Briga com empregada na Índia vira guerra de classes

Suhasini Raj e Ellen Barry

Em Noida (Índia)

  • Poras Chaudhary/The New York Times

    Mulheres de maridos que foram presos no tumulto no Mahagun Moderne falam com policial, em Noida, Índia

    Mulheres de maridos que foram presos no tumulto no Mahagun Moderne falam com policial, em Noida, Índia

As madames no condomínio de luxo iam para aulas de ioga ou para o playground com seus bebês; as empregadas silenciosamente retiravam os pratos usados e a roupa suja antes de se recolher, à noite, para uma favela próxima, feita de barracos de lata e tendas plásticas.

Esse tipo de arranjo persistia na Índia há décadas, em aparente harmonia.

Mas na quarta-feira (12) de manhã, no Mahagun Moderne, em Noida, nos arredores da capital indiana, as madames e as empregadas entraram em guerra.

Uma discussão entre uma empregada e sua patroa irrompeu em um tumulto completo, quando centenas de vizinhos da funcionária, armados de pedras e barras de ferro, forçaram a entrada no condomínio e invadiram o apartamento da patroa. Em reação, milhares de famílias puseram as empregadas para fora, dizendo que não podiam mais confiar nelas.

Ashok Yadav, o chefe de segurança do condomínio, perguntou-se quanto tempo as patroas irão aguentar.

"A verdade é que há uma relação simbólica entre a madame e a empregada", disse ele. "Agora os moradores estão muito nervosos e chocados com a maneira violenta como a multidão atacou a sociedade. Mas em pouco tempo elas encontrarão novas empregadas. Como poderiam viver sem elas?"

The New York Times
Grupo se reúne na entrada do Mahagun Moderne

Os conflitos entre trabalhadores domésticos e patrões são uma característica comum nos registros policiais da Índia, mas a violência de massa é quase inédita. Nas cidades indianas, muitas empregadas moram na casa dos empregadores, o que lhes dá poucas oportunidades de formar redes, disse Tripti Lahiri, autora de "Maid in India: Stories of Inequality and Opportunity Inside Our Homes" [Empregada na Índia: histórias de desigualdade e oportunidade dentro de nossas casas].

Mas isso mudou, conforme os edifícios de luxo proliferaram em áreas agrícolas nos arredores de Nova Déli e favelas apareceram ao seu lado, no que Lahiri chamou de "um ambiente perfeito para um choque nós x eles".

No caso de Harshu Sethi e sua empregada, Johra Bibi, em Noida na quarta-feira o choque foi hitchcockiano, despertando ansiedades subterrâneas sobre o verdadeiro relacionamento entre ricos e pobres.

Na terça-feira (11), Sethi acusou Bibi de roubar 17 mil rúpias (cerca de R$ 840) de um cofre em seu apartamento. Ela disse que Bibi confessou ter pegado 10 mil rúpias (cerca de R$ 500) em salários atrasados e então desapareceu. Bibi, 30, nega ter confessado algo e disse que Sethi a "manteve trancada em sua casa" naquela noite, alegação que seu marido compartilhou com outros moradores da favela. A polícia disse que a empregada passou a noite no apartamento de outra patroa.

"Não me lembro de nada", disse Bibi em uma entrevista. "Na manhã seguinte havia uma grande confusão. Chegou muita gente. O guarda veio e me tirou de lá."

Sethi, uma professora, descreveu algo mais assustador. Ela estava no apartamento acordando seu filho de 8 anos para ir à escola, quando viu uma "grande multidão", segundo disse, liderada por mulheres, dirigindo-se a sua unidade e gritando: "Hoje vamos matá-la; vamos matar a madame".

Um vídeo mostra uma multidão ruidosa e agressiva rumando para o condomínio, enquanto guardas de segurança tentam contê-la, sem efeito. Sethi disse que as pessoas do grupo saltaram o balcão de seu apartamento, no térreo, e quebraram a porta de vidro com um vaso de planta.

