Quem causou o Brexit? Tudo indica que foram os tabloides britânicos

Katrin Bennhold

Em Londres

  • JOSE SARMENTO MATOS/NYT

    Banca de jornais em Dagenham, em Londres

    Banca de jornais em Dagenham, em Londres

Tony Gallagher, editor do "The Sun", um dos mais estridentes e influentes tabloides do Reino Unido, olha em posição de superioridade para o governo, literalmente. Do alto de sua redação no 12º andar, toda envidraçada com uma bela vista, o Palácio de Westminster parece um castelo de brinquedo, algo com o que brincar ou se ignorar.

Gallagher também olha com superioridade para o editor do mais moderado "The Times" de Londres, cujo escritório fica um andar abaixo e que faz questão de manter suas persianas fechadas. A hierarquia não passa despercebida entre os dois.

No Reino Unido, após a votação do Brexit, o poder dos tabloides ficou evidente. Suas tiragens podem estar em queda e suas reputações podem estar manchadas por uma série de escândalos envolvendo grampos telefônicos, mas, neste momento em que o país se prepara para cortar os laços com a União Europeia após uma campanha barulhenta e às vezes suja, nomes importantes da política estão cortejando os tabloides e temendo sua ira. As emissoras seguem o caminho que eles ditam, se não pelo tom, pelo conteúdo.

Seus leitores, muitos deles com mais de 50 anos, proletários e de fora de Londres, se parecem muito com os eleitores que foram cruciais para o resultado do referendo do ano passado sobre a permanência na União Europeia. São esses cidadãos da Brexitlândia que os tabloides pretendem representar de dentro do coração do território inimigo: abrigados em aposentos palacianos em alguns dos bairros mais carros de Londres, eles se veem como os embaixadores da classe média inglesa em Londres.

Na campanha que levou a uma eleição antecipada no dia 8 de junho, a maioria dos tabloides agiram como guardiões fervorosos do Brexit e como torcida para o governo conservador da primeira-ministra Theresa May —embora a cidade que os abriga tenha votado pela permanência.

Gallagher deixou sua marca em três dos mais estridentes jornais britânicos pró-Brexit. Ele foi editor do "The Daily Telegraph", um jornal conservador em formato standard, e vice-editor do "Daily Mail", pouco menor, um dos principais concorrentes do "The Sun", antes que Rupert Murdoch o roubasse 20 meses atrás.

Juntos, esses três títulos são uma das principais razões pelas quais a cobertura impressa da campanha do referendo foi de 80% a favor do Brexit e 20% contra, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Loughborough.

JOSE SARMENTO MATOS/NYT
Tony Gallagher, editor do The Sun, um dos tabloides mais conservadores do Reino Unido

Os tabloides dizem que eles meramente refletem as preocupações e temores de seus leitores. Mas seus críticos dizem que eles corrompem o debate ao provocar os piores instintos e preconceitos das pessoas, distorcendo fatos e criando um surto de propaganda que difunde a intolerância e molda políticas.

Eu havia enviado um e-mail a Gallagher tentando marcar uma entrevista no dia 29 de março, mesmo dia em que o Reino Unido entregou uma carta a líderes da União Europeia em Bruxelas, iniciando formalmente as negociações de dois anos do Brexit. Eu argumentei que era difícil entender o Reino Unido hoje sem entender os tabloides. Ele deve ter concordado.

O elevador do edifício de 17 andares News Building, lar do império midiático britânico de Murdoch, subiu passando pelos escritórios do "The Wall Street Journal", da agência de notícias Dow Jones, do "The Sunday Times" e do "The Times", até a redação do "The Sun". Murdoch, dono do "The Sun" desde 1969, fica logo acima.

No "The Telegraph", Gallagher conquistou respeito por coordenar a cobertura de um dos maiores escândalos políticos na história mais recente do Reino Unido: mais de vinte parlamentares renunciaram depois que o jornal revelou um abuso generalizado de ajudas de custo e gastos que incluíam, entre outras coisas, assentos de vaso sanitário de carvalho e a limpeza de um fosso.

