Macron, o candidato desconhecido que quer mudar a França

Alissa J. Rubin

Bagnères-de-Bigorre (França)

  • PIERRE TERDJMAN/NYT

    Emmanuel Macron durante campanha em Pau, na França

    Emmanuel Macron durante campanha em Pau, na França

Nos últimos dias antes das eleições presidenciais da França no domingo, Emmanuel Macron caminhava pela neve no alto das montanhas, perto da fronteira com a Espanha, para uma parada crucial de campanha perto desse pequeno vilarejo onde seus avós moraram no passado.

Com a disputa excepcionalmente apertada, aquele parecia um lugar improvável para qualquer candidato. Não havia praticamente nenhum eleitor à vista. Mas mais tarde Macron descreveu a viagem como uma "peregrinação", seguido por cerca de 20 jornalistas, que em parte tinha a intenção de mostrar seu lado humano, para refletir sua conexão com um "terroir''—um lugar definível e uma história pessoal — com o qual os eleitores franceses pudessem se identificar.

Sem nenhum partido político sobre o qual falar, e sem nunca ter ocupado nenhum cargo eletivo, Macron, 39, um ex-banqueiro de investimentos e ex-ministro da Economia, está conduzindo uma improvável jornada para se tornar o mais jovem presidente da França moderna. Seu perfil é de um ''insider", mas suas políticas são as de um "outsider". Se o ultraprecoce Macron vencer, seu primeiro desafio será vender um produto ainda desconhecido para quase todos: ele mesmo.

O fato de Macron ser tão desconhecido põe em evidência sua atípica posição em uma eleição francesa que, até certo ponto, é um referendo sobre o futuro da Europa. A líder da extrema-direita Marine Le Pen ameaça tirar a França da União Europeia. Em compensação, Macron é um ardoroso defensor da Europa e se pintou quase como o anti-Le Pen.

A corrida realmente é incerta. Até 30% do eleitorado francês se encontra indeciso, e quatro dos 11 candidatos, incluindo Macron, estão com 3 ou 4 pontos de diferença entre um e outro. Os dois candidatos com o maior número de votos no primeiro turno da eleição se enfrentarão em uma votação final no dia 7 de maio.

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Emmanuel Macron e sua esposa Brigitte, em teleférico no sul da França

Macron está tão próximo de Le Pen, líder da Frente Nacional, que é difícil dizer quem está na frente. Mas Macron está encorajado pelo fato de que mais da metade dos eleitores franceses apoiam candidatos fora dos partidos tradicionais e convencionais.

Macron criou um novo movimento político, o En Marche!, que quer dizer "Avante" ou "Em frente", que se inspira em ambos os lados do espectro político. Sua aposta é de que sua filosofia pós-partidária esteja em sintonia com o clima nacional.

Mas o aluno mais inteligente da classe nem sempre é o que vence. Embora ele já tenha preenchido praticamente todos os requisitos necessários para uma carreira bem-sucedida entre a elite francesa, Macron pode ser na verdade o tipo de agente de mudança que a França teme.

Em um segundo turno —presumindo que ele e Le Pen cheguem até a disputa final— ela seria uma solução política temporária, o voto para se preservar ou restaurar uma visão nostálgica (ou, segundo críticos, ultrapassada) da França e que revive o nacionalismo e exibe sentimentos anti-muçulmanos. Ela expandiu seu movimento atacando a globalização —a União Europeia, a perda de empregos na França e a onda de imigrantes.

Macron é o candidato anti-establishment do establishment. Ele ataca tabus —como  a aposentadoria e as proteções trabalhistas— pensando em tornar a França mais propícia para os negócios, ao mesmo tempo em que professa que preservará a rede de segurança social. Muitos questionam se ele realmente conseguirá fazer ambos ao mesmo tempo.

Apesar dos riscos políticos, Macron abraçou orgulhosamente uma impopular União Europeia, e pregou tolerância para com os imigrantes e muçulmanos que nunca foram amados na França, ainda menos desde os atentados terroristas de 2015.

Contudo, ele claramente agradou muitos eleitores, apesar de ser "um objeto político não identificado", como foi descrito por Pascal Perrineau, um professor de ciências políticas na Sciences Po em Paris.

"Esse é um homem que, certamente, começou sua carreira no Partido Socialista, e ele diz que não é centrista", disse Perrineau. No entanto, "ele é, como ele diz, da direita e da esquerda e esta é uma invenção que nossa família política nunca viu antes".

A visita a Bagnères-de-Bigorre —quase exatos quatro anos desde a morte da avó de Macron— foi uma oportunidade para o candidato se definir melhor. Ao mesmo tempo sincera e estratégica, a excursão foi pensada para retratá-lo como alguém com raízes na França "real" de vilarejos e trabalhadores rurais esforçados.

"A jornada que fiz hoje me trouxe de volta várias lembranças", disse Macron mais tarde a uma multidão de 5 mil pessoas em um comício noturno perto de Pau, uma cidade de quase 80 mil habitantes, acrescentando que ali era onde ele costumava se encontrar com sua avó, "que eu tanto amava".

"Foi ela e meu avô que durante anos me levaram a viver em Bagnères-de-Bigorre, a andar ali, correr ali, aprender a andar de bicicleta, a esquiar, a criar raízes em nosso país", ele disse.

Nascido e criado em Amiens, a cerca de 112 km de Paris, Macron é o mais velho de três filhos de pais médicos. Ele frequentou uma escola paroquial fundada por jesuítas. Quando ele tinha 15 anos, conheceu Brigitte Trogneux, uma professora de francês e teatro por quem ele se apaixonou. Sendo 24 anos mais velha que ele, ela inicialmente tentou desencorajá-lo, mas ele estava determinado e por fim ela se encantou.

