Até americanos sofrem com rigidez de agentes de imigração nas fronteiras dos EUA

Vivian Yee

  • ALEXI HOBBS/NYT

    Fadwa Alaoui, 39 anos, uma canadense nascida no Marrocos, teve sua entrada nos EUA negada

    Fadwa Alaoui, 39 anos, uma canadense nascida no Marrocos, teve sua entrada nos EUA negada

Uma autora de livros infantis australiana disse que passou a odiar os Estados Unidos após ser interrogada no Aeroporto Internacional de Los Angeles. Um chefe de polícia aposentado da Carolina do Norte escreveu que a revista a qual foi submetido na alfândega o fez "questionar se este é realmente meu lar".

E quando Fadwa Alaoui, 39 anos, uma canadense nascida no Marrocos, tentou ir de carro para Vermont em sua viagem mensal de compras, ela enfrentou perguntas sobre suas crenças religiosas, sobre política e entregou seu telefone para ser checado, apenas para ter sua entrada no país negada.

"Eles nos tratam como criminosos", disse Alaoui. "Como se tivessem o direito de fazer qualquer coisa que quisessem."

Enquanto seu governo passa da marca de 100 dias, os esforços do presidente Donald Trump para impedir a entrada de viajantes de vários países de maioria muçulmana e expulsar imigrantes sem status legal, animaram seus apoiadores e inflamaram grande dissensão.

Mas para aqueles não sujeitos a proibição ou deportação, são nas salas de revista estéreis dos aeroportos e travessias de fronteira do país, onde tanto americanos quanto estrangeiros podem ser retidos, revistados e interrogados por horas, que as pessoas comuns mais provavelmente se depararão com a máquina do governo Trump.

A julgar pelo depoimento de viajantes que se manifestaram sobre a dura recepção nas portas dos Estados Unidos, a experiência na entrada no país não está contribuindo para a imagem de Trump.

Mas nem toda culpa pelas más experiências nos aeroportos pode ser direcionada a este presidente. Autoridades da Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês) tinham o mesmo critério para revistar viajantes durante o governo Obama, quando muçulmanos e outros viajantes eram rotineiramente submetidos a tratamento intrusivo e até mesmo discriminatório. A esta altura, os dados disponíveis sobre as atividades dos agentes da CBP não apoiam a acusação de que muito mais viajantes estão enfrentando uma revista adicional.

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Fadwa Alaoui e seu filho, em sua casa em Quebec, no Canadá


Mesmo assim, em meio às tentativas de Trump de endurecer as fronteiras americanas por meio de muro, maior fiscalização e proibição de entrada, o público está se deparando com uma realidade que passava desapercebida no passado: em um país ainda com dificuldade para encontrar um equilíbrio entre liberdades civis e segurança quase 16 anos após os ataques terroristas do 11 de Setembro, os agentes da CBP ainda contam com ampla autoridade sobre milhões de pessoas que chegam às 328 entradas dos Estados Unidos a cada ano.

No limbo entre a saída de outro país e a chegada neste, os agentes contam com amplos poderes para examinar os viajantes, sua bagagem e aparelhos eletrônicos enquanto decidem se permitem ou não a entrada. Os direitos aos quais esses indivíduos, até mesmo cidadãos americanos, têm direito assim que entram nos Estados Unidos nem sempre se aplicam enquanto tentam entrar.

"Você pode achar que está nos Estados Unidos, mas para fins legais, você não está até que o inspetor autorize sua entrada", disse Doris Meissner, uma ex-comissária da agência do governo que se transformou no Departamento de Segurança Interna após o 11 de Setembro.

O governo não emitiu novas diretrizes sobre revista dos passageiros que chegam, e atuais e ex-funcionários do governo argumentam que muitas pessoas estão predispostas a ver o pior nos agentes agora que trabalham para Trump.

"Isto é algo que sempre ocorreu", disse David Lapan, um porta-voz da Segurança Interna. "As mesmas coisas aconteciam sob governos anteriores."

