Sem descanso para a segurança: necessidades da família Trump estressam o Serviço Secreto

Nicholas Fandos

Em Washington (EUA)

  • Stephen Crowley/The New York Times

    O presidente Donald Trump e a primeira-dama, Melania Trump, chegam de West Palm Beach, na Flórida

    O presidente Donald Trump e a primeira-dama, Melania Trump, chegam de West Palm Beach, na Flórida

Passadas onze semanas da Presidência Trump, o Serviço Secreto está lidando em como conter a alta de custos e o estresse inesperado que acompanham a proteção da nova família presidencial, a maior, mais móvel e chamativa da história moderna americana.

Para que o trabalho possa ser realizado, dezenas de agentes de Nova York e de escritórios de campo por todo o país estão sendo temporariamente retirados de investigações criminais para servirem por duas semanas protegendo os membros da família Trump, incluindo a primeira-dama e seu filho mais novo na Trump Tower, em Manhattan.

Outros, já designados para a altamente seletiva divisão de proteção presidencial, esperavam por um alívio após um desgastante ano eleitoral. Essa esperança evaporou, já que passaram a fazer mais horas extras e a passar longos períodos longe de casa, por causa das viagens constantes da família Trump.

E em Washington, os líderes da agência já estão negociando por dezenas de milhões de dólares em fundos complementares para ajudar a compensar os custos elevados de proteger a Trump Tower e outros imóveis importantes da família, como Mar-a-Lago, na Flórida. É um número que apenas continuará subindo.

"Eles estão completamente esgotados", disse o deputado Jason Chaffetz, republicano de Utah, o presidente do Comitê da Câmara para Supervisão e Reforma do Governo. O mais alto membro democrata do comitê, o deputado Elijah Cummings, de Maryland, fez uma analogia: "É como estar em uma bicicleta da qual você nunca desmonta".

Isso se torna cada vez mais evidente à medida que o Serviço Secreto lida com o que representa um aumento de 40% mais pessoas sob sua proteção em comparação a um ano não eleitoral.

Há crescente preocupação entre atuais e ex-autoridades no Departamento de Segurança Interna e no Capitólio não apenas em como o Serviço Secreto acompanhará o ritmo, mas também o que poderia significar para sua recuperação de longo prazo do desgaste elevado, moral baixa e tetos de gastos que o atormentaram nos últimos anos.

"Acho que se ele fosse rico em recursos, ele absorveria isso", disse Douglas A. Smith, que serviu como secretário assistente de Segurança Interna sob o presidente Barack Obama. "Não se trata de não serem competentes o bastante para o trabalho, apenas estarem no limite de sua capacidade."

Diante de suas responsabilidades e da natureza que deve ser sem falhas de sua missão de proteção, a agência tem pouca opção a curto prazo a não ser tentar fazer mais com menos. De fato, a agência mantém que pode enfrentar qualquer adversidade.

"Independente do número de protegidos ou de onde a missão nos leve", disse Catherine Milhoan, uma porta-voz da agência, "o Serviço Secreto continua sendo uma agência expedicionária de manutenção da lei que continuará se adaptando e evoluindo com base na missão à mão".

Mas isso não ocorre sem falhas. Na quarta-feira, uma autoridade do Serviço Secreto confirmou que um agente de folga que foi designado para o destacamento de segurança do vice-presidente Mike Pence foi preso e indiciado por solicitar uma prostituta. O agente, que não foi identificado, foi suspenso, disse a autoridade, que falou sob a condição de anonimato para confirmar uma reportagem da CNN.

A agência conta com cerca de 250 agentes especiais e 350 funcionários administrativos e técnicos a menos do que durante seu pico, no início do governo Obama. O moral entre os funcionários caiu para o mais baixo de todas as agências federais, segundo levantamentos do governo. E os esforços para reconstruir a força de trabalho, que Chaffetz disse estar com 1.000 postos necessitando serem preenchidos, melhoraram, mas a agência continua com dificuldade para lidar com o desgaste.

Grande parte do trabalho para reverter essas tendências caberá ao próximo diretor da agência, que pela primeira vez deverá vir de fora de suas fileiras. A ordem é para que sacuda as coisas.

Por ora, a agência começou a deslocar recursos internamente para assegurar a proteção de seus protegidos, que agora inclui uma rara residência da primeira-dama fora de Washington, quatro filhos adultos e um novo e bastante ativo ex-presidente e sua família. Donald Trump Jr. e Eric Trump, os dois filhos adultos do presidente que administram os negócios da família, já viajaram para o Uruguai, o Canadá, a República Dominicana e Dubai neste ano, com seus destacamentos do Serviço Secreto fornecendo proteção plena.

Além dos altos funcionários e família imediata que é obrigado por estatuto a proteger, a agência também fornece destacamentos de proteção 24 horas aos cônjuges e filhos dos filhos adultos de Trump, assim como a vários de seus principais assessores, incluindo Reince Priebus, H.R. McMaster e Kellyanne Conway, a pedido do presidente. Os números provavelmente diminuirão um pouco em meados deste ano, quando o ex-vice-presidente Joe Biden e sua esposa, juntamente com a filha mais velha de Obama, deverão perder a proteção regular.

