Opinião: Quando o mundo é liderado por uma criança chamada Donald Trump

David Brooks

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

    16.mai.2017 - Donald Trump aguarda a visita do presidente da Turquia,Tayyip Erdogan, na Casa Branca, em Washington, EUA

    16.mai.2017 - Donald Trump aguarda a visita do presidente da Turquia,Tayyip Erdogan, na Casa Branca, em Washington, EUA

Em certos momentos Donald Trump parece um autoritário nascente, um Nixon corrupto, um populista incendiário ou um corporativista dos grandes negócios.

Mas à medida que Trump se assenta em seu papel na Casa Branca, ele tem dado uma série de longas entrevistas, e quando se estuda as transcrições, fica claro que ele não é, fundamentalmente, nenhuma dessas coisas.

No fundo, Trump é um infantilista. Há três tarefas que a maioria dos adultos maduros já resolveram quando chegam aos 25 anos. Trump não dominou nenhuma delas. Imaturidade está se tornando a característica predominante de sua presidência, falta de autocontrole o seu tema recorrente.

Primeiro, a maioria dos adultos aprende a ficar quieta. Mas mentalmente, Trump ainda é um menino de 7 anos que fica saltando pela sala de aula. As respostas de Trump nas entrevistas não são muito longas (200 palavras no máximo), mas ele costuma abordar quatro ou cinco assuntos antes de acabar dizendo quão injusta a imprensa é com ele.

Sua incapacidade de focar sua atenção dificulta para que ele aprenda e domine os fatos. Ele é mal informado sobre suas próprias políticas e tropeça em seus próprios pontos de discussão. Isso torna difícil para ele controlar sua língua. Em um impulso, ele prometerá uma reforma tributária, quando sua equipe realizou pouco do trabalho de fato.

Segundo, a maioria das pessoas em idade de ingerir álcool já chegou a um senso preciso de si mesmas, a alguns critérios internos para medir seus próprios méritos e deméritos. Mas Trump parece precisar perpetuamente de aprovação externa para estabilizar seu senso de si mesmo, de modo que está perpetuamente desesperado por aprovação, contando fábulas heróicas sobre si mesmo.

"Em um curto período eu entendi tudo o que precisava saber sobre atendimento de saúde", ele disse à revista "Time". "Muitas pessoas disseram, algumas pessoas disseram que foi o melhor discurso já feito naquela sala", ele disse à agência de notícias "The Associated Press", em referência ao seu discurso para a sessão conjunta do Congresso.

Para Trump, ele sabe mais sobre tecnologia de porta-aviões do que a Marinha. Segundo sua entrevista para a revista "The Economist", ele inventou a frase "priming the pump" (aprontar a bomba, apesar dela já ser famosa em 1933). Trump não tenta apenas enganar os outros. Suas mentiras são tentativas de construir um mundo no qual possa se sentir bem por um instante e enganar confortavelmente a si mesmo.

Portanto, ele é o detentor do recorde de todos os tempos do efeito Dunning-Kruger, o fenômeno no qual a pessoa incompetente é incompetente demais para entender sua própria incompetência. Trump achou que seria celebrado por demitir James Comey. Ele achou que a cobertura pela imprensa se tornaria positiva assim que conquistasse a indicação para disputar a presidência. Ele está perpetuamente surpreso pois a realidade não comporta suas fantasias.

Terceiro, na idade adulta, a maioria das pessoas consegue perceber como as outras estão pensando. Por exemplo, elas aprendem artes sutis, como falsa modéstia, para que não sejam percebidas como desagradáveis.

Mas Trump parece ainda não ter desenvolvido uma teoria da mente. As outras pessoas são caixas pretas que fornecem ou afirmação ou desaprovação. Como resultado, ele é estranhamente transparente. Ele quer que as pessoas o amem, de modo que está dizendo constantemente aos entrevistadores que é muito amado. Na visão de Trump, a duração de toda reunião é prevista para 15 minutos, mas seus convidados permanecem por duas horas por gostarem tanto dele.

O que nos traz aos relatos de que Trump traiu uma fonte de inteligência e vazou segredos para seus visitantes russos. Por tudo o que sabemos até o momento, Trump não o fez por ser um agente russo, ou por intenções malignas. Ele o fez por ser desleixado, por carecer de qualquer controle dos impulsos e, acima de tudo, por ser um menino de 9 anos desesperado pela aprovação daqueles que admira.

A história do vazamento russo revela outra coisa, o perigo de um homem vazio.

Nossas instituições dependem de pessoas que tenham caráter suficiente para cumprir seus deveres designados. Mas há cada vez menos em Trump do que parece. Quando analisamos as falas de um presidente, tendemos a presumir que há algum processo substantivo por trás das palavras, que faz parte de alguma intenção estratégica.

Mas as declarações de Trump não necessariamente vêm de algum lugar, levam a algum lugar ou têm uma realidade permanente além do desejo dele de ser apreciado em qualquer instante.

Temos essa situação perversa na qual os vastos poderes analíticos de todo o mundo estão sendo gastos tentando entender um sujeito cujos pensamentos costumam se limitar a seis pirilampos piscando aleatoriamente dentro de um jarro.

"Queremos demais entender Trump", escreve David Roberts na "Vox". "Isso poderia nos dar um senso de controle, ao menos a capacidade de prever o que ele fará a seguir. Mas e se não houver nada para entender? E se não houver nada lá?"

E desse vazio vem o descuido que possivelmente traiu uma fonte de inteligência e colocou em risco um país.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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