Na China, economia compartilhada inclui guarda-chuva e até bola de basquete

Amy Qin

Em Pequim (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

A China talvez esteja compartilhando demais.

Primeiro, uma guerra brutal e dispendiosa dos aplicativos de táxis expulsou a Uber do país. Depois, um boom no compartilhamento de bicicletas encheu as ruas de bicicletas não utilizadas.

Hoje, as startups chinesas querem compartilhar guarda-chuvas, betoneiras e baterias de reserva para telefones celulares. Uma delas quer compartilhar bolas de basquete.

Enquanto os empresários e investidores chineses entram no jogo, alguns membros céticos da indústria se perguntam: a China atingiu o "pico do compartilhamento"?

"Depois de tantos anos, a China finalmente está adotando suas raízes comunistas", disse Andy Tian, um empresário e cofundador do Asia Innovations Group, em Pequim. "Essa é a essência do comunismo: o compartilhamento comunitário."

"Mas não há dúvida de que é uma bolha", acrescentou ele. "Pode ter raízes em algo valioso, mas você pode realmente compartilhar tudo?"

Empresários chineses como Xu Min acreditam que sim, muito possivelmente. Em março, o empresário serial de 30 anos de Jiaxing, cidade na província de Zhejiang, no leste do país, apresentou a ideia de um serviço de compartilhamento de bolas de basquete depois que ouviu amigos se queixarem da inconveniência de carregar uma bola para todo lado.

Apenas quatro dias depois, Xu montou a Zhulegeqiu, um trocadilho em chinês que significa aproximadamente "alugue uma bola". Ela permite que os usuários aluguem bolas de basquete em armários automatizados nas quadras de todo o país. Para alugar uma bola, os usuários escaneiam um código no armário com a câmera do smartphone, o que destrava o compartimento que contém a bola.

A Zhulegeqiu cobra cerca de um yuan (R$ 0,47) por hora de aluguel. Um depósito de aproximadamente R$ 33,00 é exigido, a menos que o usuário tenha uma classificação alta no Sesame Credit, o sistema de notas de crédito social desenvolvido pela Ant Financial da China, afiliada do Alibaba Group, gigante do comércio eletrônico.

"Em longo prazo, pode ser mais custo-benefício comprar uma bola, em vez de alugar", disse Xu. "Mas nós achamos que os usuários chineses estão dispostos a pagar um pouco mais pela conveniência."

No começo deste mês, a Zhulegeqiu recebeu cerca de US$ 1,4 milhão (R$ 4,56 milhões) em investimento da Modern Capital, uma firma de capital de risco sediada em Xangai.

Por trás do sucesso do compartilhamento na China há um excedente de dinheiro e --segundo alguns críticos-- falta de boas ideias. As firmas de capital de risco na China investiram US$ 31 bilhões em 2016, cerca de 20% a mais que no ano anterior, segundo um relatório recente da KPMG. Grande parte disso foi para empresas de compartilhamento, enquanto algumas grandes faturadoras e uma cena pujante de startups atraíram investidores do país e do exterior.

"Estamos vendo muito dinheiro girando por aí", disse Zhou Wei, executivo-chefe da XNode, uma aceleradora de startups e espaço de "coworking" em Xangai. "E investimento tolos sendo feitos."

Em sua última fase, a economia do compartilhamento na China evoluiu para algo parecido com uma empresa de aluguéis pela internet. Diferentemente da Airbnb e da Uber, que oferecem uma plataforma que conecta os usuários aos recursos existentes, as últimas empresas de compartilhamento na China são donas do produto e o alugam aos usuários.

Isso não quer dizer que o compartilhamento na China seja necessariamente uma má ideia. Didi Chuzing, a empresa de táxis compartilhados que comprou a Uber e a tirou da China, é uma companhia privada que não revela seus resultados financeiros, mas sua avaliação está subindo com a procura dos investidores. A China também tem boas condições para o compartilhamento, incluindo uma população enorme, cidades densas e um grupo considerável de pessoas que não podem comprar.

"Na China, a renda média ainda é muito baixa, e o mercado, de diversas maneiras, muito ligado aos preços", disse Mark Natkin, diretor-gerente da firma de pesquisas em tecnologia Marbridge Consulting. "Por isso, se houver tecnologia para dar apoio e um modelo de negócios viável, há todo tipo de empresas de compartilhamento ou pseudocompartilhamento com potencial para se saírem muito bem."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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