Casal de jogadoras de futebol relata preconceito até vida em "oásis" na Islândia

Raúl Vilchis

Em Akureyri (Islândia)

  • ANDREW TESTA/NYT

    Bianca Sierra, na direita, e Stephany Mayor são namoradas e jogam pelo time de Thor-KA, na Islândia

    Bianca Sierra, na direita, e Stephany Mayor são namoradas e jogam pelo time de Thor-KA, na Islândia

Da janela da cozinha de seu pequeno chalé, Bianca Sierra e Stephany Mayor podem ver o estádio de futebol onde treinam todos os dias. Mayor diz que está vivendo um sonho aqui, jogando futebol na primeira divisão da Islândia e morando tão perto do campo.

"É como estar em La Masia", disse ela, lembrando a famosa sede do Barcelona, que fica à sombra do estádio do time, o Camp Nou.

Mas Mayor e Sierra tinham outro sonho quando se mudaram para esta cidade pesqueira isolada, na entrada de um fiorde: simplesmente queriam jogar no mesmo time enquanto viviam abertamente como um casal.

Mayor, uma atacante, e Sierra, zagueira, ambas com 25 anos, seriam as primeiras atletas profissionais declaradamente gays na história do México, e são certamente as primeiras jogadoras de um dos times nacionais do México a falar abertamente sobre sua orientação sexual.

As duas representaram seu país em competições internacionais e fizeram parte da seleção mexicana na Copa do Mundo Feminina de 2015.

Mas para serem aceitas elas tiveram de se mudar para um lugar a 7.200 km de casa.

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Jogadoras do Thor-KA treinam em campo em Akureyri, na Islândia

No México, segundo disseram, enfrentavam um treinador poderoso que as mandava esconder seu relacionamento do público, e uma cultura em que os torcedores habitualmente gritam frases homofóbicas durante as partidas.

Quando Sierra e Mayor finalmente se "assumiram", no último verão, publicando fotos nas redes sociais e declarando seu amor, foram submetidas a duros assédios online.

Mas aqui em Akureyri elas se sentem bem-vindas, segundo disseram. Aqui são estrelas de um time invicto no principal campeonato feminino da Islândia. Os moradores as cumprimentam nas ruas, e o treinador de seu clube, Thor-KA, elogia seu talento.

"Desde o início", disse Sierra, "sentimos que eles valorizam nosso trabalho aqui --nos valorizam como jogadoras de futebol, sem preconceito."

Mayor e Sierra contam sua história pela primeira vez enquanto a federação mexicana luta com diversas multas da Fifa por ignorar os slogans homofóbicos de seus torcedores.

A federação já acumula mais de US$ 100 mil em multas, e no mês passado a Fifa advertiu que as autoridades dos jogos poderão suspender as partidas se a prática continuar.

Isso ajuda a esclarecer por que, em uma série de entrevistas, Sierra e Mayor explicaram que tiveram deixar o México para encontrar realização em sua vida profissional e pessoal.

Sierra, uma mexicana-americana cujos pais tinham uma rede de restaurantes mexicanos na Área da Baía, na Califórnia, cresceu jogando futebol.

Quando ainda era adolescente e uma estrela de seu time no colégio em Mountain View, na Califórnia, ela foi notada por Leonardo Cuéllar, o antigo treinador da seleção feminina do México. Cuéllar recrutou Sierra para jogar na seleção sub-20 do México em 2010.

Mayor é de Azcapotzalco, um bairro de trabalhadores na zona norte da Cidade do México. Quando adolescente, ela se aperfeiçoou no esporte jogando com homens em campeonatos amadores.

Chamou a atenção da federação mexicana em um torneio aberto e, como Sierra, logo estava jogando nas equipes juvenis do México.

Foi aí que as duas se encontraram, quando ocuparam o mesmo quarto na Copa do Mundo Sub-20 na Alemanha em 2010. Elas formaram uma amizade forte, mas não se tornaram um casal ainda.

Logo Sierra voltou para os EUA, onde aceitou uma bolsa na Universidade Auburn, e Mayor voltou para sua casa no México.

Foi somente em 2013, quando foram chamadas pela seleção adulta nacional do México para jogar em um torneio na China, que seu romance floresceu.

Mayor disse que estar com Sierra, que cresceu nos EUA, onde os relacionamentos gays nos times esportivos femininos são mais comuns, ajudou-a a se aceitar melhor.

"Existem muitos tabus sobre a sexualidade no México", disse Mayor. "Há coisas que não são faladas. É cultural: você não pode ser franca sobre seu relacionamento. Era mais fácil se abrir com ela porque tem ideias muito claras sobre o que quer. Isso me ajudou muito."

As duas mantiveram um relacionamento à distância depois que Sierra foi recrutada pelo Washington Spirit na Liga Nacional Feminina de Futebol, mas só se encontravam quando Sierra ia ao México para acampamentos de treinos ou torneios.

As jovens disseram ser abertas com suas colegas de time e famílias sobre seu relacionamento, e em turnês ficam no mesmo quarto e raramente uma sai do lado da outra. Em breve, porém, seu afeto chamou a atenção de Cuéllar.

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Stephany Mayor, no centro, antes do ínicio do jogo de futebol em Rykjavik, na Islândia

Há décadas Cuéllar é a principal figura no futebol feminino no México. Um ex-jogador da Liga Norte-Americana de Futebol, ele começou sua carreira como treinador nos anos 1980 na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles.

