Como são treinados os agentes do Serviço Secreto dos EUA?

Nicholas Fandos

Em Hoover, Alabama (EUA)

  • Kevin D. Liles/The New York Times

    Terrance Maguire ensina técnicas de recuperação de evidências básicas em computador para uma turma em Hoover, Alabama

    Terrance Maguire ensina técnicas de recuperação de evidências básicas em computador para uma turma em Hoover, Alabama

As salas de aula, espremidas sobre um tribunal municipal aqui nos subúrbios de Birmingham, estão muitos distantes da Casa Branca. Mas depois de passar por uma série de portas de segurança e entrar em um espaço de trabalho futurista você encontrará uma importante aposta da agência que é mais conhecida por proteger os presidentes, o Serviço Secreto.

Mas ela não tem quase nada a ver com agentes que usam fones de ouvido ou carros blindados.

Embora o Serviço Secreto seja mais conhecido por manter a segurança dos executivos do governo, ele também tem a obrigação de investigar e combater crimes financeiros na internet e outros. E nesta era de detalhes de proteção elaborados e crimes cibernéticos desenfreados ele poderia receber mais ajuda.

Por isso, aqui no Instituto Nacional de Informática Forense, os alunos são policiais tarimbados, promotores e, às vezes, um juiz. A instrução imita o que a agência ensina a seus próprios agentes especiais. E não apenas a matrícula é grátis, como o Serviço Secreto paga passagens, hospedagem, alimentação e, para os policiais, dezenas de milhares de dólares em tecnologia para montarem seus próprios laboratórios forenses ao voltar para suas cidades.

Em troca, o Serviço Secreto silenciosamente reforçou uma rede de milhares de policiais em todo o país, capazes de processar evidências digitais e ligados à agência que lhes ensinou.

Kevin D. Liles/The New York Times
Emblemas de agências policiais de todo os EUA são exibidos em parede no instituto em Hoover, Alabama

"A natureza da ameaça aumentou no mundo todo, e as ameaças são cada vez mais integradas ao mundo digital", disse Ben Bass, agente especial encarregado do instituto. "Portanto, assimilar isso ao que fazemos é realmente importante."

O instituto abriu em 2008 como uma parceria entre o Serviço Secreto e o Estado do Alabama, que contribuiu com espaço e dinheiro para sua construção. Na época, poucas agências policiais estaduais e municipais tinham capacidade para processar evidências digitais encontradas em computadores e celulares, embora estas estivessem explodindo em volume e importância. Isso deixava as agências muito dependentes do Serviço Secreto e do FBI para processar e criava um atraso de anos em muitos casos.

O Serviço Secreto raciocinou que tentar mudar isso seria crítico para o futuro de sua missão, para não falar na eficácia dos órgãos policiais estaduais e locais. O programa continua sendo o único desse tipo e escala nos EUA.

Embora sua missão protetora chame a atenção do público, o Serviço Secreto investiga crimes desde 1865, quando o presidente Abraham Lincoln viu a necessidade de criar uma pequena força de investigadores no Departamento do Tesouro para combater a falsificação de dinheiro que minava os mercados americanos. Esse mandato mudou e se ampliou nas décadas seguintes, juntamente com as ameaças ao sistema financeiro do país, e a agência hoje investiga fraudes bancárias e de cartão de crédito, roubo de identidade, exploração infantil e falsificações.

Ele o faz com uma força razoavelmente pequena. A maioria dos 3.300 agentes do Serviço Secreto trabalha fora de escritórios. O FBI, em comparação, tem mais de 13 mil agentes. Para ampliar seu efeito, a agência depende de dezenas de forças-tarefas de crimes eletrônicos e financeiros em todo o país, onde policiais locais e estaduais e pessoas em universidades e empresas trabalham ao lado dos seus agentes.

A ajuda chegou na hora certa para a agência, onde nos últimos anos o moral baixo, fortes atritos e o maior número de pessoas para proteger em mais lugares conspiraram para espremer os recursos. Como a proteção é uma tarefa não negociável, as investigações muitas vezes sofrem.

