Greve de estudantes transformada em ocupação já dura 17 anos no México

Na Cidade do México

  • Rodrigo Cruz/The New York Times

    O Auditório Justo Sierra, que está ocupado por manifestantes políticos desde 2000, na Universidade Nacional Autônoma do México, na Cidade do México

    O Auditório Justo Sierra, que está ocupado por manifestantes políticos desde 2000, na Universidade Nacional Autônoma do México, na Cidade do México

Os exames terminaram e, com a chegada do verão, as classes estão escuras na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), o orgulho do sistema educacional público do país.

Mas conforme os estudantes e professores se dissipam, um canto do campus principal da universidade permanece estranho e animado, onde quase nada mudará; amanhã será muito parecido com ontem, e o mês que vem com este.

Desde 2000, o Auditório Justo Sierra da universidade é dominado por manifestantes políticos, fazendo desta uma das mais antigas ocupações de um prédio universitário na história e colocando em segundo plano tomadas de universidades mais famosas.

A ocupação estudantil na Universidade Columbia em 1968, por exemplo, durou só uma semana, aproximadamente. Na Unam, a ocupação se estende por quase 17 anos e não dá sinais de esmorecer.

Não está muito claro quem exatamente ocupa o prédio e quantos membros compõem a força de ocupação. Isolados e voláteis, eles recusaram diversos pedidos de entrevista.

"Somos contra a mídia de massa", explicou um ocupante, que não quis dar seu nome, dizendo que é uma política da ocupação não dar entrevistas sem a autorização da "assembleia geral". Ele estava no que já foi o saguão do auditório, com as paredes hoje cobertas de adesivos, grafites, cartazes e pinturas rebeldes.

"Não quero ser assimilado pela mídia de massa", declarou.

Mas o que está absolutamente claro é que a administração da Unam, a maior universidade da América Latina, com mais de 230 mil estudantes, perdeu o controle do edifício há quase duas décadas.

E apesar da ampla impopularidade da ocupação no campus as autoridades universitárias parecem incapazes de, ou desinteressadas por, recuperar sua posse e devolvê-la ao uso geral da comunidade da Unam.

(Os ocupantes não são os únicos que falam pouco: o escritório de comunicações da universidade ignorou ou recusou vários pedidos de entrevistas e informações sobre o assunto.)

A ocupação começou depois de uma greve estudantil em 1999, que se estendeu por mais de nove meses. Os grevistas protestavam contra a tentativa da administração de aumentar as taxas de matrícula para alguns estudantes, ameaçando a antiga promessa da instituição de uma educação de qualidade quase gratuita.

O auditório havia sido durante anos um foco da vida política e cultural no campus, abrigando apresentações e conferências com importantes autores e intelectuais da América Latina e outros lugares. Desde o final dos anos 1960, o prédio é geralmente conhecido como Auditório Che Guevara.

"Este é o espaço de maior simbologia política que a universidade teve em toda a sua história", disse Imanol Ordorika Sacristán, diretor do escritório de avaliação institucional da Unam.

Enquanto estudou na universidade, Ordorika foi um destacado ativista, que ajudou a comandar uma greve em 1987 contra aumentos das taxas. Ele e seus camaradas usaram o auditório para assembleias e reuniões, assim como sucessivas gerações de estudantes ativistas.

Durante a greve de 1999-2000, os líderes do protesto transformaram o auditório em base de operações. Mas em setembro de 2000, meses após o fim da greve, alguns ativistas montaram residência lá, iniciando a longa ocupação.

Durante muitos anos a ocupação funcionou como um coletivo de vários grupos radicais, embora sua composição mudasse, às vezes de forma violenta.

Em 2013, por exemplo, anarquistas autoproclamados expulsaram outros grupos do edifício, segundo reportagens na mídia local. Três meses depois, porém, um bando de rivais invadiu o auditório e expulsou os anarquistas. Mais tarde, estes --armados com barras de metal, extintores de incêndio e paus cravados de pregos-- retomaram violentamente o controle do prédio.

A administração da universidade fez uma denúncia da violência e ordenou a "rendição imediata" do auditório, sem sucesso.

Rodrigo Cruz/The New York Times
Gabriel Ramos García, professor de filosofia e administrador na Escola de Filosofia e Literatura na Universidade Nacional Autônoma do México

O edifício é muito visível. Suas paredes externas hoje estão tatuadas com murais e grafites, envoltas por faixas cobertas de slogans pintados à mão que exigem a libertação de companheiros presos e incitam à revolução. "Queimem a cadeia", diz uma faixa.

