Enquanto Uber tropeça, Lyft vê uma abertura, mas segura a língua

Kevin Rose

  • Jim Wilson/The New York Times

    5.ago.2017 - Funcionário na sede do Lyft, em San Francisco

    5.ago.2017 - Funcionário na sede do Lyft, em San Francisco

John Zimmer, cofundador e presidente da Lyft, quer que você saiba que ele não está (repito, não está) feliz com o caos envolvendo a Uber, sua maior rival no mercado de transporte compartilhado. Não haverá estouro de champanhe na sede da Lyft em San Francisco pela queda repentina e surpreendente de Travis Kalanick, o truculento ex-presidente-executivo da Uber, nem comemoração com a série de eventos escandalosos que desmoralizou o pessoal da Uber, seu quadro de executivos e manchou sua reputação.

"Não há nada para celebrar nessa situação", disse-me Zimmer em uma entrevista por telefone na segunda-feira, seus primeiros comentários públicos desde a renúncia de Kalanick na semana passada. "Mas realça a importância dos valores e da ética."

Outro executivo poderia se ver tentado a dar a volta da vitória em um momento como este, mas Zimmer, um dos empreendedores mais zelosos e moderados do Vale do Silício, deseja permanecer acima da confusão. Na verdade, seu não desejo de ficar batendo nos problemas da Uber o faz até mesmo não citar nominalmente a empresa, a qual se refere como "nossa concorrente".

A recusa pela Lyft em não explorar publicamente os infortúnios da Concorrente-cujo-nome-não-deve-ser-mencionado é uma manobra inteligente por parte de uma empresa que passou anos se posicionando como uma alternativa mais amistosa e descontraída ao caráter corporativo agressivo da Uber.

A Lyft começou a cultivar uma reputação de gentileza anos atrás, quando começou a colocar peculiares bigodes cor-de-rosa nos seus carros e a encorajar os motoristas a cumprimentarem seus passageiros com o punho, prosseguindo com um marketing bem-humorado e ênfase em políticas boas para os motoristas.

A grande aposta da empresa é de que os clientes não querem apenas uma viagem barata; eles querem uma experiência, e diante da escolha entre duas empresas de transporte compartilhado oferecendo serviços semelhantes a preços semelhantes, elas optariam por aquela com aparência de ser mais virtuosa.

"Por algum tempo as pessoas diziam: 'Oh, eles são os caras legais, não vão construir o negócio certo porque há alguém mais agressivo'", disse Zimmer.

A estratégia de cara legal da Lyft provou ser uma das apostas mais prescientes do mundo da tecnologia, enquanto a Uber se via envolta em uma série impressionante de ferimentos autoinfligidos. Apenas para citar alguns: em janeiro, o hashtag #DeleteUber se espalhou após a Uber ter sido acusada de minar a greve dos taxistas de Nova York durante um protesto contra a proibição de entrada no país proposta pelo presidente Donald Trump, levando mais de 200 mil usuários a apagarem suas contas.

Em fevereiro, uma ex-engenheira da Uber, Susan Fowler, publicou um ensaio no qual descreveu a atmosfera de sexismo e má gestão na empresa, provocando uma crise de relações públicas e uma investigação interna. E em março, o "New York Times" noticiou um programa da Uber que visava contornar os reguladores nos mercados em que operava. (O programa, de codinome Greyball, é alvo de uma investigação federal.)

Stephen Yang/The New York Times
John Zimmer, co-fundador e presidente do Lyft, em evento em Nova York


Enquanto os problemas da Uber se multiplicavam, a Lyft permaneceu em silêncio, preferindo deixar as ações da Uber acentuar as diferenças entre as duas empresas.

"A ideia geral que temos a respeito disso é, vamos continuar fazendo o que estamos fazendo e nos focar em quem somos", disse Zimmer. "Quanto muito, vamos canalizar nossa energia em mais e mais produtividade."

Neste mês, Zimmer e Logan Green, o presidente-executivo da Lyft, escreveram um e-mail interno aos funcionários da Lyft, os lembrando a seguirem pelo caminho mais ético.

"Apesar de nos orgulharmos dos valores e ações que sempre nos distinguiram, este não é um momento de nos vangloriarmos, particularmente quando muitos dos eventos estão enraizados na dor pessoal de vários indivíduos", eles escreveram.

Mas a Lyft, que é capaz de jogar duro apesar de sua imagem amistosa, claramente sente uma abertura. A empresa diz que realizou mais de 70 milhões de viagens no primeiro trimestre deste ano, 142% a mais que no mesmo período no ano passado.

