Jovens determinados lideram uma 'cruzada' contra a corrupção na Eslováquia

Rick Lyman e Miroslava Germanova

Em Bratislava (Eslováquia)

  • AKOS STILLER/NYT

    Manifestação contra a corrupção em Bratislava, na Eslováquia

    Manifestação contra a corrupção em Bratislava, na Eslováquia

A dupla de cruzados novatos contra a corrupção parou em frente ao palácio presidencial da Eslováquia, tentando decidir quanto tempo dar ao governo para capitular às suas demandas. Eles queriam a renúncia do ministro do Interior e do comandante da polícia nacional, bem como investigações completas e transparentes sobre uma série de escândalos recentes de corrupção. E esse seria só o começo. A manifestação que eles haviam organizado através do Facebook ia começar em poucas horas.

"O que acha, sete dias?", perguntou David Straka, considerando o memorando que havia elaborado junto com sua parceira, Karolina Farska.

Ela não tinha certeza. "Nós nos esquecemos de colocar um prazo", ela disse encabulada, com seu rosto emoldurado por uma tiara de flores. "Esta é a primeira vez em que fazemos algo do tipo".

O deslize era perdoável. Afinal, eles têm só 18 anos.

A corrupção tem sido um problema persistente em muitos dos antigos países comunistas do leste europeu. A situação ficou tão ruim que alguns analistas agora falam em termos de "captura do Estado", onde todas as grandes instituições estatais estão de fato nas mãos de políticos corruptos e oligarcas intocáveis. O problema está entrando em um estágio ainda mais crítico, enquanto líderes de mentalidade autoritária alavancam a ascensão do nacionalismo e do populismo para consolidar o poder.

Para jovens como Straka e Farska, a luta contra a corrupção não é nada menos do que tomar seu país de volta para a próxima geração. A batalha deles é impregnada de uma dose saudável de idealismo juvenil, mas sua campanha anticorrupção pegou, assim como movimentos parecidos em toda a região.

A dupla virou a queridinha da mídia local, usando o Facebook para organizar uma marcha anticorrupção em meados de abril que chegou a atrair até 10 mil pessoas.

AKOS STILLER/NYT
Organizadores do protesto que foi organizado pelo Facebook, Karolina Farska, no lado esquerdo, e David Straka, no centro

Logo depois de os colegiais entregarem seu manifesto de uma página ao escritório de petições oficiais do governo no dia da passeata, eles se encaminharam para o centro da cidade barroco de Bratislava, até uma praça onde centenas de pessoas começavam a se juntar.

"O Estado deveria respeitar nossos pais, e não roubar deles e mentir", explicou Straka sem hesitar, enquanto nuvens pretas assomavam perto do Castelo de Bratislava e uma garoa gelada caía continuamente do céu cinzento.

"Espero que isso não afugente as pessoas", disse Straka.

Farska foi igualmente sincera, por um bom motivo, segundo ela.

"Estamos em um ponto de nossas vidas em que estamos decidindo o que queremos fazer", ela explicou. "Ficar aqui em nosso próprio país com nossas famílias, ou ir para fora onde poderíamos ter uma vida boa sem tanta corrupção".

A corrupção não é o único alvo das manifestações. Os protestos também são impulsionados pela revolta com iniciativas recentes voltadas para partidos governistas consolidados, que servem aos interesses de oligarcas, enfraquecendo o estado de direito, estorvando ONGs e cooptando a mídia independente.

"Combater a corrupção é muito difícil", disse Igor Matovic, um membro do parlamento da Eslováquia cujo pequeno partido foi formado sete anos atrás para combater a corrupção. "Eles têm todo o poder. Eles têm todo o dinheiro. Mas vou lhe dizer que há uma coisa que eles temem: estudantes nas ruas".

O governo atual da Eslováquia, liderado pelo primeiro-ministro Robert Fico, assumiu o poder em 2012 logo após um imenso escândalo do governo.

O chamado escândalo da Gorilla, codinome dado a um dossiê secreto, envolvia oficiais do governo, oligarcas e outros flagrados em vídeo discutindo subornos e outras atividades de corrupção.

Mas a série de escândalos não terminou.

Mesmo antes do escândalo da Gorilla, durante o primeiro mandato de Fico como primeiro-ministro em 2008, um lucrativo contrato para construir um sistema de pedágio para as rodovias do país virou controvérsia ao ir para as mãos da empresa que fez a maior oferta, uma empresa cujo verdadeiro proprietário não ficou claro, depois de o governo ter declarado outras três concorrentes inelegíveis.

AKOS STILLER/NYT
Igor Matovic, membro do Parlamento Eslovaco que foi formado há sete anos para combater a corrupção

Em 2012, pouco depois de Fico voltar ao poder, descobriram que um hospital financiado pelo governo teria pago mais de meio milhão de dólares a mais do que um hospital na vizinha República Tcheca por um aparelho de tomografia. E no ano passado uma pessoa próxima do primeiro-ministro foi citada em um escândalo de fraude tributária.

Manifestações noturnas têm sido realizadas do lado de fora do elegante prédio em Castle Hill onde o primeiro-ministro vive em um apartamento por um valor que, segundo opositores, está bem abaixo do preço de mercado. Seu senhorio é Ladislav Basternak, o mesmo que foi beneficiado no caso da fraude tributária.

No entanto, Fico tentou cooptar o tema da corrupção. Com partidos extremistas de direita ganhando mais apoio, o primeiro-ministro tentou retratar seu governo como um defensor da luta contra a corrupção, chegando ao ponto de convidar líderes de organizações anticorrupção como a Transparência Internacional para se encontrarem com ele pela primeira vez.

"Quero assegurar a todos os cidadãos de que o governo da Eslováquia vê a corrupção como um problema sério e de longo prazo e está tomando medidas concretas para limitá-la e acabar com ela", disse Fico em um comunicado.

Farska e Straka não se convenceram. Tampouco se convenceram, aparentemente, os milhares que acabaram comparecendo à passeata, apesar da garoa.

Os bondes derramavam pessoas, que lotaram a praça e o calçadão. Dois homens fantasiados de gorila e barba branca—para indicar como o escândalo da Gorilla vem se arrastando—pulavam, gritavam e acenavam para turistas abismados.

"Chega de corrupção", eles bradavam. "Estamos de olho!"

A chuva se intensificou enquanto os manifestantes se encaminhavam pelas ruas estreitas da cidade até a Praça SNP —sigla da Revolta Nacional Eslovaca contra os nazistas e local dos principais protestos anticomunistas durante a Revolução de Veludo de 1989— onde havia um palco envolvido por plástico à prova de água.

Straka e Farska subiram no palco sob aplausos estrondosos.

"Se este país vale alguma coisa, essas pessoas precisam renunciar", disse Straka, brandindo uma cópia das demandas do grupo. "A lei deve ser a mesma para todos, senão não faz sentido".

Fico e a maioria de seus principais ministros elogiaram o espírito democrático dos estudantes sem abordar suas demandas. "É bom quando os jovens assumem um interesse ativo no que está acontecendo em seu país", disse o primeiro-ministro em um comunicado depois do comício.

Straka disse que estavam tentando chegar à conclusão do que fazer caso o governo rejeitasse suas demandas.

"As pessoas falam que somos ingênuos, e acho que somos ingênuos mesmo", disse Farska. "Mas estamos aprendendo, e não estamos sozinhos".

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