Otimista com a paz no Oriente Médio, Trump precisará de mais do que confiança

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • Olivier Douliery/Xinhua/CNP/ZUMAPRESS

Desde que o Reino Unido declarou há 100 anos que deveria haver uma pátria judaica na Palestina, não há harmonia naquela terra seca e inculta. Presidentes, reis, primeiros-ministros, diplomatas e emissários especiais trabalham há um século em uma busca fútil pela paz.

O presidente Donald Trump, entretanto, não se intimida com o desafio de unir israelenses e palestinos. "É algo que, acho, francamente talvez não seja tão difícil quanto as pessoas pensam há anos", ele disse durante a semana.

Independente do que digam a seu respeito, Trump não sofre de déficit de confiança. Ao receber o líder palestino, Mahmoud Abbas, Trump proclamou que seria o presidente a finalmente obter a paz no Oriente Médio. "Nós o faremos", ele disse. Ele sugeriu que, com sua liderança, "esperamos que o ódio não dure muito mais tempo".

Não importa que ele tenha achado que derrubar e substituir o programa de atendimento de saúde de seu antecessor seria "muito fácil". Ou que tenha previsto que não teria problema em fazer a Coreia de Norte se curvar à sua vontade ou forçar o México a pagar pelo muro na fronteira. Ou a afirmação de Trump, como candidato, que sabia mais a respeito do Estado Islâmico do que os generais. Ou sua insistência de que poderia "rapidamente" pagar toda a dívida nacional de US$ 19 trilhões acumulada ao longo dos últimos 182 anos.

Fanfarronice, é claro, há décadas está no centro da personalidade de Trump e supostamente ajudou a torná-lo um magnata imobiliário célebre e um astro de reality show de TV, com apelo suficiente para vencer a eleição presidencial. Na Casa Branca, entretanto, isso é historicamente bem mais problemático. Presidentes que fazem previsões ousadas costumam se arrepender. Bastava Trump perguntar àqueles que, por décadas, têm batido suas cabeças contra o muro do Oriente Médio.

"Quando o presidente diz que fechará esse acordo, ele pensa em termos de um acordo imobiliário simples", disse Aaron David Miller, um ex-negociador para o Oriente Médio que passou anos tentando unir israelenses e palestinos. "E apesar disso ser em parte verdade", as questões específicas que dividem israelenses e palestinos "transcendem a 'arte da negociação' de formas que não sei se ele consegue imaginar".

A introdução de Trump a Abbas deixou isso claro. O presidente disse que faria "o que for necessário" para negociar um acordo sem oferecer qualquer senso de como pretende fazê-lo ou de como seria esse acordo.

Abbas, por sua vez, repetiu as condições nas quais os palestinos insistem há anos: a criação de um Estado palestino independente baseado nas fronteiras que existiam antes da guerra entre árabes e israelenses de 1967, tendo Jerusalém Oriental como sua capital; o direito de retorno dos refugiados; a libertação dos presos em celas israelenses. Essa formulação não é aceita por Israel, que também não demonstra sinal de recuar de suas próprias posições fixas.

Trump deixou claro que detalhes não importam para ele, abandonando o antigo compromisso americano com a chamada solução de dois Estados. Quando recebeu em fevereiro o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Trump disse que aceitaria uma solução de dois Estados ou um Estado, desde que ambos os lados concordassem. Os palestinos que esperavam que ele poderia demonstrar a Abbas um maior apoio ao plano de dois Estados ficaram desapontados quando ele não fez menção a ele na quarta-feira.

"Queremos criar a paz entre Israel e os palestinos", disse Trump. "Nós o faremos. Trabalharemos arduamente para que seja feito."

Voltando-se para Abbas, ele acrescentou: "Acho que há uma chance muito, muito boa, e acho que você sente o mesmo".

Abbas, 82, que estava entre os negociadores durante a assinatura do Acordo de Oslo no gramado da Casa Branca, em 1993, indicou que se sentia otimista de que, quase um quarto de século depois, Trump finalmente chegaria ao acordo inicial para se chegar a uma resolução final.