Defensores de liberdades civis e advogados de imigração, entretanto, dizem que acreditar que agentes individuais estão alimentando uma escalada perturbadora de fiscalização, algo que fica claro com o tom agressivo e com a frequência com que os viajantes se deparam com isso.

"Isso não é uma coisa sem precedentes", disse Hugh Handeyside, um advogado da União Americana pelas Liberdades Civis. "Mas parece a esta altura que os casos que estamos ouvindo não são apenas casos isolados, mas sim parte de uma tendência. Ou foi dito de forma oficial ou não oficial que esse tipo de tratamento pode ser tolerado."

As inspeções aduaneiras são rotina: em um dia típico em 2016, a agência negou entrada a 752 pessoas nos portos de entrada e marcou 877 pessoas consideradas possíveis riscos à segurança nacional.

Mesmo assim, para muitos viajantes, a habilidade das autoridades de examinar seus telefones, e até mesmo requisitar seus códigos de acesso, tornam até mesmo paradas rotineiras em encontros pessoais alarmantes e desconfortáveis. Mesmo após os viajantes entrarem no país, a agência alfandegária pode manter retidos os telefones deles por semanas, enquanto peritos investigam seu conteúdo.

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Fadwa Alaoui em sua casa em Quebec, Canadá

As buscas em aparelhos eletrônicos já tinham aumentado sob o governo Obama, com o número de viajantes cujos aparelhos foram revistados mais que dobrando de 2015 a 2016. O total mensal de buscas desde que Trump assumiu permanece mais ou menos o mesmo que durante os últimos meses do governo Obama.

Alaoui, que dirigiu até a fronteira no início de fevereiro, tinha a intenção de passar o dia em Burlington comprando brinquedos para seu filho de 5 anos, que acabou de concluir três meses de quimioterapia.

Em viagens anteriores, ela passava cerca de dois minutos na fronteira antes de ser autorizada a passar. Dessa vez, ela e uma prima foram interrogadas e detidas por quatro horas enquanto seus telefones e carro eram revistados.

Após ser instruída a escrever a senha de acesso ao seu telefone, o agente da CBP perguntou onde ela tinha nascido (Marrocos), há quanto tempo vivia no Canadá (mais de 20 anos) e se era uma muçulmana praticante (sim).

O interrogatório passou rapidamente para perguntas religiosas, disse Alaoui. O agente perguntou sobre sua mesquita e seu imã. Ele acessou vídeos encontrados em seu telefone, vídeos de muçulmanos fazendo orações e piadas em árabe que circulam entre seus amigos e parentes na rede social, e pediu para que ela os explicasse.

Então ele perguntou o que ela pensava a respeito de Trump.

"Eu disse que ele pode fazer o que quiser em seu país. Não é da minha conta. Eu apenas quero cruzar a fronteira para fazer compras. Por que está me fazendo essa pergunta?" lembrou Alaoui, que usa hijab, o lenço de cabeça muçulmano.

Após serem fotografadas e terem suas impressões digitais colhidas, outro agente disse às mulheres que não seriam autorizadas a entrar no país por causa dos vídeos encontrados em seus telefones.

Os muçulmanos falam há anos sobre a revista pesada que sofrem dos agentes da CBP, acusando a agência de racismo. O mesmo dizem pessoas que podem ser confundidas com muçulmanos: Shah Rukh Khan, o ator indiano conhecido como "Rei de Bollywood", ganhou manchetes após ser detido três vezes em sete anos ao viajar para os Estados Unidos.

O mais proeminente desses incidentes nos últimos meses ocorreu quando Muhammad Ali Jr., o filho do lendário boxeador, foi parado por agentes alfandegários no Aeroporto Internacional Fort Lauderdale-Hollywood em 7 de fevereiro. Ali, que tinha acabado de chegar de uma viagem à Jamaica com sua mãe, disse que foi conduzido a uma sala onde um agente lhe perguntou como obteve seu nome e qual era sua religião.