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Emmanuel Macron em seu escritório em Paris, na França

Em um documentário transmitido pelo canal de TV France 3, ela lembrou o ano em que ele foi terminar o ensino médio em Paris, no prestigioso Liceu Henri 4º. "Ele me ligava o tempo todo", ela disse. "Passávamos horas ao telefone. Aos poucos, ele foi minando minha resistência de uma maneira incrível— com paciência".

Ela acabou se divorciando de seu primeiro marido e pai de seus três filhos, sendo que uma filha está trabalhando na campanha de Macron. O aluno e sua professora se casaram em 2007.

O caso de amor foi o tipo de empreendimento audacioso que definiu a vida e a carreira de Macron. Sua determinação, seu foco e sua disposição para avançar a passos largos em um país onde em geral o sucesso é construído aos poucos o tornam mais parecido com os empresários que ele admira do que com um político típico.

Macron, que é um produto de faculdades de primeira linha, incluindo a prestigiosa Sciences Po e a Escola Nacional de Administração, conquistou um lugar cobiçado em um órgão auditor de elite no Ministério das Finanças, que deixou para entrar no banco de investimentos Rothschild&Co.

Embora ele soubesse pouco sobre investimentos, em quatro anos na firma Macron foi promovido de diretor a diretor-geral. Ele ganhou quase 2,9 milhões de euros (R$9,7 milhões) nesses anos, de acordo com a declaração financeira de quando ele era ministro da Economia.

Em 2014, quando tinha 36 anos, foi nomeado ministro da Economia no mandato do atual presidente socialista da França, François Hollande, cargo que deixou para dar início à sua campanha. Sua única realização significativa foi a aprovação do que ficou conhecido como a Lei Macron, uma mistura de políticas econômicas elaboradas em sua maior parte para eliminar burocracias e tornar os mercados mais flexíveis.

Aqueles que trabalharam de perto com Macron, tanto no governo quanto no setor privado, ficaram quase que unanimemente impressionados com seu domínio e sua dedicação, mas alguns deles disseram que às vezes se sentiam enganados à medida que Macron ia atrás de suas ambições.

Francis Vercamer, um membro da União dos Democratas e Independentes (centro-direita), lembra-se de ter proposto diversas emendas à Lei Macron em particular e disse que o ministro da Economia falou de forma positiva sobre elas. Mas quando Vercamer as trouxe à tona em um debate sobre a legislação, Macron rejeitou cada uma delas, segundo ele.

"Não quero dizer que foi desonesto porque esse não é o termo certo", disse Vercamer, que era vice-presidente do comitê que examinou a proposta de lei. "Mas, para alguém que vem a uma reunião privada e diz 'Isso é bom' e depois, em uma reunião pública, não o apoia e não dá uma justificativa, isso não é digno de um representante da República".

A ideia do que Macron representa como um candidato —um amálgama original de políticas pró-mercado e pró-bem-estar social, com uma perspectiva otimista para o futuro da França— muitas vezes parece ser mais inspiradora do que o próprio Macron.

Em seu comício realizado recentemente em Pau, o público parecia um pouco mais empolgado antes de ele falar do que depois, e alguns pareciam confusos com suas propostas arrogantes. Ele já foi acusado de ser tecnocrata, abstrato e às vezes pouco empático.

PIERRE TERDJMAN/NYT
O candidato a presidência francesa Emmanuel Macron e sua esposa Brigitte, em campanha no sul da França

Um episódio ocorrido no ano passado durante uma visita a um evento no sul da França, quando Macron foi provocado por um ativista sindicalista de 21 anos de camiseta preta, parece emblemático.

O jovem gritou para o bem-vestido ex-banqueiro, dizendo que ele "não tinha um centavo para comprar um terno como aquele".

Macron respondeu: "A melhor forma de se pagar por um terno é trabalhando".

"Eu trabalho desde os 16 anos", respondeu o rapaz, em um diálogo que foi interpretado pela população como algo que pôs Macron em seu devido lugar.

As propostas de políticas de Macron, embora sejam muitas, foram acusadas de serem vagas e difíceis de definir politicamente, especialmente para um país que pensa em termos de esquerda e direita política. Mas, para outros, essa é a vantagem dele.

Jacques Attali, um economista, escritor e antigo conselheiro de políticos franceses, disse que muitas das ideias de Macron foram forjadas enquanto ele trabalhava em uma prestigiosa comissão econômica não-partidária criada no mandato do presidente de direita Nicolas Sarkozy.

"A ideia por trás da comissão era fazer algo que deveria ter sido feito ou pela esquerda ou pela direita, ou por ambas, mas que não foi feita por ninguém", disse Attali, que atuou como presidente da comissão.

A adoção do bipartidarismo pode resultar em não ter nenhum dos lados o apoiando.

"De certo modo, a esquerda não acredita realmente nele; de certo modo, a direita não acredita realmente nele", disse Frédéric Martel, um conhecido escritor especializado em política e cultura, que também apresenta um popular programa de rádio na France Culture.

Mas há muita gente que acredita, especialmente entre os relativamente jovens urbanos e instruídos.

"Ele tem um tipo de liberdade de pensamento que pode ser vista nas escolhas que ele fez", disse Amélie Castera, uma antiga amiga de Macron que estudou com ele na Escola Nacional de Administração e hoje detém um cargo sênior na AXA, a gigante francesa dos seguros.

"Ele tem essa liberdade que vem de sua confiança em seu destino", ela disse.

* Com reportagem de Aurelien Breeden (Paris).

Tradutor: UOL

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