Senadores republicanos se afastam de Trump para buscar agenda própria

Jennifer Steinhauer

Em Washington (EUA)

  • Saul Loeb/AFP

    O presidente dos EUA, Donald Trump, faz discurso diante do Capitólio, em Washington

    O presidente dos EUA, Donald Trump, faz discurso diante do Capitólio, em Washington

Os senadores republicanos, cada vez mais nervosos com a volatilidade e impopularidade do presidente Donald Trump, estão começando a exibir sinais de rompimento com ele enquanto tentam forjar uma agenda republicana mais tradicional e proteger sua sorte política.

Vários republicanos questionaram abertamente a decisão de Trump de demitir o diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana), James Comey, e até mesmo legisladores que apoiaram a decisão se queixaram de forma privada que o momento foi inoportuno e perturbou o trabalho deles. Muitos ficaram consternados quando Trump pareceu ameaçar Comey a não vazar informação negativa a seu respeito.

Enquanto buscam sua própria agenda, os senadores republicanos estão elaborando um projeto de lei de atendimento de saúde com pouca participação da Casa Branca, buscando evitar as armadilhas de relações públicas nas quais a Câmara caiu ao aprovar sua própria versão profundamente impopular. Os republicanos também estão empurrando de volta o pedido de Orçamento do presidente, que inclui um artigo que quase eliminaria os fundos para o escritório nacional de controle de drogas em meio a uma epidemia de opioides. E muitos importantes republicanos disseram que não apoiarão qualquer medida de Trump para saída do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês).

Até o momento, os republicanos têm evitado resistir ao presidente em massa, em parte para evitar minar o esforço intensivo deles para recolocar os projetos de lei de reforma da saúde e tributária na mesa dele neste ano. E a liderança republicana, incluindo o senador Mitch McConnell de Kentucky, o líder da maioria, e o presidente da Câmara, Paul Ryan de Wisconsin, mantêm seu apoio a Trump.

Mas com a Casa Branca se arrastando de uma crise a outra, o presidente está atrapalhando os esforços dos republicanos para cumprirem suas promessas.

"Todo o trabalho necessário para a realização de grandes coisas já é árduo o bastante mesmo em meio ao mais tranquilo dos ambientes em Washington", disse Kevin Madden, um assessor republicano que trabalhou para John A. Boehner quando este foi presidente da Câmara. "Mas distrações como essas podem ser um obstáculo sério para um alinhamento de interesses no Congresso."

Quando o Congresso e a Casa Branca são controlados pelo mesmo partido, os legisladores geralmente tentam usar o peso pleno da presidência para atingir suas prioridades legislativas, por meio de uma visão clara e coordenada, paciência com legisladores intransigentes e repetição da mensagem. O uso improvisado por Trump de sua posição para envio de mensagens políticas virou de cabeça para baixo essas regras.

"Parece que temos um levante, uma crise quase todo dia em Washington, que muda o assunto", disse a senadora Susan Collins, republicana do Maine, que está tentando dar andamento à legislação de reforma da saúde, em uma entrevista para a televisão na noite de quinta-feira.

A mais recente crise envolve a demissão repentina por Trump de Comey, que estava liderando uma investigação pelo FBI dos contatos entre a campanha de Trump e a Rússia. Trump sugeriu na semana passada que pode ter gravado de forma escondida suas conversas com Comey, e no domingo dois senadores republicanos, Mike Lee, de Utah, e Lindsey Graham, da Carolina do Sul, disseram que o presidente deve entregar essas gravações, caso existam.

Nos dias que se seguiram à vitória eleitoral de Trump, o sentimento era diferente, com os republicanos expressando grandes esperanças de que poderiam avançar rapidamente na agenda conservadora que se mesclou com a de Trump. "Seremos apoiadores entusiásticos quase o tempo todo", disse McConnell sobre Trump em novembro.

