Detento descobre a pintura na prisão e agora vai estudar na Itália

James Barron

Em Jersey City, Nova Jersey (EUA)

  • Joshua Bright/The New York Times

    George Morton em seu estúdio na Academia de Belas Artes de Florença dos Estados Unidos, em Jersey City

    George Morton em seu estúdio na Academia de Belas Artes de Florença dos Estados Unidos, em Jersey City

"Este é meu material de pintura", disse George Anthony Morton, pedindo desculpa pela tinta respingada que só ele conseguia ver em sua camiseta preta. Ela passou a tarde diante de seu cavalete, pintando o retrato de alguém que ele pediu que posasse para ele.

"Isto ainda não chegou a um ponto que considere satisfatório", ele disse, mas estava animado, já que teria mais duas sessões com ela. "Espero ser capaz de refiná-lo", ele disse.

Todo artista tem uma história. Morton deseja que a sua seja a respeito do local para onde está indo: a Academia de Belas Artes de Florença, na Itália. Ela fará um curso de seis semanas lá a partir de julho.

Isso é incomum. Ele se candidatou e foi aceito, o único estudante da unidade americana da academia, a Academia de Belas Artes de Florença dos Estados Unidos, que irá. Mas não tão incomum quanto a parte de sua história que ele não gosta que domine a conversa, a parte sobre onde esteve, um presídio federal. Ele cumpriu nove anos e seis meses de uma sentença de 11 anos, após se declarar culpado de uma acusação envolvendo drogas no Missouri, onde cresceu.

"Toda a faixa dos meus 20 anos", disse Morton, 33 anos, que atualmente vive em Jersey City.

Ele foi solto há três anos e ordenado a se apresentar regularmente a um agente supervisor por 10 anos. No mês passado, o juiz Gary A. Fenner encerrou a exigência de supervisão.

"O encerramento antecipado da supervisão é algo incomum", disse Harlan Protass, um advogado de Manhattan que tirou da prisão um vendedor de drogas do Harlem que cumpria pena de prisão perpétua. "Geralmente é preciso um bom motivo para um juiz encerrar um período de liberdade condicional supervisionada."

O pedido de Morton para o fim de sua liberdade condicional mencionou o aprendizado de pintura na prisão. Ele mencionou os murais que ele pintou nos refeitórios dos agentes penitenciários nos dois presídios onde cumpriu sua pena. (Na metade de sua pena, ele foi transferido de um presídio em Greenville, Illinois, para um em Littleton, Colorado.)

O pedido mencionou que, em 2015, ele começou a estudar na Academia de Belas Artes de Florença nos Estados Unidos, no complexo Mana Arts aqui em Jersey City. Em 2016, ele recebeu da escola o prêmio de melhor retrato do ano.

Em fevereiro e março deste ano, ele passou um dia por semana no programa de copista do Museu Metropolitano de Arte, criando interpretações de obras-primas em seu cavalete montado nas galerias.

Em abril, uma de suas pinturas estava exposta em Sag Harbor, Nova York, nos Hamptons. O "Sag Harbor Express" publicou um artigo sobre ele com o título "Um Rembrandt das Ruas". A pintura foi vendida antes da abertura da exposição.

Aprender a pintar é um trabalho árduo, e Jordan Sokol, um artista e diretor acadêmico da divisão americana da Academia de Florença, disse que Morton conta com "uma profunda ética de trabalho".

"É como se ele quisesse tentar recuperar o tempo perdido", disse Sokol. "Ele costuma ser o último a sair do estúdio e com frequência é o primeiro a chegar."

Joshua Bright/The New York Times
George Morton trabalha em autorretrato em seu estúdio na Academia de Belas Artes de Florença dos Estados Unidos, em Jersey City


A escola enfatiza meios e métodos clássicos de aplicar tinta às telas, carvão no papel ou transformar pedra em escultura, as técnicas dos velhos mestres. "Há pintores afro-americanos nessa tradição, mas não muitos", disse Sokol.

Morton está ciente de que quando concluir seus estudos em dezembro, ele será o primeiro afro-americano a se formar pela Academia de Belas Artes de Florença dos Estados Unidos. "Ser um artista, ser um artista americano, ser um artista afro-americano, eu levo isso muito a sério", disse Morton.

Ele é o mais velho de 11 filhos. "Minha mãe me teve quando tinha 15 anos", ele disse. "Ela era apenas uma menininha criando filhos. Nós meio que crescemos juntos."

Morton abandonou a escola quando estava na sétima série. Ele foi preso por vender drogas quando tinha 19 anos em Kansas City, Missouri, onde vivia. Ele disse que aconteceu em "uma área de alto tráfego, onde eu podia ganhar algum dinheiro".

"Na verdade eu apenas vendia maconha em um quarto de hotel", acrescentou Morton.

A polícia de Kansas City estava à procura dele em conexão com outro caso.

Sua mãe também estava à sua procura. Ela estava com alguém quando ligou. Morton perguntou quem era. Ela mencionou que era alguém que ele conhecia de quando era pequeno. "Eu disse: 'Seja lá o que fizer, não traga ele. Livre-se dele'", ele lembrou. "Mas ela o trouxe."

O homem revelou ser um informante da polícia. Morton foi preso minutos depois do informante e sua mãe chegarem ao hotel.

Ele agora descreve sua prisão, julgamento e pena como "quase um grito por ajuda". Morton prosseguiu: "Eu queria algo melhor para mim mesmo".

Ele se declarou culpado porque, ele disse, "as consequências ameaçadas eram pesadas e em 85% das vezes eles vencem no julgamento". Ele foi sentenciado segundo as diretrizes mínimas obrigatórias que o governo Obama relaxou. O atual secretário de Justiça, Jeff Sessions, pediu por um retorno das sentenças mais duras.

Morton disse que havia uma "qualidade monástica" na prisão. Ele também disse que imaginou, ao entrar, que seria "o mais perto que eu já chegaria de uma faculdade".

Monitorando os mercados financeiros com gráficos feitos à mão, ele disse, ele chamou a atenção de um preso VIP, Jeffrey K. Skilling, o ex-presidente-executivo da Enron, que foi condenado pela fraude que levou ao colapso da empresa.

De volta aos seus primeiros dias na Academia de Belas Artes de Florença, Morton trouxe a edição de janeiro de 2011 da revista "American Artist". Ela tinha chegado por correspondência enquanto ele estava na prisão. Ele leu um artigo intitulado "11 Artistas para Ficar de Olho em 2011". Um dos artistas era Sokol. Mortou pensou: "O sujeito não é um qualquer. É como um astro do rock".

Ele deu a revista a Sokol. "Eu lhe disse que não precisaria mais dela", disse Morton. "Agora estou aqui."
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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