Mas ele também tem uma reputação de pavio curto. "Mail Men", um novo livro sobre o "The Daily Mail", onde Gallagher passou boa parte de sua carreira, cita ex-colegas seus que o descrevem como uma "figura da morte" que "incute o medo do diabo em seus repórteres".

O homem alto e magro me guiou até uma cadeira de frente para uma vista panorâmica de Londres. Durante toda nossa conversa, ele foi cauteloso e quase não sorriu, mas foi educado. (Ele disse que a representação que fizeram dele no livro foi "cruel").

Ele apontou espontaneamente para uma escadaria e explicou que a redação do "The Sun" era a única do prédio com acesso direto ao andar da diretoria. ("Eles sobem e descem essas escadas o tempo todo", disse um jornalista mais tarde. "Eles" no caso são Murdoch, quando ele está na cidade, e a CEO de seu grupo britânico, Rebekah Brooks, uma ex-editora do "The Sun" e do hoje extinto "News of the World", que foi acusado criminalmente pela prática de escutas telefônicas, mas foi inocentado por um júri em 2014)

Gallagher ainda estava saboreando os efeitos de um confronto recente com o governo. O "The Sun" havia imprimido adesivos de carro e uma reportagem especial de oito páginas sobre como um aumento nas contribuições sociais para autônomos afetaria os "White Van Men", como são chamados os membros da classe trabalhadora, que, na visão do "The Sun", estavam sendo injustiçados.

Era a primeira vez em que os tabloides haviam atacado o governo de 9 meses de May, e ela logo recuou. "Eles levaram menos de uma semana", lembra Gallagher.

O "The Sun" vende 1,6 milhão de cópias hoje (mais de 80% delas fora de Londres e do rico sudeste do país), uma queda do auge de 4,7 milhões em meados dos anos 1990. Ele perdeu mais de 60 milhões de libras (cerca de R$ 236 milhões) no ano passado.

Por que os políticos ainda têm tanto medo?

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Tabloides sendo vendidos em Dagenham, no subúrbio de Londres

"É um fato que jornais impressos e nacionais determinaram a agenda aqui de forma muito mais eficaz do que emissoras, que são essencialmente uma mídia reativa", disse Gallagher, observando que jornais podem ficar batendo em certas teclas.

"Então se você, como um jornal, está dando muita importância ao fato de que todas as nossas leis são feitas na Europa, uma hora isso acaba permeando a consciência nacional", ele disse.

Uma semana antes, eu havia conhecido Kelvin MacKenzie, um ex-editor e colunista do "The Sun". Ele disse que o jornal ainda refletia o "coração pulsante do Reino Unido", e que o Brexit venceu "disparado" pela imigração.

Gallagher foi mais ponderado.

"Foi uma combinação de migração e soberania sob o guarda-chuva mais amplo de reassumir o controle das coisas, e de um sentimento de que, como um país, não conseguíamos mais controlar nosso destino", ele disse.

O "The Sun", que recruta alguns funcionários diretamente entre alunos do ensino médio, tem uma relação quase pessoal com seus leitores, como se fosse um amigo de confiança em um pub.

Outros jornais do grupo de Murdoch apoiaram a permanência na União Europeia, observou Gallagher, refletindo os pontos de vista de seus leitores. Dentro desse grupo estava a edição escocesa do "The Sun", que, assim como os eleitores escoceses, apoiou a permanência.

"Faz sentido do ponto de vista comercial", disse Gallagher. Mas ele também foi um eurocético fervoroso durante anos.

"Nós sem dúvida alimentamos o entusiasmo das pessoas", disse Gallagher. Mas, ele acrescentou, "a ideia de que de alguma forma conseguimos arrastar leitores reticentes para um ponto de vista que eles não teriam normalmente é delirante".

Meu tempo havia acabado. Gallagher se manteve impassível a tarde inteira. O único momento em que ele me pareceu ficar desconfortável foi quando lhe perguntei sobre a opinião de seus filhos sobre o Brexit. Dois deles eram jovens demais para votar, ele disse, mas sua filha mais velha, de 21 anos, votou a favor da permanência.

Ele me acompanhou até a porta. "Não vá distorcer o que eu falei", ele disse.

Tradutor: UOL

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