Análise: Julgamento de Cosby revela como homens poderosos assediam mulheres

Susan Chira

  • Matt Rourke/AP

    Bill Cosby chega para seu julgamento de assédio sexual, em Norristown

    Bill Cosby chega para seu julgamento de assédio sexual, em Norristown

É um espetáculo familiar e embaraçoso: uma mulher denuncia um abuso sexual e acaba sendo submetida também a julgamento. Ela é interrogada no banco das testemunhas sobre por que ela teria continuado a falar com um homem famoso que hoje está acusando de abuso, alguém que tinha o poder de influenciar seu futuro. O homem precisa se defender da possibilidade de acusações falsas, então a credibilidade de uma mulher é posta à prova.

Os dois dias de Andrea Constand no centro do julgamento de Bill Cosby captaram a dinâmica que torna os casos de abuso sexual tão polarizadores e tão reverberantes. Seu depoimento, rejeitado pelos advogados de Cosby, ocorreu em um momento cultural em que acusações de agressão ou de assédio sexual abalaram um império da mídia, uma campanha presidencial, startups do Vale do Silício e inúmeros campi universitários.

De certa forma, este também é um julgamento sobre como a sociedade lida com as questões voláteis de poder, predação e devido processo que complicam narrativas que consistem na palavra do homem contra a da mulher. O júri ainda não tomou sua decisão.

Revelações sobre anos de assédio sexual tiraram Roger Ailes e Bill O'Reilly da Fox News, mas restam dúvidas sobre como a cultura da empresa mudará fundamentalmente. A Uber demitiu 20 pessoas após investigações internas de assédio. Analistas políticos erraram em suas previsões de que as gravações de Trump se gabando de abusar sexualmente de mulheres acabariam com sua candidatura.

"Quando algo está pronto para se tornar uma narrativa cultural, tudo a alimenta", disse Mark Harris, um escritor e ex-editor executivo da "Entertainment Weekly", que também citou um filme da HBO de 2016 sobre a humilhação pública que Anita Hill sofreu depois de ter acusado Clarence Thomas de assédio. "Quando as pessoas finalmente estão dispostas a encarar algo de frente, a cultura quase que conspira para lhes dizer o quanto disso elas estão dispostas a encarar de frente".

REUTERS
Andrea Constand caminha para o Tribunal onde ocorreu o julgamento de Bill Cosby, em Norristown

Nesse caso, há muitas questões de alta carga emocional, como: o que acontece com as mulheres que se expõem, dentro e fora dos tribunais; os obstáculos que o sistema coloca no caminho; a questão de quem é e de quem não é responsabilizado; quando a fama protege e quando atrapalha, intensificando a crítica do público; quando o gênero expõe ou distorce as questões existentes.

Mais de 40 outras mulheres se expuseram para descrever episódios parecidos, alegando que Cosby as teria drogado e estuprado. Mas o júri pôde ouvir somente uma outra história além da de Constand. Isso porque muitos dos casos passados eram civis e não criminais, e advogados de defesa convenceram um juiz a determinar que permitir que muitas outras testemunhassem seria como julgar Cosby por outros atos, e não pelo ato em questão, disse Elizabeth Schneider, professora e especialista em direito de gênero na Faculdade de Direito de Brooklyn.

Decisões como essas são o cerne dos desafios envolvidos em se garantir um julgamento justo para homens ou mulheres sobre conduta sexual inapropriada, que costuma ocorrer sem outras testemunhas. O procedimento de se estabelecer—ou minar—a credibilidade submete as mulheres a árduos procedimentos legais.

Durante décadas, mulheres que entraram com ações por estupro tiveram de passar por exames psicológicos obrigatórios, e os juízes advertiam os júris que acusações de estupro eram fáceis de fazer e difíceis de provar. Embora essas barreiras tenham caído, os júris muitas vezes continuam céticos, e continuam existindo inúmeros obstáculos sistêmicos, disse Schneider, inclusive a disseminada prática de sigilo estrito quanto ao valor dos acordos.

Questionamentos como o porquê de Constand ter continuado ligando para Cosby e mesmo deixado um presente para ele uma vez são táticas padrão de defesa e um comportamento comum para mulheres em casos como esses, ela disse.