Em uma entrevista, Ali disse que o agente lhe disse que ele tinha o mesmo nome de outra pessoa que foi marcada para ser revistada. Ele nunca teve problemas para entrar no país antes, ele disse.

Os agentes contam "com enorme liberdade" para questionar os viajantes, disse Margo Schlanger, uma professora de Direito da Universidade de Michigan e ex-chefe de direitos civis e liberdades civis do Departamento de Segurança Interna durante a presidência de Barack Obama. Apesar da Agência de Alfândega e Proteção de Fronteira ter uma regra antidiscriminação, ela disse, a agência não impõe limites significativos à capacidade dos agentes de perguntar sobre crenças religiosas.

Nos últimos meses, mesmo não muçulmanos parecem atrair bem mais atenção.

Após voar de volta para San Francisco da Bélgica, onde estava exibindo algumas de suas obras de arte, Aaron Gach, um artista americano, foi parado e lhe foi pedido repetidas vezes que liberasse seu celular para que fosse analisado por um agente, ele disse. Gach, 43 anos, foi interrogado sobre seu trabalho, seus arranjos de viagem e sobre a exposição de arte. Ele só foi liberado após atender ao pedido para liberar o acesso ao seu celular.

Para não cidadãos, viagens antes rotineiras se tornaram tensas, à medida que viajantes relatam encontros com agentes da CBP que questionam se estão assumindo empregos americanos ou sendo pagos de forma imprópria.

"Costumávamos ouvir um caso desses uma vez a cada Lua Azul, e costumava virar o assunto no escritório", disse Greg Siskind, um advogado de imigração no Tennessee. "Agora as pessoas simplesmente viram os olhos, por ouvirem com tanta frequência."

Há o caso da autora de livros infantis australiana, Mem Fox, que quase teve sua entrada no país negada a caminho de uma palestra em Milwaukee, após ser questionada sobre os US$ 8.000 de honorários (padrão para palestras desse tipo) que aceitou dos organizadores do evento.

Fox, 71 anos, que já viajou para os Estados Unidos mais de 100 vezes sem problemas no passado, caracterizou o interrogatório como "sadista desde o primeiro momento", apesar de posteriormente ter sido autorizada a prosseguir viagem.

Há o caso da professora de balé de 61 anos dos arredores de Toronto, Kennetha O'Heany, que tentou atravessar a fronteira de carro em março para auxiliar em uma aula de balé infantil lecionada por outra professora em Ann Arbor, Michigan.

Apesar de ter feito uma viagem semelhante em 2014, a explicação não satisfez o agente, que ela disse ter lhe disse: "Se há americanos que podem realizar esse trabalho, então você é trabalhadora estrangeira ilegal".

Sua detenção de três horas na travessia de Windsor-Detroit culminou com uma revista manual por duas agentes femininas, tão meticulosa que checaram até mesmo entre os dedos de seus pés, disse O'Heany.

"Eu não parava de pensar: 'Mas sou só uma professora de balé'", ela disse.

E há o caso de Erik Hoeksema, cujo grupo de cerca de uma dúzia de voluntários de uma igreja em Ontário foi parado e impedido de entrar no país na travessia de Buffalo, Nova York, em março. Eles estavam a caminho da costa de Nova Jersey para ajudar na reconstrução de casas destruídas pelo furacão Sandy em 2012.

Nenhum estrangeiro é autorizado a realizar trabalho autônomo sem visto, Hoeksema disse que lhe foi dito. O fato de que não seriam remunerados não pareceu fazer diferença.

"Não sabemos se fomos maltratados ou se foi apenas um erro, quem sabe?" disse Hoeksema, acrescentando que soube de outros grupos voluntários tendo sua entrada negada no passado. "Quem dera apenas tivessem bom senso, olhassem para nosso grupo e considerassem que ainda há necessidade de ajuda após o Sandy."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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