Após fugirem da morte, refugiados chegam aos EUA antes de veto anti-imigração entrar em vigor

Miriam Jordan

Em Fayetteville (Arkansas)

  • ANDREA MORALES/NYT

    A família Mwenda, em Arkansas, nos EUA

    A família Mwenda, em Arkansas, nos EUA

Não havia eletricidade em seu vilarejo na República Democrática do Congo, mas Mwenda, um vendedor itinerante de gado, ouro e outros artigos, tinha condições de pagar pela bateria para ligar uma televisão. Eles viviam em uma casa de alvenaria, com espaço suficiente para seus nove filhos e ainda sobrava. Sempre havia comida na mesa.

"Ah, nós vivíamos bem no Congo", disse esta semana Mwenda, 60, em francês, uma das línguas que ele aprendeu em suas viagens.

Mas oito anos atrás, seis milicianos invadiram o complexo residencial da família, mataram seu filho mais velho e a mulher de seu filho e sequestraram Mwenda brevemente. A família deixou tudo para trás, e depois de quatro dias viajando a pé, de carro e de bote inflável, conseguiu chegar em segurança a um campo de refugiados a mais de 1.600 km de lá, no Maláui.

Este mês eles tiveram sorte novamente ao escaparem por pouco, quando um veículo da Organização Internacional para a Migração foi até o acampamento e os transportou até um aeroporto, com passagens só de ida para os Estados Unidos.

Isso fez deles uma das últimas famílias de refugiados sem relações próximas no país autorizadas a entrar antes que a moratória do presidente Donald Trump entrasse em vigor.

A partir de quinta-feira, somente refugiados com um "vínculo genuíno" com um parente próximo ou entidade nos Estados Unidos poderão entrar nos próximos 120 dias, seguindo uma ordem do Supremo Tribunal emitida em 26 de junho que autorizou parcialmente o veto migratório de Trump.

Cerca de 60% dos refugiados que se reassentaram nos Estados Unidos já têm ligações familiares aqui, mas somente um quarto dos que vieram do Congo e da Síria, dois países vitimados pela guerra que estão entre as maiores fontes de refugiados, têm qualquer conexão com os Estados Unidos, de acordo com a Church World Service, uma grande agência de reassentamento.

Entre os outros casos que tiveram a sorte de chegar antes que as portas se fechassem na quinta-feira estavam uma mãe somali, Nadifo Farah, e seus três filhos, inclusive um com espinha bífida, que foram reassentados em Grand Rapids, no Michigan. "Sou muito grata por estar aqui e poder ter acesso a tratamento médico para meu filho", disse Farah, 31.

Dois ugandenses que foram presos e torturados por sua orientação sexual também conseguiram entrar, um em Columbus, Ohio, e o outro em Oakland, na Califórnia.

ANDREA MORALES/NYT
Família Mwenda em sua nova casa, em Arkansas, nos EUA

Contudo, outros casos foram interrompidos, como o da família somali de 10 membros que inicialmente iriam para Columbus este mês. Na véspera de seu voo, souberam que sua viagem fora cancelada porque o exame médico de um dos membros havia expirado.

"Pessoas como essa família deram muito azar, porque eles não têm nenhum parente nos Estados Unidos", disse Angie Plummer, diretora-executiva da Community Refugee and Immigration Services, uma agência de reassentamento de Ohio. "Não sabemos quando ou mesmo se eles vão chegar".

Mesmo para Mwendas, a alegria de chegar aos Estados Unidos é diminuída pela dor de deixar um ente querido para trás. John Feruzi, 21, um sobrinho criado desde a infância por Mwenda e sua mulher, Nyasa Safi, fugiu com eles para o Maláui mas não foi autorizado a viajar para os Estados Unidos por razões que não ficaram claras.

Como um sobrinho não se qualifica como parente próximo pela definição do Departamento de Estado, ele provavelmente não poderá se juntar ao resto de sua família por pelo menos quatro meses.

"Estamos muito felizes aqui, mas não estamos completos", disse o filho de Mwenda, Byaombe Mwenda, 23, com os olhos se enchendo de lágrimas enquanto descrevia Feruzi como um irmão. "Nunca vivemos sem ele".

O Supremo Tribunal ouvirá argumentações no outono sobre se o decreto do presidente que barra temporariamente todos os refugiados e todos os viajantes de seis países de maioria muçulmana discrimina os muçulmanos de forma inconstitucional.

O governo Trump diz que o decreto é um exercício legal dos poderes do presidente em segurança nacional, e necessário para garantir que todos que estão entrando no país sejam devidamente checados.

Refugiados como os Mwendas já passam por amplas verificações de antecedentes, e é extremamente raro que qualquer um deles adote um comportamento terrorista.

Mas partidários do presidente apontam para um pequeno número de casos nos quais imigrantes ou seus filhos se radicalizaram. Alguns jovens de Minnesota de famílias de refugiados somalis foram condenados por planejarem se juntar a grupos militantes, inclusive o Estado Islâmico.

