Dezoito anos após fuga, cirurgião volta ao Iraque para ajudar amputados na guerra

Adam Baidawi

Em Bagdá (Iraque)

  • Brook Mitchell/The New York Times

    Dr. Munjed al-Muderis, iraquiano que se refugiou na Austrália, onde se tornou cirurgião

    Dr. Munjed al-Muderis, iraquiano que se refugiou na Austrália, onde se tornou cirurgião

Um jovem soldado israelense entrou de cadeira de rodas em uma sala de exames improvisada no melhor hospital do governo em Bagdá e usou os cotovelos para subir na cama. Arrancando as várias presilhas, ele retirou sua perna protética para que o doutor Munjed al-Muderis pudesse examinar o toco.

Al-Muderis, um cirurgião ortopédico iraquiano-australiano, estava de volta à sua cidade natal pela primeira vez desde que escapou em 1999, depois de receber ordens para cortar as orelhas de soldados desertores. Ele tinha vindo a pedido pessoal do primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, que tem um Exército cheio de soldados com membros perdidos na incansável batalha contra o Estado Islâmico (EI).

Cerca de 200 desses mutilados foram chamados para passar por triagem durante dois dias. Enquanto trabalhava atendendo à multidão, al-Muderis, 45, não se sentou ou mesmo se apoiou a uma mesa. Quando lhe perguntei a certa altura se era o maior número de amputados que tinha examinado em um dia, ele respondeu: "É o maior número de amputados que qualquer pessoa já examinou em um dia".

Ele procurava candidatos para osseointegração, um procedimento cirúrgico que supera a abordagem secular de encaixar um membro falso sobre o toco do que foi cortado. Neste, os médicos inserem com furadeira encaixes de titânio no osso restante e os prendem a próteses avançadas, criando membros mais dinâmicos.

A técnica se originou com os implantes dentários, e al-Muderis ajudou a adaptar seu uso para braços e pernas, operando dezenas de veteranos das guerras no Iraque e no Afeganistão em hospitais da Austrália, Reino Unido, Camboja, Alemanha, Holanda e Líbano.

"É muito importante para eles sentir-se que estão de volta ao normal", disse o primeiro-ministro ao médico, referindo-se aos soldados feridos. Mais tarde, al-Abadi disse que al-Muderis "mostra que os iraquianos são muito resistentes".

Wathiq Naeem Hajem Khuzaie/The New York Times
Al-Muderis concede palestra durante evento TEDx em Bagdá

Al-Muderis, filho de uma das nove famílias governantes originais de Bagdá, escapou de um regime brutal para enfrentar o que descreveu como um sistema de asilo desumano na Austrália. Hoje ele vive em uma mansão junto ao porto de Sydney e dirige uma Aston Martin até um hospital privado, onde realiza cirurgias comuns de joelho e quadril, assim como osseointegração.

Para mim, que cresci na Austrália com uma família imigrante que remonta há pelo menos 18 gerações no Iraque, al-Muderis representava uma mistura fascinante de culturas e línguas, trauma e recuperação, ciência e religião. Eu o acompanhei em uma viagem de três dias a Bagdá em maio para inspecionar os feridos de um país que eu só conhecia à distância e para ver se um cirurgião realmente poderia ajudar a conter essa hemorragia.

Viagem tortuosa

A rica família sunita de al-Muderis era considerada "sadeh" --descendente de uma linhagem do profeta Maomé. O jovem Munjed cresceu com empregados e motoristas, parte do que era chamado a geração Nestlé --que, como o chocolate, pode derreter ao primeiro sinal de dificuldade.

Aos 12 anos, depois de assistir a "O Exterminador do Futuro", ele ficou fascinado pela ideia de membros robóticos. Foi estudar medicina na Universidade de Bagdá, embora a primeira guerra do Golfo tenha retardado sua formatura até 1996. Casou-se com uma colega e teve um filho chamado Ahmed, mas o casamento foi rapidamente anulado.

Al-Muderis estava no primeiro ano de residência no Centro Médico Saddam Hussein em Bagdá em 1999, quando, segundo ele, a polícia militar invadiu o centro cirúrgico com uma fila de soldados prisioneiros. A polícia mandou os médicos amputarem as orelhas dos soldados, citando um decreto de 1994, lembrou al-Muderis. Quando o primeiro cirurgião se recusou, mencionando o juramento de Hipócrates, foi morto a tiros no estacionamento do hospital.

