Local da maior batalha alemã na Segunda Guerra apresenta visão diferente do combate

Alison Smale

Em Seelow (Alemanha)

  • Gordon Welters/The New York Times

    3.jul.2017 - Turista Benjamin Langhammer tira fotos de um memorial da Segunda Guerra Mundial em Seelow, na Alemanha

    3.jul.2017 - Turista Benjamin Langhammer tira fotos de um memorial da Segunda Guerra Mundial em Seelow, na Alemanha

No melhor espírito melífluo da Alemanha moderna, as autoridades locais de Seelow decidiram construir uma ciclovia para que o número crescente de turistas possa estender seus passeios pela tranquila planície do rio Oder até a vizinha Polônia.

Sendo esse o local da maior batalha da Segunda Guerra Mundial em solo alemão, uma equipe foi nomeada para vasculhar a proposta trilha para bicicletas em busca de munições abandonadas. Logo eles encontraram não munições, mas uma vala comum com os restos mortais de aproximadamente 28 soldados soviéticos.

A descoberta, em maio, confirmou mais uma vez a natureza sanguinolenta da planície do Oder, onde dezenas de milhares de soldados dos lados soviético e nazista morreram na batalha em abril de 1945 pelas colinas de Seelow. A elevação rochosa se ergue apenas 100 metros acima da planície, mas deu a cerca de 80 mil alemães cobertura suficiente para se entrincheirar e matar muitos dos cerca de 1 milhão de soldados soviéticos enviados em ondas para arrasar o inimigo e abrir o caminho até Berlim.

Essa história nunca deixou de causar uma marca, fazendo de Seelow uma vitrine dessa verdade infalível da guerra: ao vencedor, os louros, especialmente a oportunidade de impor a sua versão dos fatos.

Depois que os aliados esmagaram Hitler, as colinas de Seelow se tornaram uma vitrine para Stalin. Os escultores soviéticos Lev Kerbel e Vladimir Zigal criaram uma estátua de bronze de um soldado do Exército Vermelho olhando tristemente na direção de sua terra, segundo a diretora do monumento, Kerstin Niebsch.

A figura transmite um clima "mais de dor que de raiva", enquanto não deixa dúvida sobre sua superioridade --moral e militar--, pairando sobre o solo da Alemanha nazista derrotada. Abaixo da estátua e do barranco onde ela se ergue estão os túmulos bem cuidados de 66 soldados soviéticos, alguns de apenas 19 anos. As lápides têm estrelas pretas, e não as vermelhas comunistas habituais.

É uma visão poderosa, bordejada por árvores e uma vista surpreendente da planície onde esses homens encontraram a morte. Como salientou Niebsch a vários visitantes em um domingo recente, o lugar mostra como a vida humana pode se tornar sem valor. "Até homens realmente endurecidos", como um grupo recente de oficiais da Geórgia, a antiga República soviética, "engolem em seco."

A camada seguinte da história a se descascar é o período da Alemanha Oriental, de 1972 a 1989. Enquanto os soviéticos em geral relaxaram um pouco seu controle do Estado comunista na Alemanha, a direção do memorial de Seelow passou às autoridades locais.

Gordon Welters/The New York Times
3.jul.2017 - Túmulo de um soldado soviético na planície de Seelow, na Alemanha, palco de uma batalha da Segunda Guerra Mundial

Um museu foi construído com troncos de madeira e pequenas janelas com grades de ferro, um eco das trincheiras que os nazistas cavaram antes do ataque soviético. O Exército alemão-oriental realizou elaboradas cerimônias de juramento aqui, com desfiles à luz de tochas.

A ênfase era para a inquebrantável amizade soviético-alemã-oriental. Lápides de mármore vermelho com os nomes dos soldados soviéticos caídos foram colocadas ao lado do cemitério de 1945.

Em um sinal da ineficiência que acabou causando a queda dos comunistas na Alemanha Oriental, os restos dos veteranos soviéticos citados nas lápides não foram transferidos para cá nos anos 1970, mas só em 2006, depois que o erro veio à luz.

Os alemães-orientais também exibiam com orgulho um dos poderosos faróis que o marechal Georgi Zhukov usou para iluminar o campo de batalha quando ordenou que suas tropas avançassem antes do amanhecer, em 16 de abril de 1945.

