Será esta a mulher que vai salvar a Uber?

Sheila Marikar

  • Justin Kaneps/The New York Times

    5.jul.2017 - Bozoma Saint John, nova diretora de marca da Uber e nome famoso do marketing norte-americano

    5.jul.2017 - Bozoma Saint John, nova diretora de marca da Uber e nome famoso do marketing norte-americano

Pouco mais de um ano antes de Bozoma Saint John se tornar a primeira diretora de marca da Uber, a maior esperança que a companhia de transportes tem de recuperar sua imagem, ela chamou um carro a partir do hotel Four Seasons em Austin, no Texas, para ir a um jantar de negócios na região. O motorista que apareceu estava um caco.

"Ei, não vai acontecer nada comigo neste carro, né?", disse Saint John meio brincando ao motorista. "Você sabe dirigir, certo?"

Ela esperava que ele fosse responder brincando. Em vez disso, ele lhe disse que um grupo de taxistas no aeroporto havia vandalizado o veículo e que ele precisava do dinheiro daquela corrida para consertá-lo. Ele também mencionou que vinha poupando para ver Iggy Pop, o roqueiro preferido de seu falecido irmão, no festival South by Southwest, ao qual Saint John iria como diretora de marketing global para consumidores para a iTunes e a Apple Music.

Ela se engasgou; seu jantar era justamente com Iggy Pop. Será que talvez o motorista gostaria de vir junto?

Aqui entram as lágrimas (e a avaliação de cinco estrelas para a passageira).

"Todos perguntavam: 'O que está acontecendo? Esse é seu acompanhante? Não entendo. Por que esse cara está aqui?'", disse Saint John. "Foi um momento tão lindo, tão humano", esse momento que foi narrado em seu perfil no Instagram, @badassboz, onde ela tem mais de 40 mil seguidores.

"Estamos sempre correndo na vida, e eu estava tão preocupada em ir de um lugar para outro, que se não fosse pelo momento de humanidade em que simplesmente começamos a conversar, essa conexão não teria acontecido", ela disse. "Teria sido uma perda e tanto. Que perda!"

Jason Henry/The New York Times
14.jun.2017 - Bozoma Saint John ao lado de Arianna Huffington, membro do conselho da Uber e fundadora do "The Huffington Post"

Essa história foi parte do que convenceu Ariana Huffington, fundadora do "The Huffington Post" e membro proeminente do conselho da Uber, de que Saint John seria a pessoa certa para conduzir a Uber para fora de seu emaranhado recente de escândalos jurídicos e éticos.

As duas mulheres se encontraram pela primeira vez em um jantar em Las Vegas, em janeiro passado, oferecido por Kristin Lemkau, diretora de marketing da JPMorgan Chase. "Nós nos demos bem na hora", disse Huffington. Naquela noite, ela postou uma foto de si mesma abraçada com uma sorridente Saint John no Instagram com a hashtag #thecoolkidsdinner (algo como "o jantar das pessoas legais"). No mês seguinte, Huffington foi à festa de aniversário de 40 anos de Saint John em Los Angeles. (Outra oportunidade para postar no Instagram: "Difícil imaginar o que ela fará aos 50!", ela postou.)

"Às vezes leva meses até você conseguir conhecer alguém", disse Huffington. "Com ela, senti que ela tinha essa incrível capacidade de intimidade e de compartilhar sua história e de compartilhar as histórias dos outros".

E, de acordo com Huffington, "Ela é ótima com mídias sociais".

De fato, enquanto as mulheres durante muito tempo tiveram medo de colocar fotos de família em suas mesas por acharem que isso poderia impedir que elas subissem na carreira corporativa, Saint John quebrou a moldura de vidro: posando de biquíni com sua "gangue" em uma praia; tirando uma selfie com sua filha, hoje com 8 anos, que a acompanhava em uma viagem de trabalho; e postando a última foto tirada no tapete vermelho junto com seu marido, Peter Saint John, que morreu de linfoma de Burkitt em 2013.

"Já me disseram que me exponho demais", ela disse. "Às vezes sou criticada por isso, mas o que mais eu poderia ser senão eu por inteiro?"

