Como proceder quando aquele vizinho difícil se torna o presidente dos EUA?

Michael Laforgia e Steve Eder

Em Palm Beach, Flórida (EUA)

  • Hilary Swift/The New York Times

Para as autoridades locais, uma coisa era brigar com Donald Trump, o empreendedor imobiliário, devido à altura de seus arbustos de ficus, ao tamanho do público em seus concertos de Elton John e ao barulho dos aviões sobre seu clube particular, Mar-a-Lago.

Trump com frequência ameaçava ou adulava. A prefeitura com frequência reagia, impondo multas ou enfrentando processos.

Mas lidar com Donald Trump, o presidente, é outra história.

Desde que foi eleito, as autoridades do condado de Palm Beach foram rápidas em conceder ao clube de Trump permissão para construção de um heliponto de concreto, em permitir que o clube promovesse um evento de caridade para a Fundação dos SEALs da Marinha, com uma troca de tiros encenada entre alguns comandos e terroristas de mentira, e em concordar em assumir todos os custos, ao menos por ora, do fechamento de vias públicas e do fornecimento de segurança adicional. Por trás de cada decisão está o ato de equilibrismo entre o desejo de melhor servir os eleitores e um instinto político de não enfurecer o ocupante do mais alto cargo da nação.

"Alguém me perguntou: 'Você sente que vai entrar em atrito com o presidente dos Estados Unidos?' Isso passou pela minha cabeça? Sim", disse Dave Kerner, um democrata da Junta dos Comissários do Condado, um painel que com frequência entrou em choque com Trump nos últimos 20 anos.

"Colegas republicanos meus e pessoas na comunidade com as quais tenho bom relacionamento me alertaram", ele acrescentou. "Apenas: 'Comprador, cuidado. Se pressionar demais, pode haver consequências'."

No início de sua presidência, Trump entregou o comando das Organizações Trump, sua empresa, para seus dois filhos mais velhos, Donald Jr. e Eric, e outros executivos. Trump e a empresa tiveram problemas com o governo federal ao longo dos anos, mais famosamente em torno de auditorias de imposto de renda. Mas com 12 resorts de golfe e mais de 20 outras propriedades com o nome de Trump por todo o país, a empresa tem muitos acordos (e disputas) com os governos locais.

A Organização Trump conta com contestações de impostos pendentes sobre imóveis de Ossining, Nova York, até o condado de Los Angeles. Seus prédios e negócios são alvo de supervisão e inspeções rotineiras, com algumas de suas cozinhas multadas recentemente por violações do código sanitário. A família Trump também planeja uma grande ampliação de seus hotéis, negociando acordos de licenciamento sob sua nova marca, Scion, em dezenas de lugares, de Dallas até Valley Forge, Pensilvânia. Todos os hotéis exigiriam aprovações das autoridades locais.

Pelo menos um consultor de Trump, Edward Russo, disse ter notado uma mudança positiva na recepção que obteve de líderes locais desde que Trump tomou posse. "É surreal", disse Russo, um consultor ambiental que recentemente obteve permissão para uma pequena adição ao chalé no campo de golfe da família Trump em Bedminster, Nova Jersey, onde Trump passou o último fim de semana.

No passado, Trump enchia as autoridades de Bedminster com pedidos para ser enterrado na propriedade, primeiro buscando uma combinação de mausoléu-capela de casamento com obeliscos, depois um cemitério de 6.000 metros quadrados, e finalmente concordando com um cemitério familiar com 10 sepulturas. Ele brigou com elas em torno das letras na placa de seu campo de golfe e as persuadiu a considerarem parte da propriedade uma fazenda, para que sua conta de impostos ficasse mais baixa.

"Todos estão tentando se acostumar a isso", disse Russo. "Trata-se do presidente dos Estados Unidos. Quem imaginaria?"

'Vá em frente e brigue'

Na Flórida, líderes locais e estaduais não se intimidaram em brigar com Trump após ele ter comprado Mar-a-Lago em 1985. As disputas com frequência terminavam em um acordo.

Por anos, Trump foi uma quase constante fonte de conflito. Ele buscava isenções dos códigos locais, violava ou distorcia regulações, e queixava-se de tudo, da frequência da abertura da ponte levadiça ("com frequência demais", ele escreveu em uma carta de 2001 às autoridades de transportes) até a condição "deplorável" da doca de carga de um vizinho.

"Com frequência, o que desejo fazer envolve muitas outras organizações e muita burocracia", escreveu Trump em seu livro de 2008, "Trump – Nunca Desista!" "Eles dizem que você não pode brigar com a prefeitura, mas não tenho problemas em ir contra a sabedoria comum. Pense por si mesmo, vá em frente e brigue."