Foi somente depois da queda do Muro de Berlim que se admitiu abertamente que aquelas luzes, em vez de ajudar no ataque soviético, na verdade cegaram o Exército Vermelho e salientaram as silhuetas dos soviéticos para que os nazistas atirassem, porque a luz se refletia nas nuvens de fumaça da batalha.

Apesar de seus fracassos por muito tempo escondidos, Zhukov acabou vencendo e tomou Berlim, embora uma semana depois da meta de Stalin, de 1º de maio, o Dia Internacional do Trabalho.

Hoje as colinas de Seelow refletem a confusão pós-comunista de uma Guerra Fria que passou, mas deixou assuntos inacabados.

Gordon Welters/The New York Times
3.jul.2017 - Vista da planície da Seelow, 65 km a leste de Berlim, palco de uma batalha entre os exércitos nazista e soviético na Segunda Guerra Mundial

Na Rússia, onde as mudanças políticas há muito tornaram o passado imprevisível, a Igreja Ortodoxa, que sobreviveu ao comunismo ateu, emergiu como um forte apoio às homenagens a soldados soviéticos, como explica um cartaz perto de uma magnífica cruz ortodoxa de mármore escuro.

Assim como outras embaixadas das antigas forças aliadas em Berlim, a da Rússia mantém um adido para os túmulos de guerra e as centenas de cemitérios soviéticos na Alemanha.

Apesar dos muitos problemas nas tratativas do Ocidente com o Kremlin hoje em dia, a cooperação entre alemães e russos --voluntários e oficiais-- está intacta, contribuindo para mais uma visão da importância de Seelow como símbolo de reconciliação.

Yevgeny Aleshin, o adido russo para túmulos de guerra, disse esperar que os corpos encontrados em maio sejam enterrados com a devida cerimônia no ano que vem em um cemitério próximo. Centenas de corpos são descobertos ou re-enterrados todos os anos nessa região, comentou ele.

Desde a reunificação, a Alemanha esculpiu a reputação de enfrentar sua história. A narrativa do caos e dos horrores da guerra deu um grande papel a testemunhas como Günter Debski, 89, que visita escolas e conta histórias confirmadas, no caso dele, por papéis e fotos cuidadosamente preservados e um estilhaço retirado dos restos de uma mochila que salvou sua vida.

Debski sobreviveu a vários encontros com a morte em 1945. Ele foi obrigado a lutar pelos nazistas, foi capturado pelo Exército Vermelho, marchou até a fronteira russa em Brest e depois foi libertado para voltar por conta própria a Berlim. Ele acabou sendo chefe de polícia durante dez anos na cidade de Eisenhüettenstadt, na Alemanha Oriental.

Sentado em uma manhã recente em um hotel local, suas histórias causavam calafrios na sala ensolarada.

"De repente, tudo explodiu", disse ele sobre o ataque soviético às colinas de Seelow em 16 de abril de 1945. "Havia tiros. Tudo tremia, eu não conseguia imaginar o que estava acontecendo. Pensei que talvez fosse um terremoto. Nada se parecia com aquilo --talvez só o bombardeio a Dresden", disse ele, referindo-se ao ataque aéreo aliado à cidade alemã em fevereiro de 1945, que ele também presenciou.

Inesquecível, segundo Debski, foi o forte "hurra" com que os soviéticos atacaram, apesar do fogo de artilharia alemão.

O que acontecerá com a história quando os últimos sobreviventes morrerem é uma grande pergunta sem resposta. Adolescentes e outras crianças entediadas vistas em três visitas recentes a Seelow sugeriam a necessidade de uma apresentação mais vívida no século 21 do que as exibições estáticas e textos detalhados que são típicos das crônicas minuciosas da Alemanha sobre o passado nazista ou comunista.

Os visitantes mais velhos, embora jovens demais para ter conhecido a guerra ou o Holocausto, sabem por que vieram a Seelow.

"Muita gente morreu aqui", disse Benjamin Langhammer, 54, um músico de Erfurt que já esteve aqui com seu pai há dez anos e agora fez uma escala durante uma turnê solitária de bicicleta.

"Contaram-nos muitas histórias" durante o período comunista da Alemanha Oriental, disse ele. "E você sempre sabe que só vai ouvir a metade da história, a que os vencedores contam."

É importante corrigir as distorções, comentou ele. Embora "como alemão, a última coisa que você deve fazer é um sermão para alguém, certo?"

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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