'Comporte-se ou pegaremos pesado': Indianas lutam pela proibição do álcool

Geeta Anand

Em Bandol (Índia)

  • Atul Loke/The New York Times

    Mulheres protestam com palavras "anti-álcool" em plantação de milho onde o álcool era produzido ilegalmente, em Bihar, na Índia

    Mulheres protestam com palavras "anti-álcool" em plantação de milho onde o álcool era produzido ilegalmente, em Bihar, na Índia

Recentemente, em um sábado, dezenas de mulheres empunhando vassouras invadiram uma casa de palha desse vilarejo, fazendo com que o dono fugisse através de uma plantação de arroz enquanto elas apreendiam baldes de suco de fruta que fermentavam para virar uma bebida barata.

A uma hora de estrada dali, um grupo de aldeãs seguiu o cheiro de álcool e atravessou uma plantação de milho, encontrando toneis de aguardente enterrados no chão, que elas vigiaram durante várias horas até a chegada da polícia.

Assim como tantos discípulos de Carry Nation, a defensora da temperança que declarou guerra contra bares americanos na virada do século 20, as aldeãs resolveram elas mesmas lidar com a questão, pondo em prática uma lei de proibição em Bihar, um dos Estados mais pobres e rurais da Índia.

Embora a renda per capita fosse menor que US$600 (R$1.866) por ano, muitos homens, se não a maioria deles, costumavam gastar boa parte de seu dinheiro em bebida, empobrecendo ainda mais suas famílias.

"Era a norma aceitável, estar bêbado", disse Raj Kumar Prasad, chefe da delegacia de Halsi, que monitora 50 vilarejos, inclusive Bandol.

Mas isso mudou, dizem autoridades e moradores, acrescentando que a lei que impõe punições severas à venda e ao consumo de álcool parece ter funcionado notavelmente bem. O índice de criminalidade caiu bruscamente, como mostram números do governo, e o gasto com coisas como motocicletas e eletrodomésticos subiu de forma significativa. E quase todos atribuem à vigilância das mulheres de Bihar a maior parte do sucesso da lei.

Atul Loke/The New York Times
Mulheres marcham para o outro lado do rio, onde o álcool era produzido ilegalmente, em Bihar, na Índia

Tudo começou quase dois anos atrás, quando o ministro-chefe de Bihar, Nitish Kumar, estava na maior briga de sua vida política contra o Partido Bharatiya Janata, partido do primeiro-ministro Narendra Modi. Kumar havia acabado de discursar em uma sala de conferências em julho quando uma mulher se aproximou do microfone.

"Irmão, proíba o álcool", ela disse.

Por razões que ele ainda não consegue explicar, disse Kumar, ele prometeu: "Se eu for eleito, vou proibir o álcool".

Essas palavras foram parar nas capas dos jornais do país, e não havia como voltar atrás. Um dia depois de ser reeleito, em uma esmagadora derrota do Partido Bharatiya Janata, Kumar começou a redigir uma lei draconiana que impunha sentenças máximas de sete anos a quem bebesse álcool e prisão perpétua a quem o fabricasse.

Não haveria exceções para tratamentos médicos ou hotéis turísticos, motivos pelos quais a proibição não deu certo em outros lugares, ele disse.

A medida entrou em vigor em abril passado. Kumar havia planejado promulgar a lei em fases, começando nas áreas rurais. Mas manifestantes impediram a abertura de lojas de bebidas na capital do Estado, Patna, ainda que elas ainda estivessem legais no primeiro estágio da proibição.

O público —especialmente as mulheres— ficou empolgado. Entre 200 e 300 queixas chegavam a cada dia nas linhas telefônicas e contas de e-mail da polícia, segundo Alok Raj, que, como diretor-geral adjunto da política, assumiu a liderança na execução da lei.

As mulheres há muito tempo vinham reclamando que o álcool estava empobrecendo suas famílias, disse Kumar, de 66 anos. Os resultados ao longo do ano desde que a medida entrou em vigor confirmam essas queixas.

Atul Loke/The New York Times
Mulheres discutem com dono de uma plantação de milho, onde bebida alcoólica era produzida ilegalmente, em Bihar, na Índia

Os assassinatos e roubos de gangues caíram quase 20% em relação ao ano anterior, e os tumultos caíram 13%. Acidentes fatais de trânsito caíram 10%.

Ao mesmo tempo, os gastos domésticos subiram, com um aumento de mais de 10% nas vendas de leite e de 200% nas vendas de queijo seis meses após a proibição. Vendas de veículos de duas rodas cresceram mais de 30%, enquanto a venda de eletrodomésticos cresceu 50%. Casas de alvenaria estão sendo erguidas em vilarejos onde cabanas de barro costumavam predominar.

