Onde está a Coreia do Norte no mapa? Geografia afeta opinião dos americanos

Kevin Quealy

  • Getty Images/iStockphoto

    Bandeira da Coreia do Norte marca localização do país em um mapa mundial

    Bandeira da Coreia do Norte marca localização do país em um mapa mundial

Normalmente, a forma como os americanos se sentem a respeito de alguma questão pode ser associada à sua idade, gênero, localização, afiliação partidária e características similares. Mas sobre as políticas que os Estados Unidos deveriam adotar em relação à Coreia do Norte, as opiniões dos americanos dependem em parte de se eles sabem onde ela fica.

Um experimento liderado por Kyle Dropp da Morning Consult entre 27 e 29 de abril, conduzido a pedido do "The New York Times", mostra que os entrevistados que conseguiam identificar corretamente a Coreia do Norte tendiam a ver as estratégias diplomáticas e não-militares de forma mais favorável do que aqueles que não conseguiam. Essas estratégias incluíam a imposição de mais sanções econômicas, o aumento da pressão sobre a China para influenciar a Coreia do Norte e a realização de ciberataques contra alvos militares na Coreia do Norte.

Eles também viam o engajamento militar --em especial, o envio de tropas terrestres-- de forma muito menos favorável do que aqueles que não conseguiam encontrar a Coreia do Norte.

A maior diferença entre os grupos era a mais simples: aqueles que conseguiam encontrar a Coreia do Norte tinham uma probabilidade muito maior de discordar da afirmação de que os Estados Unidos não deveriam fazer nada a respeito da Coreia do Norte.

Dos mais de 1.700 adultos, somente 36% identificaram corretamente onde a Coreia do Norte estava localizada.

O que leva a essas diferenças? Simples partidarismo é uma possibilidade. Em média, os republicanos --e homens republicanos, em particular-- tinham uma maior probabilidade de localizar corretamente a Coreia do Norte do que homens democratas. E republicanos tinham uma maior probabilidade de serem a favor de quase todas as soluções diplomáticas propostas pelos pesquisadores. (As mulheres tendiam a encontrar a Coreia do Norte em proporções similares, independentemente do partido.)

O conhecimento geográfico em si pode contribuir para uma maior apreciação da complexidade de acontecimentos geopolíticos. Essa descoberta é consistente com --embora não idêntica a --um experimento similar que Dropp, Joshua D. Kertzer e Thomas Zeitzoff conduziram em 2014. Eles pediram a americanos que identificassem a Ucrânia em um mapa e lhes perguntaram se eles apoiavam uma intervenção militar. Os pesquisadores descobriram que quanto mais longe o palpite estivesse da Ucrânia, maior era a probabilidade de que ele ou ela fosse a favor de uma intervenção militar.

O grau de instrução foi um fator importante na capacidade dos participantes de encontrar a Coreia do Norte. Aqueles com pós-graduação tiveram o maior grau de sucesso; os únicos que se saíram melhor do que estes foram as pessoas que disseram conhecer alguém de ascendência coreana. Aqueles que haviam visitado ou estado em um país estrangeiro também tinham uma maior probabilidade de encontrar a Coreia do Norte.

Depois dos mais instruídos, o próximo grupo mais bem-sucedido foi o de idosos: quase metade dos entrevistados acima de 65 anos encontrou a Coreia do Norte. A Guerra da Coreia, que terminou em 1953, pode estar na memória dos idosos de hoje.

A Coreia do Norte lançou um míssil balístico de alcance intermediário no domingo, e a Casa Branca fez um apelo para que "todas as nações" apliquem sanções mais duras.

A incapacidade dos americanos de identificar países e lugares não é novidade. Uma pesquisa da Roper feita em 2006 revelou que, em plena Guerra do Iraque, 6 entre cada 10 jovens adultos não conseguiam localizar o Iraque em um mapa do Oriente Médio; cerca de 75% não conseguiam identificar o Irã ou Israel; e somente metade conseguia identificar o Estado de Nova York.

Mas quão importante é isso, de verdade?

Em "Why Geography Matters" (em tradução livre, "por que a geografia é importante"), Harm de Blij escreveu que a geografia é "um ótimo antídoto para o isolacionismo e o provincianismo", e argumentou que "o público americano é a sociedade de importância mais analfabeta geograficamente do planeta, nesses tempos em que o poder dos Estados Unidos pode afetar países e povos do mundo inteiro".

O analfabetismo espacial, segundo os geógrafos, pode deixar os cidadãos sem uma estrutura para pensar sobre questões de política externa de forma mais substancial. "A escassez do conhecimento geográfico significa que não existe uma verificação sobre representações públicas enganosas de questões internacionais", disse Alec Murphy, professor de geografia na Universidade do Oregon.

Os americanos poderiam ser melhores em geografia, mas não se pode esperar que eles acompanhem cada reviravolta na política externa. "As pessoas não investem em informação sobre políticas, mas isso é racional", disse Elizabeth Saunders, uma professora de ciências políticas na Universidade George Washington que estuda política externa e relações internacionais.

Em vez de pesquisar exaustivamente opções de política externa para uma série de países, os americanos são "racionalmente ignorantes", na prática delegando suas opiniões sobre política externa para as elites e a mídia.

No momento, as opiniões dos americanos sobre a Coreia do Norte estão notavelmente consistentes, independentemente de suas outras visões políticas. Uma pesquisa do YouGov mostrou que a Coreia do Norte está no topo de uma lista de 144 países descritos como "inimigos"; um estudo do Gallup mais ou menos da mesma época mostrou a Coreia do Norte como o país do qual os americanos menos gostam.

O relativo pouco interesse dos americanos pela Coreia do Norte não é recíproco. "Os norte-coreanos são obcecados pelos Estados Unidos", escreveu Barbara Demick, ex-chefe do escritório do "The Los Angeles Times" em Pequim, em uma entrevista à "New Yorker".

"Eles culpam os Estados Unidos pela divisão da Península Coreana e parecem acreditar que a política externa dos Estados Unidos desde meados do século 20 girou em torno do 'objetivo único' de prejudica-los", ela disse. "A coisa mais cruel que você pode fazer é dizer a um norte-coreano que muitos americanos não conseguem localizar a Coreia do Norte em um mapa".

A Morning Consult realizou 1.978 entrevistas entre uma amostra nacional de adultos entre 27 e 29 de abril. As entrevistas foram realizadas online, e os dados foram ponderados para se aproximar de uma amostra-alvo de adultos baseada em idade, raça/etnia, gênero, nível de instrução e região.

Para identificar um país, foi mostrado um mapa da Ásia de 800x600 pixels aos entrevistados, que deveriam clicar sobre a Coreia do Norte. Como medida de controle, eles também deveriam identificar os Estados Unidos em um mapa-múndi. Cerca de 90% (1.746) o fizeram corretamente; aqueles que erraram não foram incluídos nesta análise.

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