Após elogios de Trump na eleição, Rússia se sente esnobada e confusa com novo governo

Neil Macfarquhar

Em Moscou

  • Jonathan Ernst/Reuters

    28.jan.2017 - Presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com o presidente russo, Vladimir Putin

    28.jan.2017 - Presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com o presidente russo, Vladimir Putin

A julgar pela atenção dada à Rússia durante a campanha presidencial americana e pelas palavras afetuosas de Donald Trump enquanto candidato para o presidente Vladimir Putin, o Kremlin esperava um papel de destaque como principal parceiro na política externa durante o governo Trump.

Em vez disso, enquanto o presidente Donald Trump tem celebrado cada Theresa, Justin e Abdel-Fattah na Casa Branca ou em sua propriedade de Mar-a-Lago na Flórida, incluindo um jantar de grande repercussão na mídia com o presidente Xi Jinping da China, Putin teve de se contentar com três míseros telefonemas desde a posse.

"Eles estão se sentindo esnobados", disse Vladimir Frolov, um proeminente analista e colunista de política externa, sobre a liderança russa.

O primeiro motivo é porque isso não é bem visto em casa. Afinal, Putin vendeu as intervenções russas na Ucrânia e especialmente na Síria como prova de que Moscou estava de volta ao cenário global como o indispensável contraponto aos Estados Unidos nas questões mundiais, assim como no período soviético.

Segundo, isso deixou o Kremlin confuso em relação a como ele poderia avançar em suas relações com Washington, especialmente neste momento em que a Rússia se arrasta na direção de uma campanha presidencial em março de 2018, embora Putin ainda não tenha declarado oficialmente sua candidatura a um quarto mandato.

Pior: em vez de anunciar um novo capítulo nas relações, Washington parece estar aumentando suas demandas. Até mesmo possíveis aliados como Rex Tillerson, secretário de Estado que recebeu uma medalha de Putin quando era CEO da ExxonMobil, se mostraram uma decepção.

Tillerson apareceu em Moscou para sua primeira viagem como secretário de Estado no mês passado, mas começou a ressuscitar posicionamentos que Moscou acreditava que seriam enterrados junto com o governo Obama.

Tillerson, por exemplo, endossou a ideia de que o presidente Bashar al-Assad da Síria, o principal amigo da Rússia no Oriente Médio, tinha de sair. O governo Trump também deixou claro que ele quer a Rússia fora da Ucrânia e um fim para o que ele chama de violações de um tratado-chave sobre mísseis, e até voltou a desencavar o Afeganistão como uma questão.

O assessor de segurança nacional, o tenente-general H.R. McMaster, em uma aparição na Fox News no domingo, disse que achava que Putin não estava agindo em benefício da Rússia. "Precisamos de mudanças nas palavras e na natureza do relacionamento", ele disse, "mas o que realmente precisamos é de uma mudança de comportamento".

Aleksei Pushkov, uma voz proeminente em relações exteriores no Senado russo, tuitou em resposta que os comentários de McMaster soavam como o governo Obama. "Abordagem contraproducente", ele escreveu.

A sequência de declarações similares vindas de Washington basicamente azedou a ideia de que haverá uma grande barganha com Washington em questões globais.

Além disso, de acordo com alguns analistas, embora a Rússia esteja ansiosa por uma melhoria nas relações, o governo Trump não deixou exatamente claro qual recompensa a Rússia poderia receber por executar uma grande inversão geral em sua política externa.

"Ele não detalhou a definição em termos do que uma melhoria nas relações seria, em outras palavras, qual seria o prêmio em troca de uma drástica reviravolta em sua política externa", disse Frolov.

E acrescentou: "Os russos estão basicamente confusos e se perguntando: 'O que vamos ganhar com isso? "

No terceiro telefonema entre Trump e Putin, na terça-feira à noite, os dois presidentes concordaram em coordenar mais de perto as questões da Síria e da Coreia, e possivelmente se encontrar paralelamente à cúpula do G-20 em Hamburgo, na Alemanha, no começo de julho.

A explicação padrão nos círculos russos para a esnobada de Trump é que os mandarins da política externa americana não deixarão que Trump seja Trump no que diz respeito à Rússia.

"Trump rejeitou a ideia de realizar uma reunião à parte logo cedo por medo de histeria por parte de seus inimigos nos Estados Unidos", escreveu Pushkov no Twitter após o último telefonema.

Naturalmente, a ideia de que Trump e Putin são equivalentes também não morreu totalmente. "O terceiro contato entre os dois presidentes confirmou que o diálogo entre Rússia e EUA não está em um impasse, que ambos os lados estão interessados em seu desenvolvimento, e que ele só pode prosseguir em um patamar de igualdade", disse na quarta-feira aos repórteres Konstantin Kosachev, chefe do comitê de relações exteriores no Senado russo, segundo a RIA Novosti, a agência de notícias estatal.

Sergey Lavrov, o ministro russo das Relações Exteriores, deve ter conversas com Tillerson paralelamente a uma conferência no Alasca na próxima semana, conversas que os russos esperam que tragam alguma clareza.

Existem coisas que os russos querem, como a retirada do sistema de defesa de mísseis americanos na Romênia e na Polônia, mas nada tão específico foi abordado. O efusivo elogio de Trump para o líder russo enquanto concorria à presidência foi se desbotando aos poucos com outras questões assumindo prioridade, inclusive diversas investigações sobre a interferência russa na campanha presidencial do ano passado e as diferenças a respeito do uso de armas químicas por parte da Síria contra seu próprio povo novamente em abril.

Por outro lado, Frolov observou, o Kremlin aprecia o fato de que o governo Trump tenha se mantido calado a respeito de questões domésticas russas como a violência contra líderes da oposição, prisão de manifestantes políticos e a perseguição e tortura de homossexuais na Chechênia.

Angela Merkel, a chanceler alemã, não foi tão generosa em sua coletiva de imprensa conjunta com Putin na terça-feira, questionando a acusação de grupos da sociedade civil, homossexuais e seitas religiosas enquanto desdenhava do posicionamento de Putin de que a mudança de governo na vizinha Ucrânia não havia sido democrática.

A abordagem mais discreta dos Estados Unidos indica que Washington quer manter os canais abertos, disse Frolov, de forma que o Kremlin muito provavelmente receberá bem uma abordagem uma a uma para questões de política externa em vez de uma grande barganha.

A Rússia está buscando um acordo em particular sobre a Síria, porque Putin quer evitar qualquer surpresa violenta de lá uma vez que comece a campanha presidencial russa para valer no final de 2017.

Ambos os lados estão cientes dos riscos de se deixar qualquer confronto entre eles superaquecer. Permanece o risco de uma colisão na Síria, como observou Dmitry V. Trenin, diretor do Carnegie Moscow Center, mas também há espaço para um acordo sobre uma solução diplomática.

Putin repetiu em coletivas de imprensa por dois dias seguidos que os Estados Unidos seriam instrumentais na solução do problema da Síria, observando na quarta-feira que Trump havia endossado a ideia de zonas de segurança que a Rússia começou a promover formalmente como parte de uma nova rodada de conversas de paz sírias em Astana, no Cazaquistão, na quarta-feira. Trump enviou um diplomata americano de alto nível para as conversas.

"Otimistas em Moscou e Washington esperam que a relação entre Estados Unidos e Rússia não decaia ainda mais", escreveu Trenin em um artigo no site do Carnegie.

É precipitado esperar uma cooperação instantânea, disse ele e outros, prevendo que as relações podem permanecer onde estão até que as condições do compromisso sejam produzidas. Eles observaram que isso pode requerer um encontro entre os dois presidentes em Hamburgo, presumindo que lá Trump finalmente pare de evitar Putin.

Tradutor: UOL

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