Nem todos estão felizes. Mais de 42 mil pessoas foram presas com a nova lei e estão aguardando julgamento. As pessoas que ganhavam a vida transformando arroz e suco de frutas em bebidas alcoólicas —muitas vezes residentes mais pobres e de castas inferiores— foram levados a aceitar trabalhos de menor remuneração, como trabalhadores diaristas. A vida noturna em Patna perdeu vigor, uma vez que muitos restaurantes que costumavam servir álcool fecharam e suas receitas caíram até 50%.

"O tamanho da punição é alto demais", disse Jitan Ram Manjhi, um ex-ministro-chefe de Bihar. "É injusto". Ele apoia a proibição, mas observou que até mesmo um assalto à mão armada estava sujeito a uma sentença mais branda.

Em uma tarde recente, Prasad, o chefe da delegacia de Halsi, podia ser visto sentado em uma escrivaninha gasta do lado de fora de sua sede, com uma garrafa de uísque sobre a mesa à sua frente enquanto ele redigia um relatório em hindi.

Naquela manhã, seguindo uma denúncia, seus agentes pararam um pequeno sedã branco que vinha de um Estado vizinho. Escondidas nas portas e em outros lugares do carro estavam 40 garrafas de uísque, um indício de que um tanto de álcool sempre acabaria sendo contrabandeado para dentro de Bihar a partir de Estados vizinhos onde ele é legal, segundo ele.

Sessenta por cento das denúncias que ele recebe são de mulheres, e muitas delas denunciam até mesmo parentes e vizinhos por estarem bebendo, vendendo ou fabricando bebidas alcoólicas, disse Prasad.

"Entrou na cabeça das mulheres essa ideia de parar de beber", ele disse. "Isso fez uma grande diferença".

Em janeiro do ano passado, antes que a lei de proibição fosse promulgada, as mulheres de Bandol fizeram sua primeira tentativa coletiva de acabar com o álcool. Cerca de 100 delas invadiram uma cabana de barro onde havia bebidas sendo vendidas, forçando seu fechamento e arrastando o proprietário até a delegacia.

Depois, grupos de mulheres começaram a aparecer nas casas dos maiores beberrões do vilarejo, exigindo que eles parassem.

Um dos primeiros foi Omprakash Ram Chandrawanshi, 35. "Comporte-se ou vamos pegar pesado", elas lhe disseram, como lembra sua mulher, Soni Devi Chandrawanshi. Elas gritavam: "Assim como levamos o dono daquela loja para a polícia, vamos levar você".

Soni Chandrawanshi disse que seu marido se sentou ali calado, com a cabeça baixa, enquanto as mulheres o repreendiam. "Acho que ele pensou: 'Se elas fizeram aquilo com o dono da loja, vão fazer o mesmo comigo'", ela disse.

Omprakash Chandrawanshi, um homem magro sentado em uma cadeira de plástico do lado de fora do quarto que ele divide com sua mulher e três filhos, disse que o grupo o assustou a ponto de fazê-lo largar um hábito que o desgraçou.

"Se eu ganhasse 500 rúpias, gastava 200 em bebida", ele disse. Ele ganha o equivalente a cerca de US$200 (R$622) por mês como motorista, segundo ele, mas "muitas vezes eu não trazia dinheiro nenhum para casa".

Agora sua família não somente consegue comprar mais comida, como também pode pagar por reforço escolar para ajudar os filhos na escola, ele disse, e pôde ampliar a casa de alvenaria compartilhada pela família estendida.

Atul Loke/The New York Times
A família Chandrawanshi, em sua casa em Bandol, na Índia

Chandrawanshi e vários outros beberrões que se emendaram ficaram tão encantados com essa nova vida de sobriedade, que se juntaram ao grupo de vigilantes das mulheres para perseguir e identificar operações ilegais envolvendo bebidas alcoólicas.

Eles também atenderam ao chamado de seu ministro-chefe para demonstrar seu apoio à proibição do álcool ao se juntarem a uma corrente humana que atravessou o Estado. Mais de 30 milhões de biharis, cerca de um quarto da população, deram as mãos ao longo de mais de 11 mil km de estradas em um dia de janeiro, como relatou a mídia local.

A iniciativa de Kumar é tão popular entre o público que líderes de outros Estados passaram a prestar atenção. Delegações de legisladores estaduais visitaram o local nos últimos meses para estudar as razões para o sucesso de Bihar.

O ministro-chefe do Estado vizinho de Madhya Pradesh anunciou recentemente que ele introduziria aos poucos a proibição. No dia 31 de março, o Supremo Tribunal da Índia reafirmou sua proibição sobre as vendas de bebidas alcoólicas perto das rodovias do país para tentar reduzir a direção sob embriaguez.

O segredo em Bihar é uma lei agressiva impulsionada por uma campanha social e política implacável que teve grande simpatia entre as mulheres, disse Kumar. "Só quando você tem mulheres por trás é que você tem sucesso", ele disse.

* Com reportagem de Hari Kumar.

Tradutor: UOL

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