Kevin D. Liles/The New York Times
Ala reservada para o intervalo no instituto

O efeito pode ser significativo. No ano fiscal de 2016, a agência gastou 65% de seu tempo em proteção e 35% em trabalho investigativo, segundo cálculos que apresentou a membros da Comissão de Supervisão da Câmara. Foi um ano eleitoral, quando as exigências de proteção são maiores. Mas parece que a porcentagem para este ano fiscal --que só incluiu aproximadamente o último mês da campanha-- não mudou muito, com 60% do tempo indo para proteção até o final de maio. Geralmente, seriam cerca de 40% para um ano fiscal pós-campanha.

Robert Novy, vice-diretor assistente de investigações, disse que as forças-tarefas ajudam a garantir que os casos continuem avançando independentemente das exigências de proteção. Ele também disse que começaram a liberar o pessoal do próprio Serviço Secreto para se concentrar em ameaças cibernéticas de grande escala e crimes financeiros volumosos.

"Ao elevar suas capacidades, podemos nos concentrar para encontrar meios de atacar ameaças financeiras mais importantes", disse Novy.

Montar o programa foi um desafio. Uma década depois de abrir as portas, o instituto treina cerca de 1.100 pessoas por ano. Mas está funcionando com 30% a 40% da capacidade, devido à falta de verbas federais. Para alguns programas, os possíveis recrutas podem esperar até três anos.

Sua previsão financeira continua incerta. A proposta de orçamento para 2018 do presidente Donald Trump excluiu o programa, mas o novo diretor da agência, Randolph Alles, disse a legisladores no mês passado que o considera "crítico" e transferiria dinheiro de outras partes do orçamento para pagar por ele, se necessário. Ao mesmo tempo, congressistas na Câmara e no Senado apresentaram projetos de lei que poderão estabilizar suas verbas.

As finanças do instituto pareciam ocupar poucas mentes em um dia recente de verão em Hoover, onde uma classe de mais de 20 promotores de justiça se sentou em fileiras bem arrumadas, os computadores zumbindo junto a seus pés, enquanto dados do celular de um traficante de drogas fictício brilhavam na tela dos computadores. A evidência estava toda ali em pastas ordenadas: registros de ligações, mensagens de texto e até fotos comprometedoras do suposto traficante, tudo revelado por software poderoso e alguns instrutores pacientes.

Em outra sala e algumas horas depois, duas dúzias de policiais lotaram um tribunal fictício forrado de madeira e escutaram outro instrutor falar do banco de testemunhas sobre o que faz uma boa testemunha forense. O segredo, disse ele, é equilibrar o uso de detalhes técnicos, como "registros master de boot" e "partições de discos", com uma imagem maior que um júri menos informado no assunto possa entender com maior facilidade.

"Eu preciso ser capaz de entender isso para poder traduzir quando me apresentar a um grupo de 12 pessoas", disse Jennifer Eugene, uma promotora de Nova Jersey, descrevendo sua experiência diante de um júri. "A lei não acompanhou a tecnologia."

Kevin D. Liles/The New York Times
Sala de aula onde é dado curso sobre invasão de rede

Um curso de cinco semanas para a polícia sobre o básico de recuperação de evidências em computador é o mais popular, e os formandos desse curso saem daqui com US$ 28 mil em tecnologia e a capacidade de vasculhar computadores apreendidos em busca de provas criminais. Um curso semelhante sobre celulares e tablets está ganhando popularidade. E cursos mais avançados cobrem invasão de redes.

Os promotores e juízes podem fazer cursos mais rápidos para se familiarizar com evidências digitais, o que ainda é relativamente novo em muitos tribunais.

Mas os benefícios mútuos do programa também eram visíveis. Frank Garibay, um detetive do Departamento de Polícia de San Antonio que tinha voltado ao instituto como supervisor depois de fazer o curso, disse que seu treinamento aqui transformou o que seu departamento era capaz de fazer.

Isso também significou que quando autoridades dos Texas Rangers e de Investigações da Segurança Interna se concentraram em um círculo de jogo ilegal no Texas, eles puderam pedir ajuda à força-tarefa de crimes eletrônicos do Serviço Secreto baseada em San Antonio, incluindo Garibay.

O Serviço Secreto pagou para os membros de sua força-tarefa viajarem à pequena cidade de Falfurrias, no sul do Texas, durante um fim de semana para montar uma sala de guerra para processar evidências digitais.

A operação afinal derrubou mais de dez cassinos ilegais, recuperou quase US$ 6 milhões, revelou círculos de tráfico humano e de drogas e casos de corrupção pública.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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