Disputa pela liberdade religiosa nas escolas testa o multiculturalismo do Canadá

Dan Levin

Em Mississauga (Ontário)

  • IAN WILLMS/NYT

    Aamna Siddiqui (na esq.) e Farina Siddiqui trabalham na organização que reúne muçulmanos e não muçulmanos em Brampton, em Ontário

    Aamna Siddiqui (na esq.) e Farina Siddiqui trabalham na organização que reúne muçulmanos e não muçulmanos em Brampton, em Ontário

A confusão começou com os sermões.

Por quase duas décadas, alunos muçulmanos do Distrito Escolar de Peel, subúrbio de Toronto, tiveram a permissão de rezar de forma independente às sextas-feiras, parte de uma política de adaptação a crenças religiosas em escolas públicas de muitas províncias canadenses.

No outono passado, o conselho diretor das escolas decidiu padronizar as sessões de orações, oferecendo seis sermões pré-aprovados que as crianças poderiam recitar, em vez de deixá-las usarem os seus próprios.

Os alunos muçulmanos protestaram, dizendo que a iniciativa violava seu direito à liberdade de expressão, e o conselho diretor voltou atrás, permitindo que as crianças escrevessem seus próprios sermões.

Mas a controvérsia desencadeou uma onda de protestos que continuou por toda a primavera canadense.

Manifestantes têm feito piquetes em reuniões do conselho diretor, discussões estão surgindo nas mídias sociais sobre se acomodações a religiões equivalem a um tratamento especial, e há em andamento uma campanha de abaixo-assinados para abolir as preces em escolas públicas. Em abril, um imame local que apoiava o conselho diretor recebeu uma ameaça de morte. A polícia local passou a fazer a proteção das reuniões do conselho diretor das escolas.

IAN WILLMS/NYT
Muçulmano mostra como rezar, em mesquita de Brampton, em Ontário

A confusão é um dos reflexos de como a crescente diversidade do Canadá vem se deparando com fortes ventos contrários, especialmente em lugares com populações muçulmanas significativas.

"Embora tenhamos uma política de multiculturalismo, para a maioria dos canadenses existe uma expectativa de que os muçulmanos se adaptem aos costumes predominantes", disse Jeffrey Reitz, diretor do programa de Estudos Étnicos, de Imigração e Pluralismo na Universidade de Toronto. "Acomodações religiosas foram feitas a diversos grupos, e de vez em quando há antagonismos".

Os problemas nas escolas de Peel são um tipo particular de conflito em uma sociedade diversa, dizem os cientistas sociais, que envolve imigrantes e minorias que desafiam aspectos do estimado multiculturalismo do Canadá.

Em 2015, habitantes socialmente conservadores de distritos escolares de Ontário, alguns deles muçulmanos, se opuseram à atualização do conteúdo de uma disciplina de educação sexual porque ele ensinava os nomes dos órgãos sexuais e abordava o tema das relações entre pessoas de mesmo sexo.

Desde 2013, alguns pais muçulmanos na região metropolitana de Toronto vêm pedindo às escolas que dispensem seus filhos de aulas obrigatórias de música da província, citando sua crença de que o islã proíbe que se escutem ou toquem instrumentos musicais.

IAN WILLMS/NYT
Livros do Alcorão, em mesquita de Mississauga, em Ontário

Assim como seu vizinho ao sul, o Canadá é um país de imigrantes, o que ajuda a alimentar um éthos nacional que celebra a diversidade. Mais de 20% da população canadense em 2011 era nascida no exterior, um número que deve chegar a quase 30% até 2031, de acordo com estimativas do governo. Em cidades como Toronto e Vancouver, a proporção de minorias étnicas pode chegar a 60%.

As mudanças demográficas têm sido especialmente pronunciadas na área metropolitana de Toronto, uma mistura de cidades e subúrbios que fervilha com uma variedade de línguas e crenças.

Conselhos diretores de escolas como o do distrito de Peel estão na vanguarda das disputas em torno do multiculturalismo. O distrito está entre os mais diversificados do país, com quase 60% de todos os residentes descritos como uma "minoria visível", ou não-branca, de acordo com o censo de 2011.

Ele inclui grandes números de chineses, filipinos e negros, mas quase metade é categorizada como sul-asiática, um grupo que inclui sikhs, hindus e muçulmanos. O distrito de Peel abriga cerca de 12% da população muçulmana do Canadá.

Ao permitir as preces em suas escolas, o distrito de Peel se baseou em uma cláusula do Código de Direitos Humanos de Ontário que a Comissão de Direitos Humanos de Ontário interpretou como uma exigência de que escolas financiadas pelo governo—tanto públicas quanto católicas—"atendam" a alunos na observância de suas crenças pessoais.

Outras províncias do Canadá têm políticas similares.

Para Farina Siddiqui, 43, uma ativista muçulmana cujos filhos frequentam escolas públicas e católicas no distrito de Peel, permitir que alunos rezem uma vez por semana na escola é uma questão de liberdade religiosa.

"Não estamos pedindo para que as escolas forneçam um salão de preces para que todos pratiquem uma religião", ela disse. "Só estamos pedindo pelo direito de ter um espaço para rezar". Ela apoiou a permissão para que as crianças escrevessem seus próprios sermões.