Elogiando a "administração corajosa", "sabedoria" e "grande habilidade de negociação", Abbas disse: "Acreditamos que podemos ser parceiros, verdadeiros parceiros, para que você consiga um tratado de paz histórico".

Abbas implorou a Trump que entenda o ponto de vista palestino. "É hora de Israel por um fim à sua ocupação de nosso povo e nossas terras após 50 anos", ele disse. "Somos o único povo remanescente no mundo que ainda vive sob ocupação. Aspiramos e queremos obter nossa liberdade, nossa dignidade e nosso direito de autodeterminação."

Repetindo a posição de Israel, Trump pressionou Abbas a desencorajar a instigação palestina contra os israelenses. "Não haverá paz duradoura a menos que os líderes palestinos falem em uníssono contra a incitação à violência e ódio", disse Trump. Ele não mencionou publicamente os pagamentos financeiros palestinos às famílias de terroristas condenados, mas seu porta-voz, Sean Spicer, disse que Trump levantou a questão de modo privado.

Abbas insistiu que os palestinos não pregam ódio. "Afirmo a você que estamos criando nossos jovens, nossos filhos, nossos netos, em uma cultura de paz", ele disse, uma afirmação que as autoridades israelenses rejeitariam.

Trump parece genuinamente determinado a buscar a paz no Oriente Médio e designou seu genro, Jared Kushner, e seu advogado de longa data, Jason Greenblatt, para liderarem o esforço. O presidente visitará Israel neste mês, antes de uma visita marcada à Europa.

O presidente parece atraído pela ideia de ter sucesso onde outros fracassaram. "Ao longo da minha vida, sempre ouvi que talvez o acordo mais duro de se fechar é o acordo entre israelenses e palestinos", disse Trump. "Vamos ver se conseguimos provar que isso está errado."

Mas poucos pensam que as condições são propícias. Velho e impopular, Abbas pode não ter força para atender mesmo se estivesse disposto a fazer concessões. Da mesma forma, Netanyahu, atualmente em seu quarto mandato e alvo de investigações de corrupção, enfrenta pressão significativa de sua direita política para não fechar o acordo, assim como não parece especialmente interessado em fazê-lo. Ambos os líderes têm interesse em fazer Trump achar que falam a sério, mesmo quando não.

"Acho que o cálculo palestino é de que eles podem ir mais além que Netahyanu nisso", disse Grant Rumley, co-autor de "The Last Palestinian" (O último palestino, em tradução livre), uma biografia de Abbas que será publicada em julho (nos Estados Unidos). "Acho que esperam que quando chegar a hora de resistir ou dizer não a Trump, como inevitavelmente ocorrerá para ambos os líderes, que Abbas poderá fazê-lo e ainda se manter no poder, enquanto o mesmo talvez não possa ser dito sobre Netanyahu."

John Hannah, advogado sênior da Fundação para a Defesa das Democracias que serviu como conselheiro de segurança nacional do ex-vice-presidente Dick Cheney, disse que o fracasso tem um custo. "O processo de paz é um imenso sugador de tempo diplomático", ele disse. "E quanto mais tempo o presidente e seus altos conselheiros gastarem tentando empurrar essa rocha em particular morro acima, menos tempo poderão dedicar a tratar de desafios estratégicos profundos como o Irã, o Estado Islâmico e a Al Qaeda."

Ainda assim, Jeremy Ben-Ami, o presidente do J Street, um grupo de lobby pró-paz em Washington, disse: "Há o cenário em que isso cai no colo dele ao final de seu mandato, não necessariamente por causa do brilhantismo de sua diplomacia". Com os Estados árabes sunitas alinhados com Israel na disputa regional com o Irã, ele disse, pode haver uma pressão para uma solução para a questão palestina.

Ou talvez, disse Ben-Ami, não estar imerso nos detalhes tenha suas vantagens. "Pessoas já calejadas após 20 ou 30 anos fazendo isso podem achar que sabem tudo, de modo que chegam com sua abordagem preconcebida e ela não funciona", ele disse. "Talvez assim seja melhor.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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