Crise de Trump na Ásia preocupa um antigo aliado dos EUA: a Austrália

Damien Cave

Em Darwin (Austrália)

  • DAVID DARE PARKER/NYT

    Membros do Terceiro Batalhão da Quarta Marina dos EUA, em parada militar em Darwin, na Austrália

    Membros do Terceiro Batalhão da Quarta Marina dos EUA, em parada militar em Darwin, na Austrália

A Coreia do Sul, o Japão e os EUA se acostumaram com as afrontas da Coreia do Norte, mas há pouco tempo Pyongyang ameaçou um novo alvo com um ataque nuclear: a Austrália. 

Durante uma visita do vice-presidente americano, Mike Pence, a Sydney (Austrália), a Coreia do Norte advertiu o país para que pense duas vezes em "seguir cega e zelosamente a linha dos EUA" e agir "como uma brigada de choque para o senhor americano".

Tropas australianas e americanas lutaram lado a lado em todos os grandes conflitos desde a Primeira Guerra Mundial, e há poucos militares no mundo com relações mais próximas: 1.250 fuzileiros navais dos EUA chegaram recentemente a Darwin para seis meses de exercício conjuntos; os dois países compartilham inteligência de terra, mar e até do espaço; e o primeiro-ministro Malcolm Turnbull deverá se encontrar com o presidente Donald Trump na quinta-feira (4) em um porta-aviões em Nova York.

Mas a ameaça da Coreia do Norte contra o país, por mais que pareça excêntrica, é um exemplo de como a aliança militar mais importante da Austrália enfrenta um novo desafio: o risco de que Trump leve o país a um conflito ou a mais uma crise inesperada que desestabilize a região, irrite seus parceiros comerciais ou a obrigue a assumir um lado, o dos EUA ou o da China.

"A pergunta é: o que os EUA poderiam levar a Austrália a fazer?", disse Ashley Townshend, um pesquisador do Centro de Estudos dos EUA na Universidade de Sydney. "Essa é uma ideia muito assustadora para os australianos, muitos dos quais veem Donald Trump como um comandante-em-chefe muito errático e egocêntrico."

Trump já causou embaraços à Austrália uma vez, com um telefonema abrupto a Turnbull que parecia desprezar o papel histórico da Austrália como um amigo que muitas vezes dá mais do que recebe. Agora sua abordagem imprevisível está alimentando um debate nacional sobre a relação da Austrália com o mundo, especialmente os EUA.

DAVID DARE PARKER/NYT
Oficiais da Marina dos EUA, em sala de aula da Base Aérea Australiana, em Darwin, na Austrália

Na semana passada, Paul Keating, que foi primeiro-ministro durante a era Clinton, reiniciou a discussão ao afirmar que a Austrália deve terminar sua atuação como "Estado cliente".

A Austrália está essencialmente apanhada entre duas potências: a China, seu maior parceiro comercial, e os EUA, seu fiel aliado, com uma conexão militar que foi reforçada pelas guerras no Iraque e no Afeganistão e acordos mais recentes para gradualmente expandir a presença americana em Darwin.

O que os dois países agora vão tentar decidir é como administrar esse momento militar em uma parte cada vez mais tensa do mundo. Se os militares são um martelo na era Trump, em que ponto cada disputa começa a parecer um prego?

"É sempre importante que haja um equilíbrio entre os militares e os diplomatas, por causa da escala dos militares", disse Keating em uma entrevista. "Em termos econômicos e estratégicos, eles espremem a diplomacia."

Darwin, uma cidade costeira úmida e infestada de crocodilos na extremidade norte deste vasto país, captura o passado, o presente e o futuro da aliança da Austrália com os EUA.

O Japão atacou a cidade em 19 de fevereiro de 1942, matando 235 pessoas, e os moradores rapidamente indicam que os ataques foram liderados pelo mesmo comandante responsável pelo ataque a Pearl Harbor, dez semanas antes.

Em poucos meses, Darwin tornou-se um polo para contra-ataques de bombardeiros pilotados por americanos. Um guia de bolso para as tropas americanas que chegavam definia o tom: "Vocês vão conhecer um povo que gosta dos americanos e de quem vocês vão gostar".

Durante a Guerra Fria, a relação se expandiu.

Kim Beazley, um ex-ministro da Defesa e embaixador nos EUA, citou a construção nos anos 1960 de três instalações conjuntas para manter contato com os submarinos americanos no oceano Índico e fazer a detecção em infravermelho de capacidades soviéticas, aumentando o tempo de aviso de um potencial ataque soviético de 15 para 30 minutos.

Essas instalações e as que se seguiram --especialmente Pine Gap, uma base de espionagem conjunta Austrália-EUA que ajuda a fornecer informações do campo de batalha e advertências precoces para lançamentos de mísseis em todo o mundo-- "nunca são mencionadas, mas são na verdade as entranhas da aliança", disse Beazley.

