Comitê de Watergate relembra queda de Nixon e descarta comparação com Trump

Emily Cochrane

Em Washington

  • AP - 1º.abr.1974

    O presidente norte-americano Richard Nixon (1969-74) com os relatórios do caso Watergate

    O presidente norte-americano Richard Nixon (1969-74) com os relatórios do caso Watergate

Sob as luzes cintilantes do salão de baile de um hotel cujo nome é sinônimo de escândalo político, eles se juntaram para um reencontro.

Eles chegaram ao Watergate em ternos de verão e vestidos elegantes, usando etiquetas de nomes com listras vermelhas, azuis e brancas para ajudar a desenterrar lembranças de 45 anos atrás dos meses que passaram na investigação de um episódio que um porta-voz da Casa Branca menosprezou, chamando de arrombamento de terceira categoria, mas que se estendeu ao Salão Oval e acabou derrubando o presidente Richard Nixon.

"Você não mudou nada", disse Elisabeth DeMarse, enquanto se levantava para dar um abraço em um homem fora do salão de baile, beijando suas mãos cerradas. "Que bom ver você".

Era um reencontro histórico, diziam os convidados uns aos outros, esse que foi realizado no último final de semana para comemorar o 45º aniversário da invasão de Watergate. Foi a maior reunião de que se tem lembrança dos membros restantes e da equipe do Comitê Seleto do Senado sobre Atividades da Campanha Presidencial—conhecidos em Washington mais sucintamente como o Comitê de Watergate—que se juntaram para ouvir um painel dos membros de mais alto escalão do comitê discutirem a investigação e compartilhar lembranças de seu trabalho.

"Acho que isso é uma espécie de intersecção entre uma reunião social e histórica entre pessoas, para conversar sobre uma época em que foi feito muito esforço para se chegar à verdade sobre o que aconteceu na campanha", disse Gordon Freedman, que organizou o evento junto com DeMarse. "Acho só que Watergate está no ar".

Al Drago/The New York Times
Fachada do hotel Watergate, local onde o encontro foi realizado

Mas durante uma discussão formal, veteranos da investigação do Senado sobre Watergate concordaram que nenhuma comparação deveria ser feita entre a investigação deles e o trabalho atual de um promotor especial do Departamento de Justiça e de diversos comitês de investigação no Congresso. As investigações atuais estão tentando descobrir se alguém associado à campanha de Trump esteve em conluio com a Rússia para moldar o resultado da eleição do ano passado—e também se alguém no governo atual, incluindo o presidente Donald Trump, pode ter tentado obstruir essa investigação.

Como disse Lowell P. Weicker Jr., um ex-senador republicano de Connecticut e último membro vivo da comissão especial de Watergate, "Comparar os dois é errado".

"Não sabemos o que é essa coisa do Trump", disse David Dorsen, que atuou como assistente do diretor jurídico do comitê de Watergate. "É cedo demais para saber".

"Todos os sinais estão aí, mas como minha mulher costuma dizer, não está cozido o suficiente", acrescentou Rufus L. Edmisten, que atuou como vice-diretor jurídico do comitê, cujo presidente era o senador Sam J. Ervin Jr. (Democrata-Carolina do Norte), e cujo líder da minoria republicana era o senador Howard H. Baker Jr. do Tennessee.

DeMarse, que ajudou a organizar reuniões anteriores, imaginou inicialmente uma festa simples. Mas com o incentivo de Freedman, a dupla se empenhou em localizar o maior número possível de ex-membros do comitê—e o evento acabou virando um acontecimento mais formal no hotel onde ocorreu a invasão, e inspirou um site que continuará ativo após a conclusão do reencontro, contendo fotos, depoimentos e uma cronologia de seu trabalho.

"Você olha para trás e vê que tudo continua vivo e relevante", disse DeMarse enquanto distribuía canetas com a frase "Roubei isto do hotel Watergate" e copinhos de shot estampados com as palavras iniciais da resolução que criou a comissão.

Um painel moderado por Lesley Stahl da CBS News debateu as motivações e os legados daqueles entrincheirados no Watergate—o juiz John J. Sirica, o assessor presidencial John W. Dean 3º e Nixon entre eles—e lamentou a perda do bipartidarismo que teria sido, segundo eles, tão crucial para o sucesso de sua investigação.

"Foi a primeira vez que alguém desafiou o presidente, até onde todos se lembram", Weicker contou à plateia. "Nós estabelecemos o fato de que o presidente não está acima da lei".

Muitos dos membros do comitê disseram que, independentemente de qualquer comparação com a política atual, o reencontro foi importante para eles assim mesmo.

"Eu me sinto privilegiado", disse David Erdman, que tinha 24 anos quando trabalhou como assistente de pesquisa para a comissão. "Sinto-me novamente como testemunha da História".

Erdman, 67, pregou uma cópia de sua identificação usada na comissão em um dos bolsos de seu terno, ao lado da etiqueta de nome para o encontro e do bóton desbotado escrito "Nixon Sabia", que ele comprou em 1973. Ele disse ter ficado surpreso por ser o único a ter trazido a identidade, uma das últimas lembranças de Watergate que lhe restaram.

"Essas histórias eram incríveis, e algumas delas eu nunca havia ouvido antes", disse sua mulher, Lynn.

Essa foi a primeira vez em 33 anos de casamento que ela pôde acompanhar seu marido em uma reunião do comitê.

"É fascinante", ela disse. "Simplesmente incrível".

Membros de outros painéis do Congresso ativos durante a era Watergate, incluindo Hillary Clinton, que foi membro do Comitê Judiciário da Câmara durante seu trabalho independente sobre o impeachment, não foram envolvidos nesse evento.

Depois que foram entregues os prêmios ao comitê e outros membros de alto escalão da comissão por seus serviços, o grupo desceu para a biblioteca, ainda trocando lembranças e cartões de visita para manterem contato. Enquanto tomavam coquetéis e comiam canapés, eles exclamavam ao verem como eram jovens e tinham cabelo em um slide-show de fotos recém-digitalizadas que Freedman encontrou em sua casa meses antes da reunião.

"Olha o papai ali; olha ele sorrindo", disse Rachel Dash, 61, apontando para uma foto de seu pai, Samuel Dash, que atuou como diretor jurídico do comitê. "Olha como ele era jovem".

Para Rachel Dash e sua irmã Judi, o evento foi uma oportunidade de representar seu pai, que morreu em 2004, e de se reconectar com as pessoas de quem elas se lembravam de suas idas ao Congresso para entregar marmitas de almoço e das conversas na hora do jantar.

Edmisten, o ex-vice-diretor jurídico, lembra-se da primeira reunião que ele recebeu, em celebração aos 10 anos, em seu gabinete, e de que estava lá para relembrar os 20º e 25º aniversários da invasão.

"Pretendo estar no 50º", ele disse enquanto deixava a sala.

Tradutor: UOL

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