Em 1998, quando o futebol feminino começou a prosperar nos EUA, ele voltou ao México para formar um programa feminino. Comandou a seleção nacional durante 18 anos, desde sua infância até a qualificação para três Copas do Mundo.

Mas durante um torneio pré-copa em Chipre em 2015 Cuéllar chamou suas jogadoras para uma reunião sobre regras do time. Enquanto instruía todas a se abster de bebidas alcoólicas e ser discretas nas redes sociais, ele também fez um comentário que as jogadoras interpretaram como mais dirigido.

"Ele disse: 'Não me importo se vocês são namoradas ou não, mas não quero vê-las de mãos dadas ou aprontando'", lembrou Mayor. Como ela e Sierra eram o único casal no time, disse ela, todas sabiam a quem se dirigia a ordem de Cuéllar.

"É difícil imaginar algo parecido acontecer nos EUA", disse Sierra. "Pense nisso: quando a seleção americana ganhou a Copa do Mundo, Abby Wamback beijou sua mulher no campo. Foi uma coisa normal."

Duas outras jogadoras presentes na reunião confirmaram o relato de Mayor e Sierra, mas não quiseram ser citadas pelos nomes porque ainda jogam no time.

Cuéllar não quis fazer comentários sobre o relato das jogadoras para esta reportagem.

Mariana Gascón, uma autoridade que coordena os times femininos na federação mexicana, disse que a organização não tem conhecimento do incidente em Chipre e enfatizou que o time está sob nova liderança.

Gascón também disse que a federação respeita todo tipo de orientação sexual e religiosa e não discrimina, e comentou que fez campanhas contra a homofobia.

Estas incluem uma série de anúncios de serviços públicos criados no ano passado que apresentam membros da seleção masculina do México lendo mensagens de tolerância.

Alguns dos maiores astros do time, como Javier Hernández e Rafa Márquez, apareceram nos anúncios dizendo coisas como "Para nós, as diferenças não são uma barreira" e "Eu não aceito violência". Jogadoras da seleção feminina, porém, não foram incluídas.

Enrique Torre Molina, um diretor de comunicações no México para a organização de direitos gays All Out, disse que a campanha não abordou claramente a questão da homofobia.

"Eles não querem chamar pelo nome", afirmou. "A federação mexicana não tem um interesse ou compromisso real em pôr fim a essa cultura no mundo do futebol."

Apesar de sua reunião desconfortável com Cuéllar em Chipre, Sierra e Mayor disseram que decidiram ficar para a Copa do Mundo no Canadá naquele ano porque se sentiram apoiadas e aceitas por suas colegas de time. Depois do torneio, porém, começaram a se sentir cada vez menos à vontade jogando para o treinador.

Quando Sierra ficou fora da seleção para um torneio de qualificação para a Olimpíada, em fevereiro de 2016, ela e Mayor, que tinha recusado uma convocação para o torneio por causa de diferenças com Cuéllar, já procuravam novas oportunidades profissionais.

O agente de Sierra de sua época na Liga Nacional Feminina ajudou a colocar as duas jogadoras, e em março de 2016 Sierra foi para um time na Noruega e Mayor, para a Islândia. Mas quando se estabeleceu em Akureyri Mayor começou a fazer lobby para que Sierra também fosse para lá. E ela chegou neste ano.

As jogadoras comentaram seu relacionamento publicamente em junho passado. Sierra postou um selfie com Mayor, com a legenda "mi mundo" (meu mundo).

Depois veio uma avalanche de insultos ameaçadores, como "Vocês me dão nojo, no meu bairro teríamos botado fogo em vocês".

"Não pensei que tanta gente se importasse", disse Mayor. "Não estamos fazendo nada. Você sente tristeza e raiva por estarem dizendo essas coisas."

Sierra acrescentou: "O que mais me surpreendeu é que todos os comentários ruins eram em espanhol. Em inglês foram todos positivos".

Enquanto os atletas gays se sentiram cada vez mais à vontade para se revelar nas ligas esportivas dos EUA na última década, e quase não despertam críticas nas seleções nacionais de muitos países, as lésbicas são menos visíveis na sociedade mexicana por causa da cultura machista do país.

Consequentemente, quando declaram sua preferência sexual elas podem enfrentar maior oposição, disse Claudia Pedraza, que é especialista no estudo de gêneros e esportes na Universidade Autônoma do México.

"Para uma mulher se assumir como lésbica no México é ainda mais complicado porque ela enfrenta dupla discriminação", disse Pedraza. "Primeiro por ser mulher e depois porque está assumindo a identidade homossexual."

Por enquanto, Mayor e Sierra estão concentradas nos aspectos positivos de suas carreiras. O Thor-KA lidera o campeonato da Islândia, com dez vitórias e um empate em 11 jogos, e se aproxima de sua meta de se classificar para a próxima temporada da Liga dos Campeões da Uefa.

O treinador do Thor-KA, Halldor Jon Sigurdsson, disse que as jogadoras mexicanas trouxeram uma visão inovadora para o campo. Ele descreveu Sierra como uma "máquina" e disse que Mayor tem uma "mente futebolística incrível".

"E se Fany está com a pessoa que ela ama", disse ele, usando o apelido de Mayor, "obviamente vai se sentir absolutamente fantástica."

A federação mexicana também pode ter percebido isso. O novo treinador da seleção nacional, Roberto Medina, convocou Sierra e Mayor para uma partida amistosa com a Suécia no sábado. Elas deveriam partir juntas da Islândia na quarta-feira, para o acampamento de treinos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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