Saint Johns sabe que pode ser extremamente calculista da parte da Uber, que foi acusada de criar um ambiente hostil de trabalho para mulheres, contratar uma mãe solteira afroamericana para transformar sua imagem pública. Ela não se importa. "Para mim, não sinto que seja tokenismo porque eu sei que consigo fazer o trabalho. Sou qualificada para fazer o trabalho, consigo fazer um excelente trabalho", ela disse. "Estar presente como uma mulher negra—só de estar presente—já é suficiente para ajudar a exigir parte da mudança necessária e parte da mudança que estamos buscando".

Ela amplifica essa presença com roupas que marcam sua personalidade, como a saia Marni lilás de babados com top, bolsa Chanel incrustada de ouro e saltos agulha que ela usou em uma manhã recente no escritório da Uber em San Francisco. "É algo pessoal meu", disse Saint John sobre seu interesse em moda, tão diferente da estética básica ao seu redor.

Ela se destaca da multidão desde que sua família se estabeleceu em Colorado Springs quando ela tinha 12 anos, após uma infância itinerante passada entre Connecticut, Washington D.C., Quênia e Gana, onde seu pai foi membro do parlamento desde 1979 até o golpe de Estado em 1981. Sua mãe desenhava e vendia roupas, e se certificava de que Saint John e suas três irmãs mais novas permanecessem ligadas à sua cultura, especialmente depois que se mudaram para o sudoeste.

"Nos primeiros meses foi muito difícil", disse Saint John. "Ter um nome que as pessoas não sabiam pronunciar—o acento tônico é em 'Bo'—ter uma mãe que se recusava a servir pizza na sexta-feira à noite quando suas amigas iam à sua casa. Ela falava assim, 'Não, vocês vão tomar essa sopa de pimenta, não me importo que estejam suando'". (Ela passou a apreciar essa firmeza. Ao aceitar um prêmio em um evento beneficente de artes oferecido por Russell Simmons este mês, Saint John agradeceu à sua mãe por incutir nela seu amor pela cultura africana.)

Confira como é andar em um carro autônomo da Uber

Saint John se tornou capitã da equipe de animadores de torcida e da equipe de corrida. Em seu segundo ano do ensino médio, ela concorreu ao grêmio estudantil com o slogan "Ain't Nothin' but a Boz Thing", inspirada por sua música preferida na época, "Nuthin' but a 'G' Thang", de Dr. Dre.

"Eu tinha achado tão legal, mas ninguém entendeu", ela conta. Ela perdeu, "mas foi um ótimo aprendizado; você precisa se conectar no nível do público, e não no seu".

Saint John frequentou a Universidade de Wesleyan, onde aparentemente se preparava para se tornar médica, mas na qual conseguiu lecionar uma disciplina sobre Tupac Shakur, com supervisão de um professor, no seu tempo livre. Ela entrou na faculdade de medicina, mas convenceu seus pais a tirar um ano sabático. "Eles concordaram, que foi onde eles erraram", ela disse.

Ela se mudou para Nova York, e através de uma agência de empregos temporários conseguia trabalhos como garçonete de eventos e recepcionista em um salão de banho e tosa para cães no Upper East Side. Ela também começou a frequentar casas noturnas, onde fez amizade com pessoas influentes como Rene McLean, que tinha um curso de DJs. Sua agência de trabalhos temporários a enviou para a SpikeDDB, a empresa de publicidade de Spike Lee. Lee havia demitido seu assistente e precisava de alguém para atender o telefone enquanto ele procurava por outro.

"Ela entrou e conseguiu o emprego na hora", ele disse. "Era evidente que ela tinha um grande futuro".

Saint John começou indo buscar café para as pessoas e foi subindo até passar a ajudar Lee bolando campanhas, como a contratação de Beyoncé, que havia acabado de sair do Destiny's Child, como Carmen em um comercial da Pepsi.

"Aquele se tornou o ponto divisor de águas onde pensei, certo, eu posso realmente usar meu conhecimento em cultura pop, andando com meus amigos, tendo os contatos certos, ajudando a tomar decisões de negócios", ela disse. Ela também conheceu seu futuro marido, um executivo de publicidade, na lanchonete da empresa.

