Como uma nação se reconcilia após um genocídio que matou quase 1 milhão de pessoas

Megan Specia

Em Mbyo (Ruanda)

  • MEGAN SPECIA/NYT

    Jacqueline Mukamana perdeu mais de doze parentes durante o genocídio

    Jacqueline Mukamana perdeu mais de doze parentes durante o genocídio

Eles acordaram cedo e se reuniram em um terreno daqui, neste vilarejo ruandês que é composto por um punhado de casas. Juntos, começaram a revolver com enxadas um terreno sem grama. A missão: cavar uma vala de drenagem ao longo de uma fileira de casas que vêm inundando continuamente com as chuvas.

Cenas como essa se repetiram em toda a Ruanda nesse sábado, um dia mensal de serviço conhecido como Umuganda.

A premissa é simples e extraordinária na eficiência de sua execução: todo cidadão ruandês apto fisicamente entre 18 e 65 anos deve participar de um serviço comunitário por três horas, uma vez por mês. A comunidade identifica um novo problema de obra pública a ser abordado a cada mês.

"Nunca tivemos o Umuganda antes do genocídio", disse Jean Baptiste Kwizera, 21, limpando o suor de sua testa enquanto fazia uma pausa no projeto aqui em Mbyo, a cerca de uma hora de estrada de Kigali, a capital.

Embora o genocídio tenha terminado um ano antes de Kwizera nascer, ele está profundamente entranhado nas vidas dos ruandeses, até mesmo dos mais jovens.

Esse trabalho compulsório é emblemático de uma cultura mais ampla de reconciliação, desenvolvimento e controle social postulada pelo governo.

Cada umudugudu —ou vilarejo— local faz o controle de quem comparece aos projetos mensais. Aqueles que não participam sem uma justificativa podem ser multados e, em alguns casos, presos.

MEGAN SPECIA/NYT
Moradores da cidade de Mbyo trabalham na drenagem de terrenos da região

O presidente do país, Paul Kagame, querendo dar o exemplo e aproveitando uma oportunidade para promover o serviço nesse sábado, ajudou a cavar as fundações de uma nova escola primária na região nordeste do país enquanto dezenas de fotógrafos tiravam fotos.

"Umuganda tem a ver com a cultura de se trabalhar junto e ajudar uns aos outros a construir este país", disse Kagame aos repórteres.

Ruanda tem sido um experimento singular em reconciliação nacional e reengenharia social assiduamente aplicada nas mais de duas décadas desde seu devastador genocídio, quando milhares de pessoas da maioria étnica Hutu do país desencadeou uma onda de inenarrável violência contra a minoria Tutsi e compatriotas Hutu moderados que se recusaram a participar da chacina. Em somente 100 dias, quase 1 milhão de pessoas morreram.

A Umuganda foi reavivada e dezenas de outros exercícios de reconstrução da nação foram concebidos durante o governo de Kagame, que ascendeu ao poder após o genocídio e tem ocupado a presidência desde 2000. Uma emenda constitucional recente abriu o caminho para ele disputar um terceiro mandato, e é exatamente isso que ele pretende fazer em agosto.

Embora muitos dos programas de sua administração tenham reduzido a pobreza e os índices de mortalidade infantil, Kagame continua sendo uma figura controversa.

Muitos analistas políticos e grupos de direitos humanos dizem que Kagame criou uma nação que é ordenada, mas repressiva. As leis que banem a chamada ideologia genocida e que foram adotadas para dissuadir um ressurgimento do discurso sectário ou de ódio também são usadas para reprimir até mesmo críticas legítimas contra o governo.

Nesse contexto, é difícil avaliar os sentimentos das pessoas a respeito da eficácia dos esforços de reconciliação, incluindo a Umuganda. A Comissão de Unidade e Reconciliação Nacional do governo divulgou por duas vezes um "termômetro da reconciliação", que analisa dezenas de fatores para determinar o quão bem as pessoas estão convivendo. Em 2015, o último ano para o qual há números disponíveis, o país considerava que a reconciliação em Ruanda estava em 92,5%.

Nesta manhã em Mbyo, nenhum dos moradores questionava abertamente a Umuganda ou o processo mais amplo de reconciliação.

"Nós precisávamos de segurança e a encontramos por causa de nosso governo", disse Kwizera, elogiando um governo que ele vê como essencial para traçar um caminho para o futuro.

"Eu estava na parte que estava sendo caçada", ele explicou, descrevendo a identidade étnica de sua família sem nunca pronunciar a palavra Tutsi. Assim como outros de sua geração, que aprenderam desde seus primeiros dias na escola a suprimir qualquer senso de identidade étnica, ele se considera simplesmente como ruandês.

Mas, em Mbyo, o reconhecimento de divisões passadas é inevitável.

Mbyo é um dos sete "vilarejos de reconciliação" estabelecidos pela Prison Fellowship Rwanda, uma organização cristã que faz a mediação do pequeno aglomerado de casas para aqueles condenados por executar os atos de violência e aqueles que sofreram em suas mãos.

O pastor Deo Gashagaza, que ajudou a fundar a organização, criou um processo para conectar ruandeses que foram presos por participar da carnificina com as famílias que eles prejudicaram, e incentivar o diálogo através de atividades centradas na comunidade.

"Reconstruir a nação requer que todos ajudem", disse Gashagaza. "Ainda temos muito a fazer por nossas comunidades, pela coesão social. É doloroso, mas é uma jornada de cura".

Nesses vilarejos, a reconciliação não é somente um momento. É um modo de vida.

MEGAN SPECIA/NYT
Pessoas descansam após trabalharem em uma vala de drenagem

Em um terreno sombreado por árvores de flores amarelas, Jacqueline Mukamana e Mathias Sendegeya podiam ser vistos sentados lado a lado descascando amendoins e jogando-os dentro de uma frigideira de metal.

À primeira vista, a dupla poderia ser confundida com um casal de marido e mulher, apoiados à vontade um contra o outro enquanto descascavam os amendoins. Eles eram vizinhos antes do genocídio e se conhecem há muito tempo, tendo crescido em uma aldeia próxima.

Em 1994, Mukamana tinha 17 anos. Seu pai, seis irmãos, cinco irmãs e nove tios foram mortos naquele mês de abril. Ela fugiu para o Burundi. Quando voltou, viu a casa de sua família destruída.

Sendegeya estava entre o grupo que matou o pai dela e quatro outros membros de sua família, um fato sobre o qual os dois falam de forma franca, mas sem muitos detalhes.

Embora Sendegeya assuma a responsabilidade pelos assassinatos, ele acredita que os líderes políticos do passado orquestraram as matanças e que sem essa influência sua vida teria sido muito diferente.

"Isso foi culpa do governo da época, que nos levou a matar Tutsis", ele disse, com os olhos voltados firmemente para a frente enquanto ecoava um sentimento ouvido em toda a comunidade, tanto de perpetradores quanto de sobreviventes. "Nós os massacramos, matamos e comemos suas vacas. Eu os ofendi gravemente".

Quando estava na cadeia, ele estava esperando pela morte, e a reconciliação nunca passou pela sua cabeça, ele disse.

Sendegeya reingressou na sociedade através de um programa que permite que os perpetradores sejam soltos se buscarem o perdão de suas vítimas. Enquanto estava na prisão, ele procurou Mukamana através do Prison Fellowship Rwanda.

"Ele confessou e pediu por perdão. Ele me contou a verdade", explicou Mukamana. "Nós o perdoamos de coração. Não há nenhum problema entre nós".

Mas o processo de cura levou anos.

No começo, Sendegeya temeu por sua segurança. Ele achava que os sobreviventes do genocídio que vivem em Mbyo o matariam pelo que ele fez. Na primeira reunião comunitária que juntou todos os residentes, ele achou difícil se sentar diante deles, ou mesmo olhar para eles.

Depois de se mudar para Mbyo, Mukamana tinha seus próprios temores. Ela sabia o que os perpetradores um dia foram capazes de fazer, e imaginava que Sendegeya um dia a mataria.

Ambos disseram que viver nessa comunidade mediada permitiu que eles tivessem um espaço para gradualmente chegarem a um ponto de confiança e perdão.

Hoje eles estão criando uma nova geração de ruandeses. Sendegeya tem uma mulher e nove filhos, sendo que seis deles nasceram antes de ele ir para a prisão e três nasceram depois de seu retorno.

Mukamana e seu marido têm quatro filhos. Ela lhes ensinou sobre a história do genocídio, e disse que eles sabem do papel que Sendegeya teve no assassinato de membros de sua família, mas que eles nunca tiveram medo dele.

"Nossos filhos não enfrentam problemas com eles", disse Sendegeya.

Os filhos dela vão para a casa dele para preparar refeições, e às vezes ela lhe pede que cuide de seus filhos quando ela está fora.

"Esta é a entrada da minha casa", disse Mukamana, apontando com um gesto para a porta da frente, a poucos passos de onde a dupla estava sentada. "Sempre que ele encontra algum problema, ele pode me ligar e pedir ajuda, e o mesmo vale para mim".

*Megan Specia foi bolsista em 2017 pela Iniciativa de Reportagem sobre os Grandes Lagos Africanos da Women's Media Foundation's.

Tradutor: UOL

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