Em solo em países como Iraque e Afeganistão, as tropas australianas também são companheiras de batalha, disse o tenente-coronel Brian Middleton, comandante do 3º Batalhão, 4º Fuzileiros Navais --a unidade dos EUA que acaba de chegar a Darwin para seis meses de treinamento com os australianos.

Como parte da virada americana para a Ásia, o plano de longo prazo, negociado durante o governo Obama, é enviar até 2.500 fuzileiros para Darwin --a maior mobilização de forças americanas na Austrália desde a Segunda Guerra Mundial. "Isso vai nos tornar mais eficazes em qualquer conflito que acabarmos servindo juntos", disse Kelly Magsamen, autoridade do Pentágono de políticas para Ásia-Pacífico no final do governo Obama.

DAVID DARE PARKER/NYT
Soldados marcham no 'ANZAC Day', dia onde a Austrália e a Nova Zelândia relembram a batalha de Gallipoli (Turquia), onde dezenas de soldados da ANZAC (Forças Armadas da Austrália e da Nova Zelândia) morreram

Outras autoridades americanas dizem que no espaço, na defesa de mísseis e na guerra cibernética os australianos são atuantes. A Austrália está trabalhando com os EUA para relocar um radar especial que ajuda a rastrear satélites. Os militares australianos também estão fazendo um grande esforço em inovação em guerra submarina e drones aéreos e subaquáticos.

E em muitos casos isso significa compras de equipamento americano. Um relatório de planejamento da defesa australiana do ano passado previu um aumento de US$ 20 bilhões no orçamento militar anual até 2025, incluindo dinheiro para caças a jato, tecnologia de vigilância, submarinos, navios de superfície e outros equipamentos.

Os australianos estão incluídos em todos os níveis dos militares americanos. O comodoro do ar australiano Phillip Champion tem uma história comum: ele trabalhou pela primeira vez com os americanos como jovem piloto, no início dos anos 1980, em aviões de vigilância, e mais tarde como comandante no mundo todo, inclusive no Afeganistão.

"Nós crescemos juntos", disse ele em entrevista por telefone do Havaí, onde está destacado com o Comando do Pacífico desde janeiro. "Nós confiamos uns nos outros e sabemos que podemos operar juntos."

Mas ainda houve desafios. Em uma discussão no ano passado sobre o custo dos fuzileiros navais em Darwin, os australianos fizeram uma apresentação cheia de dados afirmando que os fuzileiros americanos comem mais que os soldados australianos típicos, e portanto forçam mais o sistema de esgotos. Eles disseram que os americanos deveriam pagar mais pela reforma dos esgotos nas bases militares. A proposta surpreendeu até os principais negociadores australianos, que rapidamente a abandonaram, segundo autoridades de defesa dos EUA.

As questões mais difíceis envolveram a China, a principal influência junto à Coreia do Norte e na região. Algumas autoridades americanas pediram que a Austrália se envolva em robustas operações de liberdade de navegação no mar do Sul da China, onde a China montou bases em ilhas disputadas, mas os australianos resistiram.

No ano passado, autoridades americanas também manifestaram apreensão sobre um porto em Darwin que as autoridades locais alugaram a uma empresa chinesa por US$ 361 milhões, possivelmente facilitando a coleta de informações sobre as forças americanas e australianas estacionadas nas proximidades.

"A China é o elefante na sala para nós dois", disse Magsamen. "Precisamos ter uma conversa mais franca e estruturada entre nós sobre como administrar esse relacionamento."

Allan Gyngell, que dirigiu a agência de inteligência da Austrália de 2009 a 2013, afirma em um novo livro, "Fear of Abandonment" [Medo do abandono], que a política externa australiana ainda é conduzida por preocupações sobre ficar isolada, sem a promessa de segurança de um amigo poderoso: primeiro o Reino Unido, agora os EUA.

Keating, o ex-primeiro-ministro, é um dos que pedem uma política externa mais independente, em que a Austrália aceite a China como potência dominante na região.

Na conversa na semana passada no Instituto Lowy, um grupo de pensadores em Sydney, Keating disse que a Austrália deveria dizer não aos EUA com maior frequência --como fazem a França e o Canadá--, especialmente sobre questões que afetam a relação da Austrália com a China.

Os que rejeitam esse argumento incluem John Howard, o primeiro-ministro que sucedeu a Keating e estava em Washington em 11 de setembro de 2001. Em uma entrevista, Howard advertiu contra ser "hipnotizado pela China" e disse que seu Partido Liberal, que é o mais conservador dos dois grandes partidos do país, "aplicou a dobrada do dia".

"Nós aprofundamos nossa relação com os EUA e a China se tornou nosso maior cliente", disse ele.

Howard acrescentou que muitos australianos estão tirando conclusões apressadas sobre Trump. "Ele é diferente", disse. "Se é diferente para melhor ou para pior não é a questão; o mundo tem de se acostumar com ele."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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