Uma viagem por dentro dos trens antigos de Mianmar

Adam Dean

Em Yangon (Mianmar)

  • ADAM DEAN/NYT

    Passageiro observa a paisagem enquanto anda no trem em Yangon, em Mianmar

    Passageiro observa a paisagem enquanto anda no trem em Yangon, em Mianmar

Viajar no trem da linha circular de Yangon, com seu charme decrépito, é fazer uma viagem pela História. Construídos há mais de 60 anos para conectar subúrbios rurais e municípios com o centro comercial da cidade, seus trens —alguns quase tão antigos quanto a própria linha— transportam quase 100 mil pessoas por dia, em uma vagarosa volta de 45 km em torno da maior cidade de Mianmar.

Assim como em boa parte do país, que ainda está emergindo de décadas de isolamento sob domínio militar, a linha circular é uma parte do passado ativa, ainda que decadente. Mas a modernização está a caminho, e os trabalhadores que pegam o trem diariamente dizem que mal podem esperar.

Alguns dos trens foram importados da Hungria nos anos 1960. Os trens mais novos, do Japão, foram introduzidos em 2007, mas mesmo esses eram trens velhos e desativados. São raros os confortos nos vagões mais antigos; os assentos são duros, e muitos dos ventiladores parecem estar quebrados.

Os trens mais antigos andam sacolejando a uma velocidade que parece ser pouco maior do que a de uma pessoa correndo. Os passageiros às vezes sobem e descem do trem ainda em movimento.

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Vendedor de frutas atende passageiro em vagão de trem, em Yangon, em Mianmar

Minha viagem começa na Plataforma 7 da tumultuada Estação Central de Yangon, a maior ferroviária de Mianmar, construída pelos britânicos em 1877. Seguindo o sentido anti-horário, o trem se arrasta por entre extensos terminais e pátios de manutenção. Os trens nacionais, maiores, logo se dividem e saem em direção ao norte, e as seis linhas viram duas, servindo sozinhas a linha circular.

À medida que o trem sobe para o lado leste de Yangon, prédios manchados por mofo começam a ser substituídos por plantações. Os vagões vão gradualmente se esvaziando enquanto o trem contorna o setor norte da cidade, passando por campos abertos, um campo de golfe, uma base militar e cabanas de palha onde vivem os mais pobres de Yangon.

Os funcionários da ferrovia devem supostamente usar camisas brancas engomadas com dragonas da Myanmar Railways. Mas, em algumas das 38 estações do itinerário, como Danyingon, ao norte, é normal eles ficarem só de regata para se refrescarem nas abafadas bilheterias e salas de controle, que muitas vezes não têm um ventilador funcionando.

Enquanto desce rente à margem oeste da cidade, o trem passa pela Estação Insein e pela famosa prisão de mesmo nome, onde os regimes militares prendiam os dissidentes, inclusive os monges, após a chamada Revolução Açafrão em 2007. Ao se aproximar do centro o trem começa a encher novamente, com profissionais elegantemente vestidos de jeans e camisas passadas. Por fim, ele para na Estação Central de Yangon, completando o círculo, pouco menos de três horas após a partida.

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Pessoas aguardam o trem parar na estação Danyingon, em Mianmar


A somente 15 centavos (R$0,50) para fazer a volta inteira, o trem circular é acessível mesmo para os pobres —e durante muitos anos, poucos além deles o usavam, diz Moe Moe Lwin, diretora do Yangon Heritage Trust, ONG de conservação do patrimônio da cidade.

"A impressão que a população tem é de que ele é sujo, lento e pouco confiável", diz Moe Moe Lwin.

"Somente os mais pobres o usavam porque eles não tinham escolha, mas ele era muito irregular e ineficiente", ela diz. "As cidades satélites distantes só tinham a rede ferroviária para acessar a cidade, porque não eram servidas pelos ônibus".

"Ele era usado principalmente por feirantes que levavam suas mercadorias para o mercado, então os operários não o usavam porque era sujo demais e cheio de perecíveis", disse Moe Moe Lwin.

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Operador passa com o trem em área rural da região de Yangon, em Mianmar

Mas a situação mudou nos últimos anos, uma vez que o crescimento econômico e a negligência da infraestrutura resultaram em um congestionamento terrível nas ruas de Yangon. Cada vez mais trabalhadores passaram a ver a linha circular como uma alternativa prática a horas passadas dentro de um carro.

Um serviço de ônibus introduzido em janeiro se mostrou tão ineficiente que parece ter levado ainda mais pessoas a usarem o trem. O número diário de passageiros disparou de 75 mil para 95 mil desde então, diz Zaw Lwin, um gerente de tráfego da Myanmar Railways, que opera a linha circular.

Com suas instalações arcaicas e seu apelo autêntico, além de vagões lotados com ambulantes vendendo frutas e jornais, o trem se tornou uma atração para turistas em busca de uma experiência pitoresca. Mas os trabalhadores trocariam com prazer tudo isso por um serviço mais eficiente.

"Precisamos de mais trens, e de trens modernos", disse Khin Hnin Oo, um professor de 41 anos, enquanto ia para casa pela linha circular em direção a Mingaladon, norte da cidade. "Será bom para nós. Yangon tem carros demais, e os ônibus estão superlotados".

A Myanmar Railways está planejando grandes mudanças para a linha circular até 2020, financiadas em parte por um empréstimo de US$212 milhões (R$704 milhões) da agência de desenvolvimento do Japão. Todos os trens devem ser substituídos, juntamente com os trilhos antigos, e o sistema de sinalização manual por botões deve ser automatizado.

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Interior de vagão do trem que circula por Yangon, em Mianmar

Os trens rodariam com mais frequência, reduzindo substancialmente os tempos de espera nas estações, como na movimentada Danyingon.

Um grande mercado perto dessa estação acaba se extravasando para as plataformas e trilhos, onde locais vendem suas mangas, batatas, agriões e outros tipos de hortifrúti.

As autoridades esperam praticamente triplicar o número diário de passageiros que transitam pela linha, chegando a 263 mil. Htun Aung Thin, gerente-geral da Myanmar Railways, contou à mídia local que o novo serviço seria mais rápido, e os trens completariam o circuito em menos de duas horas.

Uma modernização acabaria com muitos dos charmes anacrônicos da linha circular. Isso poderia torná-la menos atraente para os estrangeiros que vão atrás de um pedacinho da antiga Yangon, ou Rangum, como costumava ser chamada.

Mas a maioria dos passageiros diários gostaria da troca.

"Atualizar o sistema de transporte público é a melhor solução para a cidade", diz Moe Moe Lwin.

Tradutor: UOL

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