática do presidente Barack Obama.

O "The New York Times" traz estudos de caso e um glossário relacionado, abordando medidas tangíveis que estão sendo adotadas na Cidade de Nova York e entorno, para construir edifícios e infraestrutura mais resilientes diante de enchentes, ondas, ventanias e temporais.

O prédio de nove andares em West Chelsea, na 540 W. 26th St., tem uma área de mais de 15 mil m2. Cerca de metade dele foi alugado, em sua maior parte destinada a salas de aula, para a Avenues: The World School, cujo prédio principal se situa na 10th Avenue, contornando a esquina. O espaço comercial do térreo provavelmente atrairá galerias de arte. O projeto de US$ 160 milhões (R$ 503 milhões) deve ser concluído neste ano.

A Morris Adjimi Architects projetou o prédio, um quadriculado surpreendentemente modernista de janelas de 3,5m x 3,5m, trabalhando em conjunto com a DeSimone Consulting Engineers.

Todd Heisler/The New York Times
Aparelhagem elétrica, que normalmente fica no porão, agora é instalada num mezzanino em um novo prédio na 540 W. 26th St, em Nova York

O terreno da construção engloba duas zonas designadas pela Agência Federal de Gerenciamento Emergencial como planícies aluviais com períodos de retorno de 100 e 500 anos. Isso não significa que ocorram inundações a cada século (ou a cada cinco séculos). Significa que existe uma chance de 1% ou de 0,2% de inundação a cada ano.

Em uma planície aluvial com período de retorno de 100 anos, isso equivale a uma probabilidade de 26% de enchente ao longo de uma hipoteca de 30 anos, observou a Secretaria de Recuperação e Resiliência da prefeitura.

Regulamentações locais implementadas desde o furacão Sandy em geral requerem que novos edifícios comerciais em planícies aluviais de 100 anos sejam elevados ou construídos à prova de enchentes usando a "elevação mínima de construção", pelo menos 30 cm acima da marca prevista, ou "elevação esperada de enchente", de futuras enchentes.

A "elevação esperada de enchente" nessa área fica 3,35 m acima de um marco de referência chamado North American Vertical Datum. O nível da rua ao longo da West 26the Street por acaso fica 2,40 m acima desse ponto. A "elevação mínima de construção" é estabelecida em 3,65 m ou, em outras palavras, 1,20 m acima do nível da rua.

A Savanna poderia ter contado com barreiras contra enchentes expansíveis, assim como aquelas planejadas para as Empire Stores no Brooklyn, que, com aviso dado em tempo suficiente da chegada de uma tempestade, podem ser erguidas por equipes na frente dos prédios.

"Nós optamos pela abordagem mais passiva de elevar a laje do primeiro andar", disse Rosenthal. "Isso não exige nenhuma interação humana caso ocorra uma tempestade".

Depois de entrar no edifício pelo nível da calçada, os ocupantes e visitantes sobem até o nível superior através de degraus ou rampas. As águas das enchentes podem entrar e sair do nível inferior através de defletores.

Para acomodar o piso elevado, o segundo andar é construído mais alto do que o normal: a 6 m acima do nível da rua. A altura extra também permite um mezanino que abriga o sistema de alarme de incêndio e outros dispositivos elétricos. Até uma década atrás, isso teria sido colocado no porão.

A única infraestrutura significativa no porão é um tanque de combustível de 1.900 litros para o gerador elétrico que fica no telhado. Ele também será protegido contra as enchentes. O tanque fica ancorado no chão de concreto para evitar que flutue, disse Rosenthal. As bombas de combustível são submergíveis e ocuparão recintos à prova d'água.

Todo o porão foi projetado para funcionar como uma espécie de banheira reversa, mantendo a água subterrânea para fora com uma membrana feita de polietileno de alta densidade colocada sob os pisos de concreto e do lado de fora das paredes.

A laje de fundação de 46 cm por baixo do edifício é três vezes mais espessa do que precisaria ser na ausência de um lençol freático alto. Isso acrescenta 650 toneladas de peso à laje, que é ancorada à base subjacente. Essas medidas impedirão que o porão —na essência, um receptáculo à prova d'água— venha à tona como uma rolha gigante por causa da pressão exercida para cima pela água subterrânea.

"É difícil de imaginar um prédio que saia boiando", disse Rosenthal, "mas a água de fato agiria como uma força de flutuação".

No total, disse Rosenthal, as medidas necessárias para enquadrar o edifício nas regras da prefeitura acrescentaram um extra aos custos de construção. Mas ele disse que as medidas agregariam valor para os futuros ocupantes preocupados com a resiliência do prédio. Isso poderia resultar em aluguéis mais altos.

Rosenthal disse ainda que o sentimento é também pessoal. Depois do furacão Sandy, ele passou 6 meses consertando o 100 Wall St. e um ano consertando o 80 Broad St.

"Nunca mais quero passar por aquilo de novo", disse Rosenthal.

Tradutor: UOL

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