"Se alguém tiver a mesma opinião que ele, dê um passo à frente", al-Muderis lembrou que um oficial disse. "Do contrário, cumpram a ordem."

Al-Muderis, então com 27 anos, disse que conseguiu entrar no vestiário das mulheres e se trancar em um cubículo. Trepado no vaso, ele escutou as vozes e passos com horror. Cinco horas depois, ouviu um grupo de mulheres entrar e lavar as mãos, e decidiu que era seguro sair.

Menos de uma semana depois, sua família o fez escapar para a Jordânia, com cerca de US$ 20 mil presos à barriga. De lá, disse al-Muderis, ele voou para a Malásia, depois Indonésia, onde deu seu passaporte e US$ 2 mil por um lugar em um barco de pesca que ia para a Austrália. Ele descreveu uma dura viagem de 36 horas em que cuidou de passageiras grávidas e idosas em uma massa de seres humanos, urina e vômito.

Depois de atracar na ilha de Natal, um território australiano no oceano Índico, al-Muderis foi sugado pelo sistema de refugiados da Austrália e recebeu um número: 982. Ele disse que não o chamaram pelo nome durante quase um ano no Centro de Detenção de Imigrantes Curtin, no remoto oeste australiano.

Em sua autobiografia, "Walking Free" [Andando livremente], escrita com Patrick Weaver, al-Muderis conta histórias de condições esquálidas, abuso emocional e racial e crueldade com crianças. No livro, ele lembra que uma autoridade de imigração lhe disse secamente que "o povo australiano não quer você aqui".

"Você ficará detido aqui indefinidamente", a mulher teria dito. "Mas se você preferir voltar para seu país podemos ajudar na viagem."

Ele recebeu o refúgio em agosto de 2000. Quando perguntou sobre um emprego no Hospital Real de Perth, disse al-Muderis, disseram-lhe que sua licença médica iraquiana não valia quase nada lá.

Ele se mudou para Melbourne e se casou com uma refugiada iraquiana que conhecera na viagem de barco. Em um ano ele recebeu a credencial de médico. Trabalhou em um departamento de emergências, com um horário puxado que ele culpou por seu divórcio alguns anos depois, após o nascimento de dois filhos, Ahmed e Dean.

Mais tarde ele se casou com uma médica de origem russa, Irina, com quem tem duas filhas: Sophia, 8, e Amelia, 1. Em 2009, mudou-se para Berlim durante um ano para estudar osseointegração.

Entre seus pacientes estava Michael Swain, um soldado britânico que perdeu as duas pernas por causa de uma bomba talibã no Afeganistão e hoje é um ciclista de longa distância.

"Ele é uma figura, francamente", disse Swain sobre o médico. "É engraçado, meio bobo também. Como nós, soldados."

Voltando ao Iraque

Quando al-Muderis recebeu o primeiro telefonema do gabinete do primeiro-ministro iraquiano, em fevereiro, ele brincou que o convite era uma armadilha --um complô para matá-lo por ter fugido duas décadas antes. Ele foi, de todo modo, pela curiosidade insaciável e uma longínqua sensação de dever.

Al-Abadi disse que seu objetivo era colocar os soldados amputados de volta no campo de batalha. "É muito importante para eles psicologicamente", explicou ele ao médico. "Se eles estiverem aptos, poderão lutar de novo."

Al-Muderis deverá voltar a Bagdá em agosto para operar pelo menos 50 pacientes. Durante a visita em maio, ele e dois assistentes australianos examinaram pacientes e fizeram raios X em busca de candidatos a cirurgia.

Ele falou com pacientes em árabe rápido, às vezes pontuado por uma palavra em inglês: "Really?" [É mesmo?]

Um homem de meia idade não tinha uma perna e lutava para fazer a outra funcionar. Seus ferimentos lhe haviam roubado algo fundamental: ele conseguia se agachar ou deitar, mas não ficar sentado. Mas o homem ainda trabalhava todas as manhãs em uma pastelaria.

Al-Muderis, balançando a cabeça e xingando enquanto entrevistava o homem sobre sua situação, prometeu operá-lo para lhe dar maior flexibilidade, mais curvatura, por meio do quadril. "Vou dar um jeito em parte desse sofrimento", explicou.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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