ANDREA MORALES/NYT
O complexo de prédios onde vivem os Mwendas, em Arkansas, nos EUA

Enquanto o tribunal aguarda as argumentações, ele permitiu que o veto migratório entrasse em vigor para aqueles sem vínculos "genuínos" com os Estado Unidos, os estrangeiros que, segundo os juízes do Supremo, tinham menos probabilidade de ganhar proteção legal.

Sem conhecerem ninguém nos Estados Unidos, os Mwendas contaram com uma subsidiária do Serviço Luterano de Imigração e Refugiados. Ela trabalhou com igrejas locais para ajudá-los a arrumarem dois apartamentos em Fayetteville, centro de uma região próspera que abriga a Universidade do Arkansas e a sede do Walmart.

A cidade fica a um mundo de distância de Swina, o vilarejo deles no Congo, um dos países mais pobres do mundo e onde rebeldes e milícias apoiadas pelo governo cometeram atrocidades durante anos.

No final de 2009, acobertados pela escuridão, seis membros da milícia Mai Mai mataram o filho de Mwenda, Richard, e a mulher de seu filho—possivelmente, disse Mwenda, porque eles tinham uma vida confortável. Os combatentes depois sequestraram Mwenda.

O resto da família—a mulher de Mwenda, outros oito filhos e dois netos—fugiram para outro vilarejo. Eles presumiram que Mwenda estava morto, até que souberam que ele havia sido torturado e jogado à beira de uma estrada, e depois descoberto vivo por missionários que o hospitalizaram.

A família se juntou e viajou durante quatro dias atravessando o Lago Tanganyika e a Tanzânia até alcançarem o campo de refugiados de Dzaleka, no Maláui. Ali eles se juntaram a milhares de refugiados que fugiam do genocídio, da violência e da guerra no Congo, na Somália, no Burundi e no Sudão.

"Não tínhamos nenhum documento, não tínhamos nada; deixamos tudo para trás", lembra Mwenda, observando que eles "só tinham um pouco de dinheiro".

A família construiu uma cabana de adobe que foi a casa deles por sete anos. Os filhos, que basicamente só falavam suahíli, se matricularam na escola, onde estudaram inglês.

Para complementar as rações de milho e feijão fornecidas pela ONU, Mwenda abriu uma empresa para vender madeira para alguns colegas refugiados que precisavam dela para colocar lonas sobre seus barracos. Ele alugava caminhões e entrava nas florestas com seus filhos mais velhos, onde passavam de três a quatro dias de uma vez cortando árvores.

Em junho de 2016, depois de passar por entrevistas e verificações de segurança, a família foi notificada que seria reassentada nos Estados Unidos.

Membros da família comemoraram quando autoridades americanas lhes informaram no começo de janeiro que sua partida estava próxima. Todos, inclusive Feruzi, sobrinho de Mwenda, realizaram exames médicos, um dos últimos passos do processo.

Os Mwendas olharam um mapa dos Estados Unidos para ver onde eles iam morar. "Nunca tínhamos ouvido falar no Arkansas", disse Jules Mwenda, 24, recitando os nomes de grandes cidades e Estados que ele conhecia.

Ao final de uma jornada de 20 horas, os Mwendas chegaram na semana passada ao Northwest Arkansas Regional Airport, sendo recebidos por um grupo de simpatizantes que seguravam bandeiras americanas e cartazes de boas-vindas.

A agência local de reassentamento, a Canopy or Northwest Arkansas, solicitou a grupos de igrejas que levassem os Mwendas para suas primeiras saídas. Na seção de hortifrúti de um supermercado, Mwenda ficou pasmo com a abundância e a grande variedade de maçãs à venda, logo enfiando duas dúzias de caras Pink Ladies em um saquinho.

Seus filhos se surpreenderam com a seção de comida para animais de estimação, e com a ideia de alimentos sendo fabricados especificamente para gatos.

Em seus apartamentos, eles tiveram de aprender a usar o forno, a torradeira e o vaso sanitário. Nenhum deles nunca tinha morado em um lugar onde pudessem dar a descarga.

Eles esperam encontrar emprego logo, nos setores avícola, de alimentação, construção civil ou varejo. "Quero trabalhar e estudar para me tornar um eletricista", disse Jules, o filho mais velho.

Mwenda, que ainda sofre de dores excruciantes na sua perna direita, consequência das torturas que sofreu em 2009, irá consultar um médico.

"A vida aqui ficará melhor com o tempo", disse Mwenda na segunda-feira, enquanto sua mulher preparava um almoço com ensopado de carne, fubá e arroz. "Este país é muito organizado".

Mais tarde, em uma chamada pelo WhatsApp, eles falaram com o sobrinho que tiveram de deixar para trás, que já teve suas impressões digitais registradas, foi fotografado, entrevistado e liberado pelos médicos. "Posso partir hoje, se for preciso", disse Feruzi.

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