Suspeitas de que Trump utilize clubes de golfe como organização política assombram governo

Eric Lipton, Steve Eder e Ben Protess

Em Sterling, Virgínia (EUA)

  • AL DRAGO/NYT

    Presidente dos EUA, Donald Trump, chega no Trump National Golf Club, em Sterling

    Presidente dos EUA, Donald Trump, chega no Trump National Golf Club, em Sterling

No 11º buraco do campo, os astros do golfe John Daly e Rocco Mediate comparavam suas tacadas no início do torneio. Ali perto, uma equipe do Golf Channel ajustava a posição das câmeras. E um grupo de espectadores se alinhava para assistir.

Parecia um dia comum no circuito profissional do golfe --exceto que essa cena se desenrolava em um clube de propriedade do presidente dos EUA, num subúrbio de Washington.

O torneio, que começou na última quinta-feira no Trump National Golf Club, representa um marco em uma estratégia que projetou o esporte para o centro da fortuna familiar dos Trumps.

Como o primeiro torneio da Associação de Golfistas Profissionais (PGA na sigla em inglês) realizado em um dos campos de Donald Trump desde que ele assumiu a Presidência, o evento também ilustra os percalços associados a um presidente-empresário que não deseja se afastar totalmente de seu império comercial, particularmente do negócio de golfe, em que Trump está testando os limites de sua própria ética política.

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Eric Trump, que gerencia o negócio de golfe da Organização Trump, assiste campeonato nacional de golfe, em Sterling

Durante a última década, a Trump Organization acumulou campos de golfe, gastando centenas de milhões de dólares para comprar, reformar e aperfeiçoar uma dúzia de clubes e resorts, do vale do Hudson até Doonbeg, na Irlanda. Os clubes de golfe representaram cerca da metade da receita de Trump, segundo sua declaração de renda pessoal do ano passado.

A proeminência do torneio, o Senior PGA Championship, realça o burburinho em torno dos clubes de Trump, que, apesar de sua pegada relativamente modesta no setor específico, tornaram-se atrações por sua proximidade da família presidencial. Os filhos Eric e Donald Jr. estiveram no campo nesta semana, e Eric sugeriu que seu pai poderia comparecer.

Com apenas quatro meses na Presidência, Donald Trump visitou os clubes de golfe da família 25 vezes, dando-lhes uma exposição na mídia maior que qualquer publicidade paga. Seis dessas visitas foram ao campo na Virgínia, enquanto a PGA vendia os ingressos para o evento. E nesta semana Trump cortejou os velhos profissionais que estavam na cidade organizando um passeio privado à Casa Branca, apesar de prometer em seu plano de ética que "o ofício da Presidência está isolado da Trump Organization".

Trump estava fora do país, mas uma autoridade da Casa Branca, Andrew Giuliani, foi citada no site da PGA desta forma: "O presidente pediu que fizéssemos algo para os profissionais dos clubes nesta semana".

Uma porta-voz da Casa Branca não respondeu às perguntas sobre o torneio da PGA ou a relação de Trump com seus negócios de golfe.

Os vigilantes da ética e alguns congressistas democratas viram com suspeita a convergência da Presidência Trump com os negócios de golfe da família. Alguns questionam se a afiliação aos clubes poderia ser usada para obter favores de Trump e seu governo.

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Dia do campeonado Senior PGA, no Trump National Golf Club, nos EUA

As "taxas de iniciação" também despertaram a ira de alguns membros que saíram dos clubes Trump. Eles se queixam de que os Trumps se recusam a restituir o dinheiro mesmo décadas depois, segundo registros judiciais e entrevistas com ex-membros, numa política mais rígida que a de outros clubes. Até que o dinheiro seja devolvido, as antigas regras dos clubes de Trump afirmam que a família pode usá-lo "para qualquer propósito".

