Projeto chinês para ligar Oriente e Ocidente coloca Irã no "centro de tudo"

Thomas Erdbrink

Em Neyshabur (Irã)

  • Arash Khamooshi/The New York Times

    Empregados chinês e iraniano trabalham em usina de reciclagem de papel, em Neyshabur, Irã

    Empregados chinês e iraniano trabalham em usina de reciclagem de papel, em Neyshabur, Irã

Quando Zuao Ru Lin, um empresário de Pequim, ouviu falar pela primeira vez nas oportunidades de negócios no leste do Irã, ficou cético. Mas então ele comprou um mapa e começou a imaginar a região sem nenhuma fronteira, como um enorme mercado.

"Muitos países estão próximos, até a Europa", disse Lin, 49, enquanto dirigia recentemente seu BMW branco pela rodovia que liga Teerã à cidade de Mashhad, no leste do país. "O Irã está no centro de tudo."

Durante milênios, o Irã prosperou como polo comercial ligando Oriente e Ocidente. Hoje esse papel deverá se expandir nos próximos anos, enquanto a China desenvolve seu projeto "Um cinturão, uma estrada", que promete mais de US$ 1 trilhão em investimentos em infraestrutura --pontes, ferrovias, portos e energia-- em mais de 60 países da Europa, Ásia e África. O Irã, que é uma encruzilhada histórica, situa-se estrategicamente no centro desses planos.

Como peças de um extenso quebra-cabeça geopolítico, os componentes da rede de infraestrutura da China estão sendo encaixados. No leste do Irã, trabalhadores chineses estão ocupados modernizando uma das principais estradas de ferro do país, padronizando as bitolas, melhorando o leito das vias e reconstruindo pontes, com o objetivo final de conectar Teerã ao Turcomenistão e ao Afeganistão.

Quase o mesmo está acontecendo no oeste do Irã, onde equipes trabalham para ligar por ferrovia a capital à Turquia e, com o tempo, à Europa. Outros projetos ferroviários ligam Teerã e Mashhad aos portos profundos no sul do país.

Antes dependente de Pequim durante os anos do isolamento internacional imposto pelo Ocidente por causa de seu programa nuclear, o Irã hoje é crítico para que a China consiga realizar suas ambições grandiosas. Outras rotas para os mercados ocidentais são mais longas e passam pela Rússia, um potencial concorrente da China.

"Não é que seu projeto será cancelado se nós não participarmos", disse Asghar Fakhrieh-Kashan, vice-ministro iraniano de Estradas e Desenvolvimento Urbano. "Mas se eles quiserem economizar tempo e dinheiro, escolherão o caminho mais curto."

Ele acrescentou com um sorriso: "Há também vantagens políticas no Irã, comparado com a Rússia. Eles estão altamente interessados em trabalhar conosco".

Outros temem que com o grande investimento chinês e a crescente presença do país na economia iraniana Teerã fique mais dependente que nunca da China, que já é seu maior parceiro comercial.

A China também é um mercado importante para o petróleo iraniano, e por causa das sanções unilaterais restantes dos EUA, que intimidam os bancos globais, é a única fonte do grande volume de capital necessário para financiar projetos críticos de infraestrutura no Irã. Mas esse é aparentemente um risco que a liderança está preparada para aceitar.

Arash Khamooshi/The New York Times
Iraniano transporta papel em usina de reciclagem em Neyshabur

"A China está dominando o Irã", disse Mehdi Taghavi, professor de economia na Universidade Allameh Tabataba'i, em Teerã, acrescentando que "as autoridades iranianas não veem desvantagem alguma em dependermos da China. Estamos avançando juntos".

Não são apenas estradas e ferrovias que o Irã está recebendo da China. O Irã também está se tornando um destino cada vez mais popular para empresários chineses com Lin. Com algumas palavras de persa, assim como empréstimos com juros baixos e deduções fiscais dos governos chinês e iraniano, ele construiu um pequeno império desde que se mudou para o Irã, em 2002. Suas oito fábricas fazem uma grande variedade de produtos que encontram mercado no Irã e nos países vizinhos.

