Como a Alemanha enfrenta o problema de ter nazistas nas Forças Armadas?

Melissa Eddy

Em Berlim (Alemanha)

  • Fabian Bimmer/ Reuters

    Soldados alemães exibem suas armas

    Soldados alemães exibem suas armas

O caso inicial foi bizarro o bastante a ponto de ser difícil saber o que significava: um tenente do Exército alemão de 28 anos foi pego se passando, de forma improvável, por refugiado sírio. Mas quando o incidente revelou ser parte de um plano elaborado para culpar os imigrantes por um ataque terrorista contra importantes autoridades do governo, a investigação foi expandida.
 
Primeiro um quartel foi revistado, depois outro, sendo encontrados suvenires militares da era nazista que apontavam para um problema maior, que muitos há muito temiam e que alguns comandantes agora são acusados de varrer para baixo do tapete: extremistas de direita nas fileiras do Exército.
 
A polícia militar na Alemanha está investigando 275 casos envolvendo acusações de racismo ou extremismo de direita que se estendem por um período de seis anos, segundo o Ministério da Defesa. Apesar do ministério ter enfatizado que o número representa uma pequena minoria em uma força de quase 180 mil, metade dos casos ocorreu em 2016 e quase 20% neste ano, apontando para uma aceleração de um problema que as autoridades militares alemãs só agora estão buscando tratar.
 
"No passado, casos individuais sempre eram examinados, mas não eram vistos ou entendidos como não sendo isolados, que havia redes e conexões, também com extremistas fora das Forças Armadas", disse Christine Buchholz, parlamentar pelo Partido de Esquerda de oposição.
 
"Agora está bem óbvio para todos que o problema existe há muito tempo e representa uma ameaça imediata às pessoas", ela acrescentou.
 
As revelações, no meio de um ano eleitoral, provocaram troca de ataques entre autoridades civis e militares. Elas também adicionaram uma nova dimensão perturbadora ao esforço da Alemanha para tratar do aumento de atividades extremistas desde que o país recebeu quase um milhão de refugiados em 2015.
 
Enquanto a Europa enfrenta uma série de desafios, incluindo a ascensão do populismo e a máquina de propaganda do presidente Vladimir Putin da Rússia, as preocupações com os soldados da Alemanha levantaram questões mais amplas sobre se e como o país pode assumir um papel de liderança, inclusive militar, proporcional ao seu tamanho e estatura política e econômica.
 
Em particular, o crescente escândalo ressuscitou as preocupações com a adoção pela Alemanha de uma força voluntária a partir de 2011. Essa medida, alguns alertaram, poderia reduzir as fileiras a jovens suscetíveis à nostalgia do Nazismo, ou a outros extremistas à procura de treinamento gratuito e acesso a armas e munição, em um país com leis rígidas de armas.
 
A partir de julho, todos os candidatos a ingresso nas Forças Armadas terão de passar por uma checagem de segurança visando excluir extremistas potenciais. Mas isso também levanta questões sobre como lidar com aqueles que já estão servindo, em um momento em que as Forças Armadas estão com dificuldade para atrair recrutas.
 
Na semana passada, o inspetor geral ordenou uma revista em todas as instalações militares à procura de suvenires ou imagens glorificando as forças armadas da era nazista, a Wehrmacht.
 
Michael Wolffsohn, professor de história moderna da Universidade das Forças Armadas Alemãs, em Munique, diz que a decisão de abandonar o serviço militar obrigatório retirou as Forças Armadas do centro da sociedade. "Assim que a sociedade em geral se afasta das Forças Armadas, isso abre o caminho e as abre para grupos marginais por um lado, e idealistas altamente motivados por outro", disse Wolffsohn.
 
"Temos que nos perguntar se podemos arcar com o risco de abrir o caminho para os extremistas, não apenas de direita, mas também islâmicos e até mesmo extremistas de esquerda", ele acrescentou.
 
Após a Segunda Guerra Mundial, o Exército alemão reconstituído foi formado em 1955 na antiga Alemanha Ocidental como uma força por recrutamento, visando assegurar a paz por meio da defesa das fronteiras nacionais.
 
