Estádio de clube da segunda divisão alemã tem 'anexo' inusitado: uma pré-escola

Andrew Keh

Em Hamburgo (Alemanha)

  • Gordon Welters/The New York Times

    Crianças observam aquecimento do FC Saint Pauli, da segunda divisão da Alemanha

    Crianças observam aquecimento do FC Saint Pauli, da segunda divisão da Alemanha

Era fim de tarde de terça-feira na pré-escola da Fundação Pestalozzi e algumas poucas dezenas de crianças e seus pais permaneciam ali após o horário normal de saída.

Realmente não havia pressa para chegar em casa. Eles estavam desfrutando da vista da varanda traseira da pré-escola: o interior do Millerntor-Stadion, o estádio com 29.546 lugares que é a casa do FC Saint Pauli, enquanto se enchia de torcedores para uma partida de futebol de meio de semana. 

Permanecer após a aula nunca foi tão divertido. 

Desde 2010, a Fundação Pestalozzi opera no interior do estádio, oferecendo às famílias regalias cuja maioria provavelmente é exclusiva no mundo no ensino na primeira infância. 

A pré-escola usa por empréstimo o campo, túneis e cobertura do estádio para atividades em grupo. Os jogadores da equipe aparecem para ler para as crianças. Os professores usam a principal arquibancada da arena como uma sala de descanso gigante. E nos dias de jogos, os pais reservam um ponto privilegiado para assistir aos jogos, na varanda da pré-escola, a uma curta distância da ruidosa arquibancada sul. 

"Nós nos inscrevemos em três pré-escolas", disse Katja Frank, 42 anos, uma professora de artes que tem dois filhos na Pestalozzi. "Duas por serem próximas de onde morávamos, e aqui, por ser muito bacana." 

As pré-escolas na Alemanha são parecidas em conceito com as dos Estados Unidos, existindo fora do sistema escolar formal ao atender crianças com idades entre 3 a 6 anos. A palavra em alemão Kindertagesstatte, que costuma ser abreviada para Kita, significa uma creche para crianças de qualquer idade. Como a Pestalozzi aceita crianças de 8 meses a 6 anos, as pessoas se referem a ela tanto pelas palavras pré-escola quanto Kita. 

Gordon Welters/The New York Times
Crianças e pais podem assistir ao jogo do Saint Pauli da área da pré-escola

Na tarde de terça-feira, os jogadores em campo se preparavam para uma partida crucial contra o Sandhausen. No interior, em um corredor exibindo recortes de papel pintados a dedo das iniciais do clube, FCSP, uma criança pequena balançava em um macacão todo preto com o escudo da equipe de caveira e ossos cruzados. Perto dali, uma professora embalava um bebê para dormir. 

A pré-escola foi concebida oito anos atrás, quando o FC Saint Pauli reformava o estádio. Havia espaço para um prédio no canto sudoeste, entre duas grandes arquibancadas reconstruídas. A decisão de usá-lo como creche e pré-escola fazia sentido talvez apenas no mundo não convencional de um clube com consciência social e seu bairro. 

"A responsabilidade social para com as pessoas que vivem na área de Saint Pauli é um assunto muito especial para o clube, faz parte de nosso DNA", disse Christoph Pieper, o principal porta-voz do clube, cujos dois filhos cursam o programa da pré-escola. (Três outros funcionários do clube também têm seus filhos matriculados.) 

Após uma passagem breve pela Bundesliga, o FC Saint Pauli tem se mantido na segunda divisão nos últimos anos. Mas apesar de seus resultados modestos em campo, ele se tornou famoso e popular fora de Hamburgo. Seus torcedores são conhecidos por sua política de inclinação de esquerda e campanhas contra o racismo e homofobia. No topo das arquibancadas (visível das janelas da pré-escola) enormes placas dizem em alemão "Não há lugar para fascistas no futebol" e "Nenhuma pessoa é ilegal". 

Saint Pauli, o bairro, que fica em uma área de classe trabalhadora conhecida por suas casas noturnas de música e pelo distrito da luz vermelha, está passando por gentrificação nos últimos anos. O escudo de caveira da equipe e suas cores branca e marrom são proeminentes no bairro, onde muitas pessoas equiparam o clube a um estilo de vida. 

Logo, a ideia de uma creche/pré-escola no estádio da equipe local querida seduz muitos pais locais. 