Em abril, a empresa encerrou uma rodada de levantamento de fundos de US$ 600 milhões, e de lá para cá formou importantes parcerias com empresas como a Jaguar Land Rover e Waymo.

No Vale do Silício, onde o momento e as fortunas podem mudar da noite para o dia, pessoas que antes consideravam a vitória da Uber uma coisa certa passaram a garantir suas apostas.

"O interesse em investimento com certeza aumentou nas últimas semanas", disse Zimmer.

Mesmo em um setor cheio de rivalidades, a batalha entre a Uber e a Lyft se destaca por sua ferocidade. Nos primórdios da Uber, Kalanick acusou a Lyft de operar sem apólices de seguro apropriadas e de roubar funções do aplicativo da Uber. (Em uma discussão memorável pelo Twitter, Kalanick disse a Zimmer: "Você tem muito atraso a tirar" e o chamou de "#clone".)

Nos anos que se seguiram, enquanto investidores injetavam bilhões de dólares no setor de transporte compartilhado, a Uber e a Lyft respondiam caçando os motoristas uma da outra, minando os preços uma da outra e usando táticas impiedosas para ficar à frente.

Zimmer claramente não esqueceu os insultos. Ao ser perguntado se estava surpreso em ver a queda de Kalanick, ele ficou em silêncio. A pausa demorou muito (mais, ao que parece, que a maioria dos carros da Lyft leva para chegar) até ele finalmente responder.

"O fato de valores importarem e ética importar não me surpreende", ele disse. "Para mim, isso é óbvio."

Mas nem todos os esforços de marketing positivo do Lyft deram resultado. Durante uma recente entrevista, Zimmer foi ridicularizado ao descrever a comunidade da Lyft como "desperta", um termo aplicado com mais frequência a campanhas de justiça social do que a empresas multibilionárias. (Ele reconhece que foi uma "escolha ruim de palavras".)

E uma campanha publicitária no ano passado que ridicularizava uma empresa imaginária semelhante à Uber, chamada Ride Corp., pareceu minar a postura magnânima da empresa.

A campanha foi retirada, disse Zimmer, e novos esforços de marketing se concentrarão em acentuar os pontos fortes da Lyft em vez de zombar dos pontos fracos da Uber.

Mas para cada erro, ocorreram várias vitórias claras. Em janeiro, enquanto a Uber cambaleava devido à controvérsia #DeleteUber e à revolta com a decisão de Kalanick de participar do conselho consultivo empresarial da Casa Branca, a Lyft anunciou a doação de US$ 1 milhão à União Americana pelas Liberdades Civis para combater a proposta de Trump de proibição de entrada no país, algo muito apreciado por muitos críticos da Uber.

E neste mês, quando a Uber apresentou uma função de gorjeta ao motorista no seu aplicativo, a Lyft apontou que já oferece isso desde 2012.

Mas não se engane: a Lyft ainda está correndo atrás. A Uber, que opera em cerca de 600 cidades ao redor do mundo e conta com mais de 2 milhões de motoristas em sua plataforma, é o gorila de 360 kg do mercado de transporte compartilhado.

Os investidores avaliam a Uber em quase US$ 70 bilhões, cerca de 10 vezes mais que a recente avaliação da Lyft, e segundo a TXN Solutions, uma empresa que estima as vendas com base nos dados de cartões de crédito, a Uber é responsável por cerca de 75% do mercado de transporte compartilhado dos Estados Unidos, com a Lyft e outras empresas menores ficando com cerca de 25%. (A Lyft contesta esses números e diz que sua fatia de mercado está mais próxima de 30%.)

Mesmo assim, histórias de recuperação às vezes levam tempo para se desenrolar e os problemas da Uber podem estar longe de terminados.

Na semana passada, enquanto estourava a notícia da renúncia de Kalanick, Zimmer estava em seu escritório, trabalhando até tarde. Ele e Green absorveram o choque juntos, então compartilharam uma volta para casa tranquila. Os cofundadores entenderam que se tratava de um desdobramento que mudava tudo e nada ao mesmo tempo, validando anos de luta e simultaneamente cristalizando as enormes batalhas à frente. No mínimo, era um sinal de que talvez, desta vez, os caras legais venceriam.

"Muita gente pergunta: 'Este é o momento?'" disse Zimmer. "Venho dizendo há algum tempo que venceremos."
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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