Monges do Camboja vão às redes sociais para fazer campanha contra o governo

Julia Wallace

Em Phnom Penh (Camboja)

  • TANG CHHIN SOTHY/AFP

    Monge budista coloca sua cédula de voto na caixa, em Phnom Penh, no Camboja

    Monge budista coloca sua cédula de voto na caixa, em Phnom Penh, no Camboja

Trajando um manto laranja e falando calmamente em seu smartphone, o Venerável Luon Sovath atravessou sem grande esforço as multidões de pessoas reunidas do lado de fora da seção eleitoral 867 em Phnom Penh, a capital cambojana.

Ele pausou seu monólogo só para ajustar seu celular, falando durante horas para seus seguidores no Facebook sobre o que ele via e ouvia enquanto cambojanos iam no domingo até as urnas, para as eleições de representantes locais em todo o país.

"Em uma democracia, as pessoas são donas do país e têm a obrigação de vir votar", ele disse durante sua transmissão ao vivo pelo Facebook. Essa obrigação incluía a participação de monges budistas como ele. "Monges também são gente", ele acrescentou.

Luon Sovath, 37, é o mais proeminente membro de um grupo de monges que se tornaram jornalistas-cidadãos, monitorando acontecimentos políticos e condições de direitos humanos no Camboja nas mídias sociais. Seus esforços são parte de uma campanha cada vez maior de cambojanos que estão usando a internet para contornar o controle do governo sobre a grande mídia e a vida dos cidadãos.

O Facebook, aplicativos de notícias e memes políticos permitiram que os monges e a incipiente oposição política do país se conectassem diretamente com os cambojanos que têm pouco acesso à mídia independente.

"O Facebook transformou a comunicação e a política, porque todos nós ficamos sabendo de qualquer coisa que os políticos façam", disse Luon Sovath. "Seja bom ou ruim, podemos ficar sabendo pelo Facebook. Antes eles só mostravam as coisas boas na televisão. A violência contra o povo, os abusos sobre terras, os desmatamentos e a corrupção eles não mostravam na TV".

O governo do Partido do Povo do Camboja opera ou tem influência sobre todas as estações de televisão do país; o Partido Nacional de Resgate do Camboja, de oposição, passou anos tentando obter uma licença para operar seu próprio canal, sem sucesso.

Então aqueles como Luon Sovath, que queriam trazer maior transparência para o Camboja, buscaram formas baratas e acessíveis para se conectar com as pessoas, muitas delas em vilarejos pobres, fora das redes controladas pelo governo.

"O Partido do Povo do Camboja já tem muitas estações de televisão e instalações, então estamos ajudando as pessoas que não têm nada, que são pobres", disse Luon Sovath.

Quando um crítico do governo foi assassinado no ano passado, outro monge com um amplo séquito online, But Buntenh, rastreou o assassino e descobriu onde ele morava, dando a notícia pela internet antes que a polícia ou os jornalistas chegassem ao local.

No domingo, Buntenh postou atualizações no Twitter a partir de postos de votação e transmitiu resultados da eleição ao vivo pelo Facebook.

Os vídeos da eleição feitos pelos monges incluíam descrições de procedimentos de votação, entrevistas com eleitores e pedidos para que os cambojanos saíssem de casa e fossem votar. Em determinado ponto durante a transmissão, Luon Sovath foi expulso de uma seção eleitoral por policiais e ameaçado de processo. Milhares de pessoas viram o confronto pela internet, e manifestaram seu apoio ao monge postando emojis em sua transmissão ao vivo.

Eleições anteriores para representantes locais não geraram tanto interesse porque a máquina política do governo era tão dominante que os resultados já eram previamente determinados. Mas uma oposição recém-formada, o Partido Nacional de Resgate do Camboja, teve um bom desempenho nas eleições parlamentares nacionais de 2013, desencadeando ondas de protestos de rua. Embora a oposição tenha tido dificuldades desde então para se estabelecer politicamente, acredita-se que ela ainda tenha um apoio considerável entre os eleitores.

Meas Nee, um pesquisador politico no Camboja, disse que em viagens feitas recentemente a áreas rurais do país ele notou um aumento considerável na disposição de moradores para conversar e fazer piadas sobre política em público, o tipo de discurso aberto que no passado deixava muitas pessoas desconfortáveis.

"As pessoas estão ansiosas por mudanças", disse Nee, acrescentando depois que "as pessoas estão muito engajadas e não estão se sentido intimidadas".

Multidões fora do normal se reuniram na tarde de domingo em Phnom Penh para assistir à contagem de votos, e no final do dia o Comitê Nacional Eleitoral anunciou que a participação havia sido recorde, com 85,7% dos 7,8 milhões de eleitores registrados.

"As pessoas estão mais entusiasmadas, mais interessadas em observar o processo político, e elas quiseram testemunhar a eleição", disse Preap Kol, diretor-executivo da Transparência Internacional Camboja, uma organização anti-corrupção.

No final da noite de domingo, o Comitê Nacional Eleitoral emitiu um comunicado em rede nacional dizendo que somente parte dos resultados de 1.646 disputas locais haviam sido apurados, e que a contagem continuaria na segunda-feira.

Um veículo de mídia alinhado com o governo relatou que o Partido do Povo do Camboja, liderado pelo primeiro-ministro Hun Sen, havia conquistado 1.163 das administrações locais, enquanto o Partido Nacional de Resgate do Camboja ganhou o controle de 482, ou cerca de 30%, um salto em relação aos 3% anteriores. Uma porta-voz da oposição, Kem Monovithya, disse que o partido acreditava ter conquistado 520 administrações locais, e 46% do voto popular.

Os resultados oficiais devem ser anunciados no máximo até 25 de junho. Observadores estão acompanhando os resultados de perto como um indicador do que esperar nas eleições parlamentares nacionais programadas para o próximo ano.

Tradutor: UOL

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