No início dos anos 90, ele processou a cidade de Palm Beach, o enclave à beira-mar conhecido por suas leis confusas e autoridades implacáveis, e ameaçou subdividir Mar-a-Lago antes de a cidade o autorizar a converter a propriedade em um clube privado. Na época, os líderes municipais condicionaram a aprovação à assinatura por Trump de um "acordo de uso" de 17 páginas, que seu advogado posteriormente descreveria como "tornozeleiras em um preso inocente"

Ao longo da década seguinte, Trump e a prefeitura discutiram em torno de questões como a melhor forma de proteger contra incêndio as tapeçarias portuguesas do século 16 de Mar-a-Lago, fotos não autorizadas e os planos de Trump de construção de uma marina. (Isso exigiria a dragagem do Lago Worth próximo, que é rigidamente regulado por leis locais, estaduais e federais.)

Em 2000, os líderes municipais ameaçaram multas contra o clube de Trump devido a um convite para brunch. Eles disseram que ele sugeria que o clube estava sendo usado para um evento por outra empresa. Então, em 2006, as autoridades multaram Trump por uma série de outras violações em Mar-a-Lago, incluindo a altura de seus arbustos de ficus (baixos demais) e o público presente em um concerto de Elton John (grande demais).

Ofendido, Trump protestou contra a queixa em relação ao concerto. "Estou profundamente desapontado que a prefeitura queira penalizar meus esforços para receber um dos maiores entertainers do mundo para uma caridade muito digna, e uma noite que trouxe grande aclamação a Palm Beach", ele escreveu em uma carta. "É lamentável que a prefeitura continue adotando esse tom duro quando se trata do Mar-a-Lago Club e de Donald Trump."

Quatro meses após o envio da carta, ele partiu para a ofensiva usando uma arma não convencional: um mastro de 24 metros em frente ao clube. Seus advogados argumentaram que apenas um mastro daquele tamanho poderia transmitir de forma adequada o patriotismo de Trump. As autoridades o multaram e ele processou, as acusando de violarem seu direito de liberdade de expressão, antes de chegarem a um acordo.

Em outro processo, impetrado contra Doral, Flórida, pouco antes de Trump anunciar sua candidatura, seus advogados argumentaram que a proibição ao uso de cortadores de grama antes das 7h30 infringia o direito dele ao devido processo. Trump desistiu do processo dias depois e optou por negociar com a prefeitura.

Melissa Nathan, uma porta-voz das Organizações Trump, se recusou a responder perguntas ou comentar para este artigo.

O ex-secretário de obras de Palm Beach, Robert L. Moore, em uma entrevista de maio do ano passado, descreveu Trump como "acostumado a conseguir o quer, na hora em que quer".

"Às vezes são um tanto bizarros", disse Moore sobre os pedidos de Trump, "mas ele sempre tem um argumento para suas excentricidades. Se não consegue tudo o que quer da primeira vez, ele pode conseguir o suficiente para valer seu esforço".

'O tom certo'

Quando Trump usava um Boeing 727 nos anos 90, ele era o avião mais barulhento do aeroporto do condado de Palm Beach, segundo ex-autoridades aeroportuárias. Ele foi certa vez apreendido por ele não ter pago a multa de violação de barulho. Mas ele ficava furioso com o som de outros aviões sobrevoando Mar-a-Lago, e com frequência ordenava a funcionários do clube que ligassem para o aeroporto para reclamar, até mesmo tarde da noite, disseram ex-funcionários.

De janeiro a março de 2001, por exemplo, o telefone do aeroporto do condado registrou 88 queixas de barulho de Mar-a-Lago, como mostram documentos.

Trump processou o condado de Palm Beach três vezes desde 1995, argumentando que a passagem dos aviões sobre seu clube o prejudicava. Com isso, ele também desenvolveu uma rixa contra o diretor do aeroporto do condado, Bruce V. Pelly.

"Ele é um idiota", Trump disse ao jornal "The Palm Beach Post" em 2007, usando a mesma ofensa empregada por ele contra o ex-prefeito de Nova York, Ed Koch, ao ex-deputado federal por Nova York, Anthony Weiner, e Martha Stewart. "O pior diretor de aeroporto do país", disse Trump.

Após a eleição de Trump, seus advogados retiraram seu mais recente processo contra o aeroporto. A questão do barulho se tornou irrelevante: seu novo status como presidente torna os céus sobre Mar-a-Lago uma zona de exclusão aérea sempre que ele estiver lá.

Na semana seguinte, a comissão contra a qual Trump lutava repetidas vezes na Justiça decidiu lhe enviar uma carta o parabenizando.

"Estamos trabalhando com as autoridades federais para assegurar que suas visitas a sua casa no condado de Palm Beach continuem sendo prazerosas", dizia a carta, "e lhe proporcionem um lugar distante da Casa Branca onde possa conduzir os negócios importantes do país".

Todos os comissários concordaram que era importante estabelecer o "tom certo".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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