"Quando recebemos excursões, temos pais que são torcedores da equipe que chegam aqui e dizem: 'Meu Deus, meu filho precisa estudar aqui!'" disse Nina Greve, uma das diretoras do programa. "E digo, tipo, 'OK, deixe-me falar primeiro sobre o que fazemos e qual é nosso conceito, não apenas o futebol'. Essa deveria ser a parte importante, não é? Mas às vezes tudo gira em torno do futebol." 

Greve e sua chefe, Juliane Schermuly-Petersen, brincam que elas provavelmente são as únicas duas funcionárias indiferentes ao futebol e ao clube. Duas horas antes da partida, as duas estavam trabalhando em uma mesa comunal no escritório delas. Elas pareciam não notar o torcedor tocando um enorme tambor do lado de fora da janela. 

Enquanto as crianças, que chegam a 130 para uma equipe de cerca de 20 pessoas, realizam suas atividades no interior, vendedores do lado de fora da entrada da pré-escola vendem linguiças grelhadas e cerveja gelada. O sol ainda estava brilhando e os torcedores começavam a entrar no estádio para estender suas faixas e ocupar seus lugares nas arquibancadas. 

"Normalmente eles ficam muito bêbados", disse Schermuly-Petersen sem desviar o olhar da tela de seu computador. 

Após as crianças comerem seu almoço (arroz com ensopado de carne e legumes, grande parte do qual parece ter ido parar no chão) e seguirem para suas salas para a hora do cochilo, longe da agitação do lado de fora do prédio, vários dos professores saíram para o meio das arquibancadas para a pausa para fumar. 

"Adoro o clube, adoro futebol e posso trabalhar aqui todo dia, de modo que é muito bacana", disse Anne Schick, 32 anos, uma professora que também atua como goleira de uma das equipes femininas do FC Saint Pauli. 

Schick, cuja esposa também trabalha no Pestalozzi, é torcedora do Saint Pauli há 18 anos. Ela disse, com algum desconforto, que não se importa se alguma das crianças ou seus pais torcerem para o Hamburgo SV (o clube maior da cidade), mas ela fingiu nausear ao dizer o nome. De qualquer forma, ela brincou, ela e seus colegas fazem sua parte para doutrinar sutilmente as crianças. 

Nessas salas de aula, a cantoria nas arquibancadas se mistura às canções e poesias infantis. Os professores, por exemplo alteram sutilmente as letras das canções populares do clube para que as crianças cantem junto: 

"Quando toda a Kita canta pelo Saint Pauli,

Isso ressoa por todo Millerntor.

As melhores crianças da cidade cantam apenas para você.

Então vá, FC, marque outro gol. "

Cerca de uma hora antes da partida, o terraço do jardim de infância começou a se encher de pais jovem com jaquetas, bonés, óculos elegantes e calçados interessantes. Também apareceram café e alguns petiscos. Do lado de fora, perto da entrada da pré-escola, um homem com cabelo moicano verde vomitava ao lado do prédio. 

A Pestalozzi disponibiliza um número modesto de lugares no terraço aos pais a cada partida, postando listas de inscrição poucos dias antes. Durante as partidas, as salas de aula ficam repletas de professores e estagiários, de modo que as crianças podem assistir ao jogo com seus pais ou brincar no interior do prédio. 

Niels Grutzner, um dos pais, segurava seu filho Bo, 3 anos, que usava protetores no ouvido contra a barulho da torcida. Grutzner estava particularmente empolgado com aquela partida: seu filho Piet, 8 anos, entraria em campo junto com os jogadores antes da partida. 

"Não precisamos de babás nos dias de jogos, o que é realmente importante quando os dois pais são torcedores da equipe", disse Grutzner, jornalista. 

Minutos depois, Grutzner, usando gorro e luvas sem dedos, subiu na cadeira, segurando uma faixa da equipe acima de sua cabeça quando o jogo começou. 

Frank, a professora de artes, já assistiu a cerca de uma dúzia de partidas nos últimos anos. Ela disse que os jogos são uma ótima forma de fazer amizade com outros pais e conhecer os professores. "É um local bacana de se estar", disse Frank. "E as pessoas são politicamente corretas."

E seus filhos, Jonna, 5 anos, e Henri, 2, se encaixam bem com os torcedores de futebol. "Eles são muito bons em gritar", ela disse com um sorriso.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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