Sethi disse que tirou seu filho da cama coberta de cacos de vidro e se escondeu com o marido no banheiro durante uma hora e meia, enquanto a multidão saqueava o apartamento.

"Só pensamos em salvar nossas vidas", disse ela em uma entrevista, soluçando, e mostrou uma barra de ferro pesada deixada no apartamento por um dos invasores. "Eles tentaram mostrar que não tinham direitos. Acho que nós é que não temos direitos humanos. Nós somos os pobres."

Sethi, 34, considera-se uma patroa benevolente.

Poras Chaudhary/The New York Times
Acesso ao condomínio Mahagun Modern

"Nós as adoramos porque são uma parte tão importante de nossa vida", disse ela sobre as empregadas. "Os hindus acreditam que se você está comendo uma coisa e alguém com o estômago vazio o vê comer, você não conseguirá digerir a comida. Primeiro precisamos alimentá-los e depois comer. Eu dava chá a ela antes de mandá-la trabalhar."

Mas ela perdeu a fé nessa ligação, disse a patroa. "Acho que elas nos odeiam." "Existe uma verdadeira divisão de classes. Elas nos odeiam por causa do dinheiro, elas se perguntam: 'Por que eles estão bem de vida, tão ricos? Por que eles têm tudo?' Elas nos invejam. E é nisso que dá".

Bibi, a empregada, tinha uma visão diferente do relacionamento. Disse que Sethi não lhe pagou suas 3.500 rúpias (cerca de R$ 180), nos últimos dois meses e a acusou falsamente de roubo.

"Só porque ela tem dinheiro pensa que pode se safar com qualquer coisa?", disse Bibi. "Todo mundo a escuta, e a mim não. Ela vai nos jogar no lixo só porque sou pobre?"

Em poucas horas o conflito tinha traçado uma linha clara em torno do condomínio, que tem 2.700 unidades, e os moradores anunciaram a decisão de barrar todas as empregadas do local. O jornal "Hindustan Times" relatou que "um grande número de famílias encomendou comida de fora na quarta e na quinta-feira".

"A questão é que elas precisam aprender uma lição", disse Manta Pandey, 50. "Se elas podem se unir, por que não nós?"

The New York Times
Porta de vidro estilhaçada após o tumulto em Mahagun Moderne

Pandey disse que agora ela acorda uma hora mais cedo para fazer as tarefas domésticas e pretende comprar "um pano feito com tecnologia da nova era" para limpar o piso mais facilmente. Ela disse que "teve problemas para sentar e limpar o piso do modo tradicional".

Sandhya Gupta, outra moradora, disse que as patroas devem ter cuidado e não baixar a guarda com as empregadas.

"Elas são como aquele osso que fica atravessado na garganta --não as conseguimos engolir, nem cuspir", explicou. "Precisamos umas das outras, e temos de aprender a coexistir com respeito mútuo."

Os moradores da favela de Bibi disseram que a semana foi assustadora e exaustiva, e muitos afirmaram que Bibi errou. A polícia fez uma varredura no condomínio durante a noite de quarta-feira, deteve cerca de 60 pessoas e prendeu 13 vizinhos de Bibi. Outros moradores fugiram para um campo e se esconderam lá até que a polícia foi embora.

Uma das trabalhadoras, Sadanand, disse que a polícia deteve homens indiscriminadamente. Na mesma rua, mulheres do Mahagun Moderne saíram do condomínio para fazer comentários ressentidos ao grupo de repórteres e câmeras lá fora.

A polícia disse que queixas criminais foram feitas pela família Sethi, por Bibi, pelos moradores do condomínio e os seguranças.

Arun Kumar Singh, superintendente da polícia de Noida, contou que foi incrível como os proprietários se voltaram rapidamente contra as empregadas, acusando-as --falsamente, segundo ele-- de ser imigrantes de Bangladesh, sem documentos.

"Eu lhes fiz uma pergunta: como elas encontraram abrigo em suas casas durante tantos anos?", disse ele. "É assim: no dia em que temos uma diferença com nosso irmão, ele se transforma em um bandido, um terrorista. Antes disso era nosso irmão."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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