Desde sua fundação, as Forças Armadas instituíram medidas para se distanciarem de suas antecessoras da era nazista e as estigmatizarem. Desde 1982, um decreto com 30 pontos estipula que tradições e normas guiam as forças e quais não.
 
Mas muitos quartéis foram construídos nos anos 30. Alguns poucos, como o Quartel Rommel, na cidade de Lippe, no oeste do país, ainda possuem nomes de generais de Hitler.
 
A sombra desse passado informa grande parte do que as Forças Armadas podem e não podem fazer. A Constituição limita a participação em qualquer conflito, exceto missões lideradas por aliados. Apenas em 1994 o tribunal constitucional emitiu uma decisão permitindo às Forças Armadas participarem em missões armadas lideradas pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) ou pelas Nações Unidas.
 
A investigação derivada de um caso de terrorismo ocorreu no momento em que oficiais militares divulgaram um relatório detalhando episódios de inclinações extremistas de alguns soldados.
 
Um soldado prendeu uma bandeira de guerra da era nazista no capô de seu carro e passou por um abrigo de refugiados, enquanto fazia gestos de degola. Outro postou uma foto de dois soldados em uniformes da SS em um grupo de bate-papo. Um punhado de outros foi denunciado por terem gritado "Sieg heil" e "Heil Hitler".
 
Os episódios estão entre várias dezenas de demonstrações de extremismo de direita, xenofobia ou antissemitismo que oficiais militares investigaram no ano passado a pedido do Partido de Esquerda, que há muito insiste que as inclinações de extrema-direita nas Forças Armadas fazem parte de um problema social maior.
 
O soldado que passou de carro pelo abrigo foi dispensado antes de concluir seu serviço, mas um soldado que fez uma saudação nazista foi apenas repreendido, provocando críticas de que as Forças Armadas não estão levando a ameaça do extremismo a sério.
 
Na semana passada, a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, irritou muitos soldados quando disse: "As Forças Armadas alemãs têm um problema de atitude e parece que há fraquezas na liderança que devemos tratar de forma sistemática".
 
Mas ela também foi criticada por não tratar dos mesmos problemas que estava apontando. Membros da oposição no Parlamento questionaram sua ligação com as tropas que supervisiona e exigiram um pedido de desculpas.
 
De lá para cá Von der Leyen recuou de sua declaração, dizendo que a maioria dos soldados realiza um "trabalho excepcional", e a chanceler Angela Merkel declarou "apoio pleno" à ministra.
 
Um dia antes da prisão em 27 de abril do suspeito acusado de se passar por refugiado sírio, que foi identificado apenas como Franco A. em cumprimento às leis de privacidade alemãs, Von der Leyen demitiu o chefe de treinamento das Forças Armadas. A demissão ocorreu devido aos relatos de trotes e acusações de abuso sexual de recrutas do sexo feminino em várias bases.
 
Na semana passada, Von der Leyen convocou 100 generais a Berlim para conversações que resultaram na ordem de revisão das medidas disciplinares e na contratação de um investigador independente. Na quarta-feira, ela depôs sobre o caso perante o comitê de Defesa do Parlamento.
 
Uma investigação inicial pelo Ministério da Defesa apontou que os sentimentos de extrema-direita de Franco A. eram conhecidos há anos. Já em 2014, uma tese de mestrado, que apresentou em uma academia militar francesa onde estudava, chamou a atenção de seus superiores por sua linguagem nacionalista e racista.
 
Mas mesmo após uma revisão pelas autoridades alemãs, que notaram a "linguagem drasticamente extremista" na tese, nenhuma medida disciplinar foi tomada.
 
Na terça-feira, promotores federais disseram ter prendido um segundo soldado, identificado como Maximilian T., que suspeitam ter planejado o ataque com Franco A. Eles também disseram que o plano tinha como alvo políticos proeminentes, incluindo o ex-presidente Joachim Gauck, a quem os suspeitos desprezam como envolvido nas políticas "fracassadas" em relação aos refugiados.
 
Os promotores disseram que os dois soldados, e um terceiro suspeito identificado como um estudante da cidade de Offenbach, no oeste do país, que também foi preso no mês passado, pretendiam "contribuir para a sensação geral de ameaça" por meio da realização de um ataque terrorista que pareceria ter sido realizado por um requerente de asilo registrado.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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