"Você pode dizer que eu fui ainda mais visionário que alguns de nossos políticos", disse Lin com um sorriso. Desde 2013, quando começou o plano "Um Cinturão, uma Estrada", ele recebeu dezenas de visitantes da China e teve reuniões com o embaixador chinês em Teerã. "Fui um pioneiro, e eles querem ouvir minhas experiências", explicou.

Lin estabeleceu suas fábricas ao longo do que será uma parte importante da rota comercial --uma ferrovia eletrificada de 920 km ligando Teerã a Mashhad, financiada por um empréstimo de US$ 1,6 bilhão da China. Quando concluída e ligada à rede maior, a nova linha permitirá que Lin exporte seus bens até o norte da Europa, a Polônia e a Rússia, por um custo muito menor que hoje.

"Estou esperando um aumento de 50% nas receitas", disse Lin. Ele acende mais um cigarro. "É claro, a economia do Irã também crescerá. A China se expandirá, seu poder crescerá."

Ele toca música pop chinesa em seu carro e tamborila com os dedos no volante. "A vida é boa no Irã", disse. "O futuro é bom."

Os iranianos que avistavam Lin dirigindo entre suas fábricas acenavam e sorriam. Tendo dominado algumas frases básicas em persa ao longo dos anos, ele disse "olá" e "até logo" a alguns de seus 2.000 empregados. Os iranianos trabalham duro, disse Lin, mas ele não gosta de sua comida. "Nós plantamos nossos legumes e comemos comida chinesa", disse. "Como em casa."

Arash Khamooshi/The New York Times
Zuao Ru Lin, um empresário de Pequim, em uma de suas oito fábricas, em Neyshabur, Irã

Mesmo quando o patrão estava afastado, os trabalhadores em suas fábricas disseram estar muito contentes com os chineses. "Eles pagam todos os meses sem atraso e só contratam pessoas, em vez de demitir", disse um guarda, Amir Dalilian. "Se vierem mais, nossa economia crescerá."

Quando concluída, a ligação ferroviária proposta se estenderá por quase 3.200 km, de Urumqi, a capital da região ocidental chinesa de Xinjiang, a Teerã. Se tudo correr como planejado, ela ligará Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Turcomenistão, segundo o jornal estatal chinês "China Daily". As bitolas dos trilhos precisam ser adaptadas e novas conexões feitas, assim como modernizações para os trens mais novos.

Em um teste em 2016, China e Irã conduziram um trem do porto de Xangai, no leste da China, até Teerã em apenas 12 dias, uma jornada que leva 30 dias por mar. No Irã, usaram os trilhos existentes entre Teerã e Mashhad, o trem foi movido por um mais lento, a diesel. Quando a nova linha for inaugurada, em 2021, deverá receber trens elétricos com velocidades de mais de 200 km por hora.

Fakhrieh-Kashan, que supervisiona a negociação de grande parte dos maiores acordos empresariais internacionais, disse que a iniciativa chinesa fará muito mais que apenas fornecer um canal para o transporte de bens. "Pense em infraestrutura, planejamento urbano, intercâmbios culturais, acordos comerciais, investimento e turismo", disse ele. "Você pode escolher qualquer projeto, todos estão sob esse guarda-chuva."

Os laços comerciais entre o Irã e a China vêm crescendo desde que os EUA e seus aliados europeus ao mesmo tempo começaram a pressionar o Irã por causa de seu programa nuclear, por volta de 2007. A China continua sendo o maior comprador de petróleo iraniano, mesmo depois que as sanções ocidentais foram suspensas em 2016, permitindo que o Irã novamente venda aos mercados europeus.

As companhias estatais chinesas atuam em todo o país, construindo estradas, escavando minas e fabricando aço. As lojas de Teerã estão inundadas de produtos e as ruas, lotadas de carros chineses.

Os líderes iranianos esperam que a participação do país no plano permita que eles peguem carona nas grandes ambições econômicas chinesas.

"O plano chinês é desenhado de tal maneira que estabelecerá a hegemonia chinesa em meio mundo", disse Fakhrieh-Kashan. "O Irã colocará seus próprios interesses em primeiro lugar, mas estamos criando um corredor a pedido dos chineses que nos dará um enorme acesso a novos mercados."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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