Com tantos novos protegidos vivendo em Nova York, ex-autoridades do Serviço Secreto disseram que a agência poderá estabelecer um escritório pleno da divisão de proteção presidencial lá, transferindo agentes de outras partes do país.

Por ora, entretanto, enquanto aguarda pela mudança potencial para Washington de Melania Trump e do filho mais novo de Donald Trump, Barron, a agência optou por enviar agentes de várias partes do país, como faria durante o período de campanha ou para segurança de um grande evento. Fazê-lo para um destacamento rotineiro fora do período eleitoral é menos comum e significa que a agência está pagando pelos quartos de hotel, transporte e despesas, aos preços de Manhattan, disseram as autoridades.

A agência também está alugando espaço dentro da Trump Tower para escritórios e dormitórios temporários, disseram duas autoridades, apesar dos detalhes da transação não serem públicos.

O escritório de campo de Nova York parece ter sido atingido de forma particularmente dura. Das dezenas de agentes lotados lá, em qualquer dia um terço está envolvido na proteção. Isso diminuiu por ora o tipo de inteligência para proteção e casos de crimes financeiros e cibercrimes que normalmente ocupam grande parte de seu trabalho, segundo um ex-agente do escritório com informação a respeito. Esse trabalho investigativo é visto dentro da agência como crucial não apenas para o desenvolvimento da capacidade de investigação dos agentes e combate ao crime, como também para aguçar suas habilidades de proteção.

"Basicamente, o Serviço Secreto agora está em modo de campanha em tempo integral", disse James F. Tomsheck, que deixou a agência em 2006 após 23 anos. "Isso degradará enormemente a qualidade de vida da maioria dos agentes no Serviço Secreto, por causa do aumento de viagens, dos períodos longos longe da família."

O Serviço Secreto já estava exausto após um ano eleitoral longo e contencioso, no qual protegeu cerca de 6.000 paradas além de sua carga de trabalho normal. Mais de 1.000 agentes atingiram seu teto de remuneração no caminho, o que significa que nos meses finais de campanha estavam trabalhando horas extras sem remuneração. O Congresso interveio para aprovar uma compensação por parte desses fundos perdidos, mas ainda não destinou o dinheiro.

Em um esforço separado para aliviar as preocupações com o pagamento das horas extras neste ano, o diretor interino da agência, William J. Callahan, anunciou em uma carta na sexta-feira que permitiria um teto separado para horas extras para funcionários "essenciais para a missão" para assegurar que sejam compensados pela grande carga de trabalho.

O cálculo dos custos financeiros exatos das novas medidas é difícil. O Serviço Secreto é famoso por ser sigiloso a respeito de como gasta seu dinheiro, para evitar a politização das viagens e proteção presidencial. E outros custos são compartilhados pelos Estados e municipalidades que fornecem agentes da lei e outros recursos de acordo com o necessário.

Além dos US$ 27 milhões que pediu para proteção da Trump Tower e dos membros da família presidencial em Nova York, como primeiro noticiado pelo jornal "The Washington Post", a agência está avaliando a necessidade de milhões adicionais para outras despesas, desde novas tecnologias e funcionários, segundo o Escritório de Administração e Orçamento.

A cidade de Nova York diz que gastou US$ 300 mil por dia protegendo apenas a Trump Tower entre o dia da eleição e o dia da posse. A proteção do prédio quando Donald Trump não está lá custa menos, entre US$ 127 mil e US$ 145 mil por dia, segundo James P. O'Neill, o comissário de polícia da cidade, mas isso não leva em consideração outros custos para a cidade.

E no condado de Palm Beach, Flórida, lar do resort Mar-a-Lago de Donald Trump, o departamento do xerife diz que está gastando US$ 60 mil por dia em horas extras quando o presidente está na cidade. Donald Trump voltará para lá nesta semana pela sexta vez desde sua posse, para um encontro de cúpula com o presidente da China, Xi Jinping.

O Departamento de Defesa e outras agências dentro do Departamento de Segurança Interna também exercem papéis significativos no transporte e proteção do presidente, apesar do custo não ser claro. Relatórios sendo preparados pelo Escritório de Contabilidade do Governo sobre os estudos das despesas de segurança associadas às viagens de Donald Trump para a Flórida provavelmente trarão mais informações à luz nos próximos meses.

Enquanto crescem os custos, W. Ralph Basham, que dirigiu a agência sob o presidente George W. Bush, disse que o Serviço Secreto não tem escolha a não ser realizar sua missão. Ele disse que o fardo deveria caber ao Congresso para fornecer a ele mais recursos para mais contratações, melhorias tecnológicas e outras despesas de segurança.

"A pergunta que deve ser feita é, qual é a alternativa?" disse Basham. "Não dá para apenas recuar e dizer que é caro demais proteger essas pessoas."

 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos