Na periferia francesa, eleitores insatisfeitos podem deixar de votar em turno decisivo

Lilia Blaise e Alissa J. Rubin

Em Stains (França)

  • Dmitry Kostyukov/The New York Times

Para os eleitores da periferia mais pobre de Paris, composta em grande parte por imigrantes, a motivação para votar no segundo turno presidencial da França parece clara: derrotar Marine Le Pen, a líder de extrema-direita da Frente Nacional, cuja campanha se baseia em propostas contra imigrantes e muçulmanos.

O outro candidato, o centrista Emmanuel Macron, pareceria uma alternativa fácil. Mas a realidade desta fase da eleição em cidades como Stains, onde a frustração da população é grande em relação à incapacidade de políticos cumprirem promessas passadas, é que muitos eleitores podem simplesmente optar por ficar em casa no próximo fim de semana durante a crítica votação final.

"Não conte com os bairros da classe trabalhadora este ano para salvar a França", disse Inès Seddiki, uma muçulmana francesa de 26 anos moradora de Stains, cujos pais vieram do Marrocos.

Embora Seddiki tenha dito que votaria relutantemente em Macron, ela temia ser uma exceção: "Os brancos que dizem: 'Você tem que votar contra Marine Le Pen porque perderá mais do que nós' não percebem que, para nós, nós já vivemos em um país racista".

No primeiro turno da eleição presidencial em 23 de abril, os eleitores de muitos dos subúrbios mais pobres de Paris compareceram às urnas, mas pelo enérgico candidato da extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon, que canalizou a raiva das comunidades negligenciadas pelo sistema político. E muitos também optaram por não votar. A segunda opção —não votar— agora é uma possibilidade real no segundo turno para aqueles que no primeiro votaram em Mélenchon, ainda que provavelmente eles sejam os que mais tenham a perder.

Quanto exatamente a abstenção de eleitores poderia determinar se Le Pen pode derrubar as expectativas e vencer Macron? A ideia que prevalece é de que uma ampla maioria de eleitores —uma Frente Republicana que inclua a periferia mais pobre— se unirá em torno de Macron para segurar Le Pen e a extrema-direita. Mas uma baixa participação poderia ameaçar essa crença e ajudar Le Pen.

Na periferia mais pobre da França, muitos franceses são de origem árabe com pais ou avós vindos da Argélia, do Marrocos ou da Tunísia. Muitos também são da África subsaariana, das ex-colônias francesas Costa do Marfim, Mali, Senegal e Togo, e daquilo que já foi a Indochina francesa, hoje Camboja, Laos e Vietnã. Para eles, nem a direita nem a esquerda cumpriram suas promessas no que diz respeito a tornar os empregos mais acessíveis e reduzir a discriminação.

Ataques terroristas recentes pioraram o estigma atrelado a imigrantes e muçulmanos. Após os atentados terroristas em Paris e no entorno, cometidos no dia 13 de novembro de 2015, foram conduzidas algumas batidas policiais em casas de Seine-St.Denis, a jurisdição política que inclui Stains.

"O segundo turno é uma catástrofe", disse Cheker Messaoudi, 29, um francês de ascendência tunisiana. "Acho que com Macron estamos enfrentando uma guerra econômica e com Le Pen estamos enfrentando uma guerra civil, então é ruim de qualquer jeito".

Com um índice de abstenção de 38% incluindo votos em branco, em comparação com os 23,5% em todo o país no primeiro turno da eleição presidencial, Stains reflete um grau particularmente alto de desilusão. A comunidade de cerca de 38 mil habitantes no subúrbio de Paris votou em massa em Mélenchon, um ex-trotskista, que terminou em quarto lugar. Com Mélenchon fora, muitas pessoas veem a disputa, como em um antigo ditado francês, como uma escolha entre "la peste et le choléra" (a peste e a cólera).

Para muitos aqui, as propostas políticas de ambos os candidatos não são atraentes: Le Pen propõe um programa de segurança pública que colocaria muçulmanos de dupla cidadania em um risco maior de serem expulsos do país caso sejam mesmo remotamente ligados àqueles que são suspeitos de terem associações terroristas. Ela também criticou o uso do véu islâmico em público.

Já o ex-banqueiro Macron é visto como próximo da elite endinheirada. Ele é criticado por seu apoio ao Uber, que emprega muitas pessoas a baixas remunerações e muitas vezes sob condições precárias. Ele trabalhou como ministro do presidente socialista François Hollande, que prometeu melhorias que nunca vieram.

Sociólogos e cientistas políticos que estudam os subúrbios mais pobres da França com populações substanciais de minorias, conhecidos aqui como "banlieues", dizem que nenhum dos candidatos deu ao povo grandes motivos para votar neles.

"Eles estão realmente cansados de pessoas falando sobre as banlieues mas não fazendo nada", disse Julien Talpin, um pesquisador de ciências políticas na Universidade de Lille. "Macron nas banlieues é uma espécie de grande fracasso. Ele parece ser a encarnação do establishment, da elite, e as pessoas conseguem ver que ele não é um deles".

Macron obteve 22% dos votos em Stains.

Sentado em seu gabinete próximo da praça central de Stains, o prefeito, Azzédine Taibi, que é muçulmano, sugeriu que seria necessário alguém que inspirasse as pessoas, bem como programas de governo efetivos, para fazer com que o povo voltasse a aceitar o sistema político.

"Este é um eleitorado que não tem mais nada a perder", ele disse. "Por esse motivo, o que vejo nesta eleição é uma sensação de abandono da classe trabalhadora: ou os deixamos em total desesperança ou construímos uma esperança junto com eles através de uma política alternativa".

Yassine Belattar, um popular comediante de stand-up que cresceu na periferia, disse que o sentimento antigoverno estava significativamente mais forte este ano por causa de Mélenchon, que ratificou a sensação de injustiça do povo e sua revolta contra o sistema.

"Ele manipula a raiva para seus fins pessoais", disse Belattar, referindo-se a Mélenchon, acrescentando que a recusa do candidato em apoiar Macron acaba ajudando Le Pen. Mélenchon anunciou na sexta-feira que ele não votaria em Le Pen, mas se recusou a apoiar Macron.

Belattar disse que pretendia votar em Macron.

Contudo, o sentimento de traição é grande entre muitas pessoas, também contra os socialistas, que prometeram uma mudança mas não conseguiram cumprir.

"Hollande visitou a periferia, mas essas visitas foram para a imprensa", disse Slimane Abderrahmane, subprefeito de Bobigny, subúrbio vizinho de Stains, onde o índice de abstenção na eleição da semana passada foi de 37% (incluindo votos em branco). Mélenchon obteve 43% dos votos.

"Hollande prometeu programas sociais e econômicos", ele acrescentou. "Ele prometeu acabar com as abordagens policiais baseadas em raça. Ele tinha um monte de promessas que o povo nunca viu se realizarem".

Abderrahmane disse que votaria em Macron só porque tinha medo de que a situação para os muçulmanos ficasse notavelmente pior com Le Pen.

No entanto, seu amigo Sylvain Legér, um conselheiro municipal que é branco e passou sua vida inteira em Bobigny, disse que depois de votar em Mélenchon no primeiro turno, ele não conseguiria votar em Macron. Ele optará pela abstenção.

"Ele é 100% a favor da globalização", disse Legér. "O que significa quando os trabalhadores vêm de seus próprios países, se misturam com trabalhadores franceses, e de um lado você tem jovens que querem trabalhar e do outro você tem pessoas que vêm de outros lugares da Europa ou de outros países e que trabalham por menos?"

Na sexta-feira, Catharine Bonté, 75, uma ex-auxiliar de enfermagem, disse que no passado escreveu cartas para antigos presidentes pedindo por ajuda.

"Todos eles me ajudaram um pouco com assistência social", disse Bonté, que é negra. "E a mulher de Giscard d'Estaing até mesmo me apoiou por eu ser mãe solteira e vítima de injustiças e racismo".

"Mas Hollande nunca me ajudou; ele nunca respondeu às minhas cartas", ela acrescentou. "Então entendo quem tenha desistido de votar. Tem muito sofrimento por aqui".

Tradutor: UOL

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