Arte de fabricar iglus está desaparecendo no Ártico

Craig S. Smith

Em Kangiqsujuaq (Quebec)

  • AARON VINCENT ELKAIM/NYT

    Iglu construído por Tiisi Qisiiq, em Kangiqsujuaq, no Quebec

    Iglu construído por Tiisi Qisiiq, em Kangiqsujuaq, no Quebec

Adami Sakiagak, com a língua para fora da boca de tanto esforço concentrado, apara as bordas de um bloco de neve acima de sua cabeça. Cristais de gelo caem ao seu redor enquanto o bloco se assenta em seu lugar, a peça final de um iglu, a estrutura arquitetônica tão característica do Ártico.

Os pais de Sakiagak nasceram em iglus e ele aprendeu a construir os domos de neve com seu pai quando criança, em plena tundra. Hoje, Sakiagak, um inuíte de 57 anos de idade, os constrói para ensinar aos mais jovens essa arte em processo de extinção.

"Teve uma época em que as pessoas não tinham acampamentos", ele diz, referindo-se aos abrigos que hoje se espalham por áreas tradicionais de caça e pesca. "E qualquer pessoa que saísse a campo, geralmente construía um iglu".

Os investimentos canadenses no Ártico eram insignificantes até a Guerra Fria, quando a região tinha uma série de bases militares para fazer a guarda contra ataques soviéticos. Já quase no final dos anos 1950, os inuítes continuavam com suas tradições, vivendo da terra. Mesmo hoje, muitos inuítes dependem da caça e da pesca para sobreviver.

Kangiqsujuaq é um típico vilarejo do norte. Suas construções simples e quadradas se apoiam sobre palafitas para evitar que o permafrost abaixo derreta. As estradas são de cascalho, mas ficam cobertas de neve na maior parte do ano, sendo atravessadas por picapes com tração nas quatro rodas e quadriciclos, além das onipresentes motoneves.

AARON VINCENT ELKAIM/NYT
Adami Sakiagak mostra como construir um iglu, em Kangiqsujuaq, em Quebec

Morros de granito se elevam em torno de todo o vilarejo, que fica de frente para uma imensa baía congelada. Tirando os penhascos rochosos e os prédios quadrados, a maior parte de tudo é só branco durante o longo inverno. Em noites sem nuvens, o céu negro aveludado se enche de estrelas e guirlandas esverdeadas das luzes fantasmagóricas da Aurora Boreal.

Sakiagak se dispôs no final deste inverno a demonstrar como construir um iglu. Ele começa procurando neve que esteja sólida, mas não densa demais, e encontrada onde o vento tenha soprado por toda a paisagem estéril, interligando finos cristais de gelo em uma camada compacta com vários metros de grossura.

Ele desce de sua motoneve para testar diversos pontos, enfiando um serrote na neve. Ele se decide por um leve declive de neve branca e sólida sobre a Baía de Wakeham, onde um trenó conduzido por cães passa ao longe atravessando a vastidão plana. O céu, alvejado pelo Sol vespertino, é azul ciano no horizonte, escurecendo para um tom índigo no zênite.

Sakiagak se põe a trabalhar, desenhando um círculo na neve para marcar o perímetro do iglu. Um amigo, Tiisi Qisiiq, começa a cortar blocos de neve com um serrote de carpinteiro. As serras substituíram as facas de presa de morsa que os inuítes usavam para construir iglus na geração passada.

Sakiagak forma um círculo com blocos no chão e apara os primeiros para formar uma rampa, de forma que ele possa construir em uma espiral contínua. Desse jeito, ele terá somente um bloco de ponta com que se preocupar enquanto o iglu vai sendo levantado ao seu redor. Os blocos são tão firmes quanto isopor, mas mais pesados.

Ele chanfra a borda de cima dos blocos para dentro de forma que na altura da terceira ou quarta fileira ele os posiciona a 45 graus em relação ao chão. Agora, com o bloco do topo encaixado, Sakiagak está de fato sepultado.

AARON VINCENT ELKAIM/NYT
Iglus construídos em Kangiqsujuaq, no Quebec

Martin Frobisher, o explorador inglês do século 16, pode ter sido o primeiro europeu a ver um iglu quando ele passou por ali durante sua busca fracassada pela Passagem do Noroeste. Desde então, muitas pessoas se maravilharam com a engenhosidade do design, que incorpora princípios da física e da termodinâmica para criar o melhor abrigo possível no frio do norte.

Os engenheiros dizem que os inuítes, através de tentativa e erro, inventaram um design baseado em uma parábola, e não em um semicírculo, eliminando as forças que fariam um verdadeiro hemisfério inchar e tombar. A neve é um excelente isolante, por prender o ar entre os flocos de neve, enquanto o branco reflete a luz e o calor, de forma que a maior parte do calor gerado dentro de um iglu permanece ali dentro.

Os blocos usados na fabricação do iglu são cortados do lado de fora na frente, deixando uma calha que serve de entrada. Sakiagak passa a cavar o interior do iglu, deixando uma plataforma no nível original da superfície enquanto escava o resto. Ele empurra o excesso de neve para fora pela calha através de um buraco que ele havia aberto. Quando termina, até uma pessoa alta consegue ficar confortavelmente em pé do lado de dentro.

O ar mais frio para na porta perto do chão, que fica abaixo da superfície da neve do lado de fora. O ar mais quente, é claro, sobe de forma que a temperatura em torno da plataforma onde se dorme, embora ainda seja fria, fique bem acima do nível de congelamento e consiga alcançar 4º C ou mais, enquanto do lado de fora faz -30º C.

Sakiagak abre um duto de ventilação perto do cume, arrastando-se para fora para esculpir uma estilosa chaminé de neve. Ele explica que antigamente ele cortaria um buraco para a janela, encaixando um bloco de 60 cm de gelo na moldura, para iluminar o lado de dentro durante o dia. Ele e Qisiiq começam a preencher os vãos entre os blocos com fatias de neve.

"Hoje em dia é por sobrevivência", ele diz. "Quando você sai a campo sem suas coisas e sua máquina quebra e você não consegue chegar até sua cabana, você pode construir um iglu".

Ele diz que somente cerca de meia dúzia de pessoas em Kangiqsujuaq, um vilarejo com mais de 800 habitantes, são capazes de construir casas de neve hoje em dia. "Os que costumavam construir iglus estão velhos demais", diz Sakiagak.

Com o iglu pronto, ele puxa seu equipamento para dentro e acende um fogareiro Coleman para ferver água para o chá. Ele e Qisiiq se sentam, fumam e comem salvelino, um primo ártico do salmão, tirando lascas do peixe congelado com uma machadinha e comendo-o cru.

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