Príncipe saudita deposto estaria confinado em palácio

Ben Hubbard, de Beirute (Líbano), Eric Schmitt e Mark Mazzetti, de Washington (EUA)

  • Ahmed Jadallah/Reuters

     Em foto de arquivo, o príncipe saudita Mohammed Bin Nayef em Meca

    Em foto de arquivo, o príncipe saudita Mohammed Bin Nayef em Meca

O recém-deposto príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Nayef, foi impedido de deixar o reino e confinado em seu palácio na cidade costeira de Jidda, segundo autoridades dos EUA e súditos sauditas ligados à família real.

As novas restrições ao homem que até a semana passada era o primeiro na linha de sucessão ao trono e chefiava os poderosos serviços de segurança interna do reino visam garantir uma transição suave para o novo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, 31, segundo as autoridades americanas, que falaram sob a condição do anonimato para não prejudicar as relações com a família real saudita.

Não ficou claro por quanto tempo as restrições serão aplicadas. Um assessor da corte saudita encaminhou as perguntas ao Ministério da Informação, cujas autoridades não foram alcançadas para comentar na última quarta-feira (28).

O monarca saudita, rei Salman, abalou a linha sucessória na semana passada com uma série de decretos que promoveram a príncipe herdeiro seu filho favorito, Mohammed bin Salman, e removeram da linha sucessória Mohammed bin Nayef, 57.

O príncipe mais velho também foi substituído como ministro do Interior, por um sobrinho de 33 anos, o que marca o fim de uma carreira que lhe granjeou grande respeito em Washington e em outras capitais estrangeiras. Ele trabalhou para desmontar as redes da Al Qaeda na Arábia Saudita, depois de uma série de atentados mortais há uma década.

Apoiadores de Mohammed bin Salman, que é citado como MBS, comemoraram sua promoção, dizendo que ela empoderou um príncipe jovem e ambicioso, que tem uma visão positiva do futuro do reino.

Mas sua elevação efetivamente pôs fim às perspectivas de muitos príncipes mais velhos, alguns dos quais o consideram impulsivo, faminto por poder e inexperiente. Bin Salman também se tornou o ministro da Defesa do país, encarregado da dispendiosa intervenção militar saudita contra os rebeldes houthis no vizinho Iêmen.

A mídia estatal saudita se extremou para retratar uma transição suave, transmitindo repetidamente um vídeo que mostra Mohammed bin Salman beijando com respeito a mão de Mohammed bin Nayef, citado como MBN, que o cumprimenta.

Mas as restrições impostas ao príncipe mais velho sugerem o medo de que alguns membros da extensa família real fiquem contrariados com a mudança e que as aparições públicas dele possam exacerbar esses sentimentos.

"É um indício de que MBS não quer nenhuma oposição", disse uma autoridade graduada dos EUA. "Ele não quer ações na retaguarda da família. Quer uma elevação simples, sem qualquer dissidência --não que MBN estivesse planejando alguma coisa."

Essa pessoa disse que o governo dos EUA está em contato com o Ministério do Interior saudita, mas que autoridades americanas não tiveram contato formal com Mohammed bin Nayef e estão monitorando a situação de perto.

"MBN foi um grande amigo e parceiro dos EUA, não queremos que ele seja tratado de forma deselegante ou indecorosa", disse a autoridade dos EUA.

Reuters
Em foto de arquivo, os príncipes sauditas Mohammad bin Salman (à direita) e Mohammed bin Nayef

Desde a remoção de MBN da linha sucessória, várias autoridades experientes de contraterrorismo e inteligência dos EUA que tiveram forte relacionamento com ele manifestaram em particular indignação por seu tratamento.

Mas não quiseram falar em público diante do apoio do rei Salman e de seu filho ao presidente Donald Trump e outros assessores, inclusive Jared Kushner, o genro do presidente.

Mohammed bin Salman jantou com Trump na Casa Branca em março. Isso abriu caminho para a visita de Trump à Arábia Saudita, a primeira viagem ao exterior de sua presidência, onde ele declarou que os sauditas são aliados chaves no combate ao terrorismo e ao extremismo.

Também foram impostas restrições às filhas de MBN, segundo uma ex- autoridade americana que mantém relações com a família real. Uma filha casada foi informada de que seu marido e filho poderiam sair de casa, mas ela não, disse a ex-autoridade.

Um saudita próximo à família real disse que novas restrições foram impostas quase imediatamente após a promoção de Mohammed bin Salman.

Depois do anúncio formal, MBN voltou a seu palácio em Jidda e soube que seus guardas tinham sido substituídos por outros leais a MBS, segundo o saudita e uma ex-autoridade dos EUA. Desde então, ele foi impedido de deixar o palácio.

Outra ex-autoridade americana com ligações estreitas com a família real confirmou que MBN foi impedido de deixar o reino, mas disse que não soube que estivesse confinado no palácio.

A promoção de MBS na semana passada se seguiu à sua meteórica ascensão da quase obscuridade desde que seu pai subiu ao trono, no início de 2015, até a cúpula do poder saudita.

Desde então, ele foi encarregado do Ministério da Defesa, recebeu a supervisão do monopólio estatal do petróleo e liderou o desenvolvimento de um plano chamado Visão Saudita 2030, que busca reduzir a dependência do reino do petróleo, diversificar a economia e afrouxar algumas restrições sociais.

Sua ascensão custou a queda de MBN, que mantinha um perfil discreto enquanto desenvolvia fortes relações com vários governos e autoridades de inteligência dos EUA.

Durante a ascensão de MBS, as autoridades americanas lutaram para formar relações com os dois príncipes, enquanto tentavam não ser usadas como alavanca em qualquer rivalidade entre eles.

A elevação de Mohammed bin Salman foi acompanhada da de vários outros jovens príncipes. Um de seus irmãos, Khalid bin Salman, foi nomeado recentemente embaixador em Washington.

Acredita-se que ele tenha menos de 30 anos.

Mohammed bin Nayef foi substituído como ministro do Interior por um sobrinho, Abdulaziz bin Saud bin Nayef, que não tem clara experiência em questões de direito ou inteligência.

Em um arranjo único em um país tradicionalmente pautado pelo respeito aos mais velhos, ele é o filho de Saud bin Nayef, governador da Província Oriental, o que faz do jovem príncipe o chefe de seu pai.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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