Os ocupantes cultivaram uma horta no teto para fazer remédios herbóreos e têm uma lanchonete vegetariana, aberta ao público, que cobra menos de US$ 2 por uma refeição completa.

Uma faixa pendurada sobre a entrada principal dá um rótulo, embora opaco, ao que está acontecendo: "OkupaChe: Espaço de trabalho autônomo, autoadministrado".

A ocupação parece ser afiliada ao movimento internacional politizado de invasores, às vezes chamado de Okupa, que envolve a conversão de prédios abandonados em centros comunitários administrados por meio de decisões coletivas.

Embora ainda haja alguns estudantes envolvidos na ocupação da Unam, a maioria dos ocupantes aparentemente não está matriculada na universidade, segundo estudantes e professores.

Eles entram e saem do prédio durante o dia todo. Alguns parecem trabalhar em um mercado informal na frente; vendem camisetas, livros de segunda-mão, jornais caseiros e bijuterias, utensílios para fumar maconha e comida. Um sistema de som externo explode música punk hard-core.

Ambrosio Velasco Gómez, um ex-diretor da Escola de Filosofia e Literatura, adjacente ao auditório, disse que durante seus oito anos à frente do departamento tentou diversas vezes envolver os ocupantes em um diálogo que poderia levar ao fim da ocupação.

Ele nunca conseguiu calcular quantos ocupantes mantêm o controle do lugar. Em algumas visitas ele cruzou com seis a oito ocupantes, lembrou, e acrescentou: "Mas eles têm redes de pessoas e em poucos minutos podem ser 200".

O grupo afirma ter uma política de portas abertas, mas ela tem limites: um ocupante disse que todos são bem-vindos, exceto a mídia, representantes de partidos políticos e autoridades governamentais.

Os ocupantes também tentaram impedir que um fotógrafo de "The New York Times" tirasse fotos, mesmo do exterior, afirmando que isso comprometeria sua segurança.

Além do saguão e da lanchonete, o auditório em si está vazio; as cadeiras foram retiradas há muito tempo, ficando apenas terraços. Durante uma visita recente, todo o lugar parecia limpo e varrido.

Os ocupantes foram acusados de traficar drogas e conduzir outras operações criminosas no prédio, o que eles negam. Mas muitos na comunidade em geral dizem que a persistência da ocupação contribuiu para uma cultura de ilegalidade no campus.

"Em torno do auditório, criou-se uma espécie de zona de tolerância", disse Gabriel Ramos García, professor e administrador da Escola de Filosofia e Literatura. "Hoje qualquer pessoa pode vir e fazer o que quiser, com a desculpa de que está em território autônomo."

Nallely Pérez, 23, que termina seus estudos de graduação na Escola de Filosofia e Literatura, disse que os ocupantes mancharam a reputação do departamento. "Eles dão uma imagem ruim aos estudantes", disse. "Eles ocupam o espaço."

Ao longo dos anos, professores e estudantes organizaram abaixo-assinados, reuniões e protestos pedindo o fim da ocupação.

A administração da Unam parece ter se congelado em algum lugar entre o desejo declarado de recuperar a posse do auditório e a hesitação em chamar a polícia.

A ideia de pessoal da segurança do governo em campus de universidades públicas é heresia em toda a América Latina. Os professores e estudantes da Unam disseram que uma tentativa de recuperar o auditório à força provavelmente provocaria maior resistência e desordem social, deixando a negociação como único caminho amplamente aceito para uma solução.

A duração da ocupação, e a falta de um esforço visível da administração para resolvê-la, desanimou muitos membros da comunidade da Unam.

Ordorika pediu que a liderança da universidade tome medidas sobre o caso. "Façam política, pessoal do escritório do reitor!", disse ele. "Resolvam isso! Tirem-nos de lá!"

E acrescentou: "É o meu auditório!"

Um estudante, aliado da ocupação, elogiou os ocupantes por criarem o que ele chama de organização horizontal --sem hierarquia, sem líderes, sem partidos políticos.

Ele sugeriu que é pequena a probabilidade de que os ocupantes aceitem algum tipo de acordo com a Unam para pôr fim à ocupação. Se uma força externa começar a atacar o prédio, advertiu ele, os ocupantes têm um plano de defesa pronto. E afirmou que estaria lutando ao seu lado, até a morte se necessário.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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