Mas os republicanos conseguiram poucas de suas prioridades legislativas, como derrubar a Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível (a reforma da saúde de Obama) ou cortar impostos. Quando Trump sugeriu neste mês que o Senado deveria mudar suas regras para facilitar para os republicanos a aprovação de seus projetos de lei, McConnell rejeitou firmemente a ideia.

Os legisladores também estão resistindo ao presidente ao darem continuidade às medidas bipartidárias de sanções contra a Rússia. E, neste mês, os republicanos rejeitaram muitas das prioridades do governo em uma medida de gastos de curto prazo, incluindo dinheiro para um muro ao longo da fronteira com o México.

Dois senadores republicanos que enfrentam disputas difíceis para a reeleição no ano que vem, Dean Heller, de Nevada, e Jeff Flake, do Arizona, têm sido diretos em suas críticas a Trump e seu governo, que começaram a ver como sendo um obstáculo para suas perspectivas políticas.

"No Arizona, as pessoas estão se tornando independentes", disse Flake, notando a impopularidade em seu Estado das posições de Trump a respeito do muro na fronteira e do Nafta. "Espero que as pessoas queiram alguém que diga: 'Votarei com Trump nas coisas boas e contra ele nas coisas não boas'."

Alguns republicanos, como Ryan, preferem manter um foco firme nas coisas boas. Ryan permanece em harmonia com o presidente, o chamando no mês passado de um "líder determinado, que coloca as mãos na massa, com o potencial de se tornar uma figura americana realmente transformadora".

Trump mantém o apoio de cerca de 80% dos eleitores republicanos e apesar de sua popularidade geral se encontrar em pontos baixos históricos a esta altura de uma presidência, ela continua acima dos pontos baixos atingidos posteriormente por presidentes como George W. Bush e Jimmy Carter.

Nesses patamares, um grande número de legisladores pode começar a se afastar de Trump (apesar de mesmo se quisessem, os republicanos não podem se separar completamente dele em questões como a reforma tributária, onde a bênção dele seria necessária para avanço de qualquer grande medida).

Mas apesar de os índices de aprovação de Trump serem suficientes para impedir deserções em massa (uma pesquisa "Wall Street Journal/NBC News" divulgada no domingo a mostrava em 39%), eles ainda são baixos demais para pressionar os democratas a apoiá-lo de qualquer forma significativa.

Qualquer projeto de lei que exija 60 votos para aprovação (quase tudo, com exceção das medidas fiscais e de saúde dos republicanos) será impossível de avançar sem a ajuda dos democratas.

Os republicanos contam que os senadores democratas que disputarão reeleições em Estados vencidos por Trump se curvarão a sua vontade. Mas esses democratas, como os senadores Claire McCaskill, do Missouri, e Joe Manchin 3º, da Virgínia Ocidental, estão tranquilos em seu posicionar contra Trump, especialmente quando seus colegas republicanos lhes dizem que eles também estão cheios.

"Ouço cada vez mais de forma privada que estão cada vez mais preocupados", disse o senador Sherrod Brown, democrata de Ohio. "Mais importante, há muito menos medo dele do que havia há apenas um mês."

Os republicanos já falam abertamente em rejeitar partes do Orçamento que Trump deverá apresentar em duas semanas. Qualquer novo pedido de dinheiro para o muro na fronteira quase certamente será rejeitado, assim como grandes cortes nos programas de controle de drogas.

O senador Rob Portman, republicano de Ohio, defendeu os programas no plenário do Senado, e a senadora Shelley Moore Capito, republicana da Virgínia Ocidental, um Estado que sofre com grande número de mortes por opioides, emitiu um comunicado de imprensa exigindo que o governo "proponha um Orçamento realista, que demonstre o compromisso do governo no combate à dependência de drogas".

Se não o fizer, como ela alertou em uma carta a Mick Mulvaney, o diretor de orçamento da Casa Branca, "eu liderarei um grupo bipartidário de meus colegas no Comitê de Apropriações e no Senado para rejeição dos cortes propostos".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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