Depois de um período vendendo produtos para parar de fumar para a GlaxoSmithKline, Saint John aceitou um emprego em marketing na Pepsi, criando projetos como "Pepsi DJ Division", que incluía o DJ Khaled.

Em 2013, ela coordenou o show do intervalo do Super Bowl patrocinado pela Pepsi, que trazia Beyoncé. Quatro meses depois, veio o diagnóstico da doença de seu marido. A filha do casal havia acabado de completar 4 anos.

"Quase no final da vida dele, quando tudo começou a ruir, ele insistiu muito para que eu não parasse de fazer o que estava fazendo", disse Saint John. "Ele me pedia para segurar suas mãos porque ele não conseguia mais, dizendo, 'Prometa para mim que você vai continuar seguindo em frente'".

No 13º aniversário do primeiro encontro deles, Saint John postou uma atualização de status no Facebook, dizendo, "nós refletimos sobre nossos anos juntos enquanto ele tomava seu coquetel de quimioterapia e eu bebia vinho tinto em um copinho de papel". Peter Saint John morreu em dezembro de 2013. Bozoma Saint John cumpriu sua promessa e seguiu em frente.

Em fevereiro de 2014, Jimmy Iovine, um dos fundadores da Interscope Records, soube que ela estava em Los Angeles para o casamento de uma de suas irmãs e pediu para que ela o encontrasse em sua casa em Malibu. Ele havia acabado de lançar a Beats Music, um serviço de streaming, junto com o ídolo da adolescência dela, Dr. Dre. Quem era Iovine? Como funcionava o streaming? Ela não sabia direito, mas foi até a casa dele à beira da praia.

"Acabamos conversando durante quatro horas", disse Saint John. "Eu era crua. Precisava de algo para me dar alguma esperança para o futuro. Precisava de algo que me ajudasse a ver mais longe. Quando ele estava falando sobre aquele monte de novidades, eu disse: 'Isso soa como o futuro! Eu vou para o futuro!'"

Saint John saiu da Pepsi e se mudou para Los Angeles como diretora de marketing global para a Beats. Seu papel cresceu quando a Apple comprou a Beats for US$ 3 bilhões (quase R$ 10 bilhões) em 2014, e ela bolou campanhas publicitárias populares para a Apple Music, como um comercial de 2015 no qual Mary J. Blige, Kerry Washington e Taraji P. Henson se aproximam ouvindo juntas músicas de fim de namoro em uma mansão ensolarada e cheia de plantas ("Siri, toque 'I Will Survive'", diz Washington).

No ano passado, Saint John subiu no palco durante a conferência de desenvolvedores da Apple—a primeira mulher negra a fazê-lo—tocando rap old-school em uma caixa de som e mandando que a plateia, composta basicamente por homens brancos, dançasse ao som da batida. A "Wired" se perguntou, "Quem diabos é essa mulher fodona, e como a Apple conseguiu mantê-la em segredo por tanto tempo?"

Depois de ouvir a história de Saint John sobre sua corrida em Austin, "Tive um clique—'Uau, ela seria incrível na Uber'", disse Huffington. "Pensei que ela seria uma pessoa ótima para contar essas histórias incríveis sobre nossos motoristas, para tocar o coração das pessoas, trazer mais humanidade à marca".

Em maio, Saint John e Travis Kalanick, fundador da Uber e CEO da empresa na época, passaram oito horas na casa de Huffington em Los Angeles, discutindo o que ela poderia fazer pela empresa que fosse ao mesmo tempo simples e grandioso.

"Talvez eu precise usar um disfarce, mas quero dirigir", ela disse. "O que acontece quando alguém entra no carro e está chateado? É um momento importante? Você só fica quieto ou fala com a pessoa?"

Kalanick deixou o cargo de CEO um mês depois, e ainda estão à procura de um sucessor para ele. Mas, quem quer que seja, a pessoa terá Saint John ajudando sentada no banco do passageiro, com seu salto alto e caixa de som ligada.

"Por que não a quereriam?", disse Lee. "Ela é perfeita para eles, com tudo pelo qual estão passando neste momento. Ela caiu do céu para a Uber".

 

Tradutor: UOL

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