Além disso, os membros prospectivos dos clubes de Trump não enfrentam a rigorosa seleção por que passam os novos sócios de hotéis da Trump Organization, segundo pessoas inteiradas sobre as políticas de ética da empresa e que falaram sob a condição do anonimato. A decisão de não examinar os novos membros --porque as taxas individuais do clube são insignificantes para os negócios gerais dos Trumps-- significa que lobistas de empresas e autoridades estrangeiras podem se afiliar sem que isso seja divulgado, uma possibilidade que alguns congressistas democratas consideram perturbadora.

"Os fundadores desta nação tiveram grande dificuldade para manter as autoridades eleitas concentradas no bem comum, e não em seus interesses privados", disse o deputado democrata Jamie Raskin, de Maryland.

Eric Trump, que administra os negócios de golfe, disse que essas preocupações são infundadas.

"Simplesmente não somos uma organização política --não podemos ser", afirmou.

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Eric Trump, durante campeonato nacional de golfe, no Trump National Golf Club, em Sterling

Armadilhas potenciais

As dívidas bancárias tiveram um papel na expansão do negócio de golfe. Quatro grandes empréstimos são citados no relatório de resultados financeiros, incluindo um do Chevy Chase Bank em Maryland para o campo de golfe na Virgínia e dois do Deutsche Bank para o resort Doral dos Trumps, perto de Miami.

Mas uma fonte de financiamento menos convencional também ajudou a alimentar a expansão: as taxas de iniciação dos membros.

As taxas são uma parte normal do ingresso na maioria dos clubes de golfe, alguns dos quais só permitem depósitos não reembolsáveis. Nas propriedades de golfe de Trump, a quantia inicial necessária para obter a filiação depende da popularidade do clube, da qualidade do campo e das características demográficas do mercado. As taxas iniciais, assim como as anuais e as receitas relacionadas ao clube e resort, ajudam a financiar aperfeiçoamentos nos campos, segundo Eric Trump.

Assim sendo, os Trumps muitas vezes relutam em devolver as taxas, mesmo depois que os membros deixam o clube.

Pouco depois da posse de Donald Trump, um juiz federal da Flórida ordenou que seu clube de golfe em Jupiter, nesse Estado, pagasse US$ 5,7 milhões por se recusar a devolver depósitos a membros que tentaram deixar o clube antes que os Trumps o comprassem. Os Trumps estão apelando da decisão.

Alfred P. Carlton Jr., um especialista em direito de clubes de campo, disse que a tensão existiu "em toda a indústria sobre direitos de restituir taxas iniciais e o tempo que levam para restituir" por causa da lenta recuperação do golfe da crise financeira. Dito isso, ele descreveu a política de taxas iniciais dos Trumps como "um pouco incomum".

Marketing presidencial

No mês passado, Trump jogou golfe com seu diretor de orçamento, Mick Mulvaney, assim como com o senador republicano Rand Paul, do Kentucky, no campo na Virgínia.

Foi uma das seis viagens que Trump fez ao campo desde meados de março, um movimento que começou dias depois que a PGA começou a promover a venda de ingressos para o campeonato KitchenAid Senior PGA deste fim de semana.

"O fato de termos um presidente dos EUA afiliado à instalação onde se desenrola um grande campeonato é muito bom para o golfe e para este campo", disse Ted Bishop, um ex-presidente da PGA que em 2014 negociou o acordo para levar o torneio para lá.

"Ele oferece exposição e provavelmente credibilidade e prestígio", explicou ele.

A PGA recompensa os donos de clube de diversas maneiras, inclusive, em geral, dando aos proprietários dos clubes uma parte da receita, o que cria um incentivo para que eles ajudem a aumentar a participação, segundo Bishop. A PGA espera entre 25 mil e 30 mil espectadores no campeonato deste fim de semana, apesar da frequência relativamente fraca na quinta-feira (1).

Alguns, como Jeffrey Sammons --um professor de história na Universidade de Nova York que formou o grupo Golfers Opposing Bigotry [Golfistas contra o preconceito]--, estão tentando pressionar as associações de golfe profissionais a cortar relações com os campos da família Trump.

"O golfe pretende representar inclusão, civilidade e etiqueta", disse Sammons. "Parece-me que ele representa o contrário."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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