"Isso não é surpresa para ninguém que sabe sobre as reações complicadas que as mulheres têm", disse Schneider. "Ele é o pai de todo mundo. Especialmente se lhe deram algum medicamento para desmaiar, você tem muitas dúvidas depois. Parte dela não queria acreditar que aquilo tinha realmente acontecido. Parte dela acreditava que esse era um homem legal mais velho que a estava ajudando, e ela não queria fechar as portas".

Esse desequilíbrio de poder muitas vezes silencia as mulheres que temem repercussões profissionais e sociais.

Katie Packer Beeson, uma consultora política e ex-diretora de campanha de Mitt Romney, relatou dois incidentes que enfrentou no começo de sua carreira. Um parlamentar mais velho, durante uma viagem de negócios, agarrou sua virilha, e em outra viagem um lobista ofereceu para levá-la de carro até o hotel dela, mas em vez disso a levou à força para seu hotel, e só desistiu quando percebeu que ela estava tão obviamente aflita que ele não conseguiria levá-la para seu quarto discretamente.

No primeiro caso, ela chorou naquela noite mas decidiu não dizer nada. "Pensei, não quero ser a dedo-duro, não quero causar problemas a esse cara. E se ele perder a eleição e nós perdermos a maioria?", ela disse. Os republicanos tinham uma maioria de uma cadeira no Senado de Michigan naquela época. Muitos anos depois, ela descobriu que ele havia assediado outras também. Ela conta que tampouco denunciou o segundo incidente, considerando a proeminência do lobista. Embora hoje incentive as mulheres que ela conhece a se manifestarem, ela continua pessimista.

O mesmo vale para Nancy Erika Smith, que representou Gretchen Carlson, a ex-âncora da Fox News, em sua ação por assédio sexual contra Ailes.

"Se eu acho que esse julgamento pode ajudar a fazer o debate avançar sobre a impunidade que homens poderosos e famosos sentem em suas interações com as mulheres? Gostaria de dizer que sim. Não melhorou desde Anita Hill, porque não temos poder".

Howard Bragman, um relações-públicas e gerenciador de crise que representou Cindra Ladd, que acusou Cosby dois anos atrás de drogá-la e estuprá-la quando ela tinha 21 anos em 1969, disse que as mulheres precisam estar preparadas para humilhações públicas, hoje amplificadas pelas mídias sociais. "Eu conto a elas sobre a dor e o sofrimento que elas enfrentarão", ele disse. "Vocês precisam ser corajosas. Tenham um sistema de apoio. Vocês precisam arrumar um advogado. Isso requer dinheiro".

Mas Laura Kipnis, autora de "Unwanted Advances: Sexual Paranoia Comes to Campus" (em tradução livre, "Investidas indesejadas: a paranoia sexual chega ao campus", inédito no Brasil), argumenta que também existe um risco de que as lições do caso Cosby possam ser exageradas. Cosby é acusado de abuso sexual; assédio sexual é algo que tem sido mais difícil de definir e, ela argumenta, aplicado de forma ampla demais em casos como um professor que leva uma aluna para tomar um drink.

"Qualquer um que tenha poder institucional é visto como potencial predador", ela disse. "Se você segue essa linha de pensamento de que todos os homens têm poder sobre as mulheres, vamos simplesmente nos livrar da heterossexualidade".

O critério de quem é visto como predador também pode ser estar ligado diretamente com a fama: ela pode ter ajudado a proteger Cosby durante anos, disse Harris, mas depois alimentou a obsessão do público com o caso. Parte da fama de Cosby foi construída sobre seu papel autoatribuído de guardião da respeitabilidade negra e uma bronca ocasional de outros negros, segundo ele. Isso o tornou mais vulnerável, e levou um comediante negro mais jovem a acusá-lo publicamente de hipocrisia, acrescentou.

Independentemente do veredicto, existe "toda uma outra narrativa cultural sobre em quem escolhemos acreditar e acreditar em mulheres", disse Harris. "Ninguém sai incólume disso".

Tradutor: UOL

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