Tarun Aroroa, 40, que trabalha para um call-center terceirizado e imigrou da Índia para o Canadá em 2003, disse que os conselhos diretores das escolas não deveriam endossar sermões ou permitir preces nas escolas públicas de seus filhos. Ele quer que as escolas sejam completamente laicas.

"Eu mando meus filhos para a escola pela educação, mas as escolas estão sendo tratadas como lugares religiosos, e isso não é certo", disse Arora.

Ele é membro da Keep Religion Out of Our Public Schools (Mantenha a religião fora de nossas escolas públicas), também conhecida como Kroops, um grupo que se formou em janeiro quando o conselho decidiu permitir que as crianças escrevessem seus próprios sermões.

O grupo protestou recentemente do lado de fora de reuniões do conselho diretor das escolas e diz que pretende entrar com uma ação questionando a política que permite as preces nas escolas de Peel, argumentando que a lei não permite isso explicitamente.

Outro grupo com um nome parecido, Religion Out of Public Schools (Religião fora das escolas públicas), começou um abaixo-assinado online para acabar com congregações e clubes religiosos em escolas canadenses. Ele reuniu mais de 6.500 assinaturas de pessoas de todo o Canadá e dos Estados Unidos.

Muitos dos comentários na petição criticam especificamente o islamismo. Mas em entrevistas, três membros do grupo, todos eles indiano-canadenses, dizem que são contrários à prática de qualquer religião em escolas públicas, não somente do islamismo.

Renu Mandhane, comissária-chefe da Comissão de Direitos Humanos, que é encarregada de interpretar o código de Ontário, disse que as escolas tinham o dever de acomodar crenças religiosas.

"Acomodar não equivale a endossar ou se envolver com práticas religiosas", disse Mandhane. "Nunca dissemos que isso requeria um espaço para preces na escola. Mas requer que precisemos nos adaptar razoavelmente às crenças de uma pessoa".

Em uma entrevista, ela contestou o argumento apresentado por muitos manifestantes de que a política beneficiava somente os muçulmanos. Ela observou que os judeus e os cristãos são atendidos porque seus dias mais importantes de culto caem nos finais de semana, quando as escolas estão fechadas.

"De muitas maneiras, o que estamos vendo em Peel é o limite onde os direitos humanos e a hiperdiversidade se conectam", continuou Mandhane. "O que Peel mostra é que mesmo em lugares com enorme diversidade racial, você pode ter pessoas que se identificam com diferentes comunidades, mas que discordam a respeito de questões de direitos humanos".

Para o conselho diretor das escolas de Peel e muitos muçulmanos do distrito, a briga em torno da acomodação religiosa é um pouco mais do que islamofobia.

Em reuniões do conselho, manifestantes gritaram xingamentos anti-muçulmanos, enquanto ataques contra muçulmanos que se pronunciam publicamente se disseminaram pelas redes sociais, levando à necessidade de se manter policiais nas reuniões e do lado de fora das escolas. O imame que recebeu a ameaça de morte também recebeu uma mensagem pela internet dizendo que sua mesquita deveria ser queimada.

Durante uma reunião bastante tensa do conselho diretor, um homem rasgou páginas do Alcorão, surpreendendo uma comunidade que durante muito tempo se orgulhou de sua tradição de tolerância.

"Essas são pessoas que estão tentando colocar lenha na fogueira e insuflar nossas ignorâncias", disse Rabia Khedr, diretora-executiva do Conselho Muçulmano de Peel, que pressionou o conselho diretor em apoio ao direito dos estudantes de rezarem. "A acomodação religiosa não está na exclusão de todos. Está na inclusão de todos".

Anver Saloojee, um professor de ciências políticas da Universidade de Ryerson, em Toronto, tem outra explicação. Ele observa que muitos daqueles que se pronunciam contra a política de acomodação religiosa são membros da diáspora indiana, inclusive alguns nacionalistas hindus, sugerindo que de certa forma a briga no Canadá espelha o histórico conflito entre hindus e muçulmanos no sul da Ásia.

Mas os grupos que são contra a acomodação, que incluem pessoas de várias raças e religiões diferentes, negam isso. Membros indiano-canadenses dos grupos dizem que sua preocupação não tem nada a ver com um país que eles deixaram anos atrás, e em alguns casos, décadas atrás.

"Minha religião é canadense; é isso que me dá forças para lutar agora", disse Ram Subrahmanian, um dos fundadores da Keep Religion Out of Our Public Schools.

Shaila Kibria-Carter, 42, uma gestora de finanças de ascendência bengali, nasceu e foi criada no Canadá, e vive na cidade próxima de Brampton. Ela disse que quando era aluna do distrito de Peel nos anos 1990, ela rezava na escola às sextas-feiras. Seu filho, hoje já formado, também. Nunca houve nenhuma confusão ou reclamação na escola, segundo ela.

"O que essas pessoas estão fazendo é pregar o ódio", ela disse. "Nós vivemos em harmonia com sikhs, hindus e brancos nossa vida inteira, e agora do nada você vê gente rasgando o Alcorão em reuniões".

Tradutor: UOL

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