Aumento do turismo 'bate e volta' ameaça identidade e preocupa moradores de Veneza

Jason Horowitz

Em Veneza (Itália)

  • Andrew Testa/The New York Times

    17.jul.2017 - Cruzeiro atravessa canal de Veneza, na Itália, que tem sido 'invadida' pelos turistas que ficam na cidade apenas por um dia

    17.jul.2017 - Cruzeiro atravessa canal de Veneza, na Itália, que tem sido 'invadida' pelos turistas que ficam na cidade apenas por um dia

"Pessoal, vocês apenas digam 'scusi' e sigam em frente", orientou uma jovem americana a seus amigos, apanhados em um dos engarrafamentos de turistas que entopem as ruas estreitas de Veneza, sufocam suas praças gloriosas e empurram os moradores desta mágica cidade flutuante para a terra seca. "Não temos tempo!"

Nem Veneza, como teme o governo italiano.

Não olhe agora, mas Veneza, que já foi uma grande potência marítima e mercantil, corre o risco de ser conquistada por viajantes de um dia.

A trilha sonora da cidade hoje são as rodinhas de bagagens batendo nos degraus das pontes, enquanto falanges de turistas marcham sobre os canais da cidade. Fragmentos de dialeto veneziano ainda podem ser ouvidos entre os gondoleiros que conduzem casais tirando selfies. Mas a língua franca é uma confusão de inglês, chinês e qualquer outro idioma que os meganavios de cruzeiro e voos econômicos tenham despejado naquela manhã. Hotéis substituíram as casas.

As autoridades italianas, lamentando o que chamam de "turismo de baixa qualidade", estão pensando em limitar o número de turistas que podem entrar na cidade ou em suas praças famosas.

Andrew Testa/The New York Times
16.jul.2017 - Turistas lotam Praça de São Marco

"Se você chega num grande navio, desce, tem duas ou três horas, segue alguém que segura uma bandeira até a Piazzale Roma, Ponte di Rialto e São Marcos e dá meia volta", diz Dario Franceschini, o ministro da Cultura da Itália, que lamentou o que ele chama de turismo "coma e corra" que baixou tanto o nível da cidade que afunda.

"A beleza das cidades italianas não é só a arquitetura, mas também a atividade real do lugar, as lojas, as oficinas", acrescentou Franceschini. "Precisamos salvar essa identidade."

Os moradores, ou o que resta deles, sentem-se inundados pelos cerca de 20 milhões de turistas anuais. As lojas decidiram colocar nas vitrines placas indicando a direção da Praça de São Marcos ou da Ponte di Rialto, para que as pessoas parem de entrar só para perguntar o caminho.

A maior parte do nervosismo se concentra nos navios de cruzeiro que passam pelo Grand Canal, escondendo os monumentos como um eclipse que apaga o sol.

Alguns dos cerca de 50 mil venezianos que restam na cidade, contra 175 mil em 1951, organizaram associações contra os "Grandes Navios". Elas vendem camisetas que mostram os navios de cruzeiro com dentes de tubarão ameaçando os pescadores. Em junho, quase todos os 18 mil venezianos que votaram em um referendo não oficial sobre os cruzeiros disseram que querem vê-los fora da laguna.

"Um problema são os navios", disse Franceschini, que chamou sua passagem diante da Praça de São Marcos de "um espetáculo inaceitável".

Mas os navios trazem dinheiro, e como Veneza não é a potência comercial de outrora, precisa de todos os euros que puder conseguir. Os navios não apenas trazem taxas para a prefeitura, como também criam empregos em toda uma cadeia de abastecimento, beneficiando mecânicos, garçons e táxis aquáticos. Os gondoleiros que vestem suas camisas listradas de manhã cedo e passam filtro solar nas cabeças calvas têm trabalho constante.

Quando um visitante, ou pelo menos este visitante, chega à estação de trens de Veneza e encontra aquela icônica avenida aquática, tem a estranha sensação de estar na versão Las Vegas de Veneza, e não na real. Talvez seja toda a bagagem, as sacolas de compras, a falta de italianos.

Os turistas que procuram suvenires para levar para casa --máscaras venezianas, gôndolas de brinquedo, contas ou vasos que imitam vidro de Murano, chapéus listrados de marinheiro, camisas de futebol variadas, aventais ou bolsas com tema veneziano dos gigantes da moda italiana-- têm sorte. Mas ficou cada vez mais difícil encontrar uma butique local dirigida por um jovem empresário. Os jovens estão partindo, na maioria.

"É cada vez mais difícil viver aqui", disse Bruno Ravagnan, um morador de 33 anos, enquanto pegava um ônibus aquático lotado de turistas com malas.

Muitos moradores de Veneza residem no bairro de Castello, longe o suficiente da Praça de São Marcos, o centro de gravidade turística, para desfrutar de uma vida aparentemente normal. Mas só aparentemente.

"Se você quiser comprar 'prosciutto', não pode porque a 'salumeria' fechou", disse Tommaso Mingati, 41.

Andrew Testa/The New York Times
15.jul.2017 - 'Salumeria' fechada em Veneza

A família dele mantém um pequeno apartamento aqui, mas, como a maioria dos ex-residentes, mudou-se para Mestre, a área no continente que nunca foi chamada de 'Rainha do Adriático'. Enquanto sua mãe lamentava que a cidade se tornou uma "Disneylândia marítima", Mingati disse que a expansão do império dos "bed-and-breakfast" ['quarto e café da manhã'] já obriga as pessoas a deixarem Mestre.

Todas essas pensões e os cerca de 2.500 hotéis da cidade produzem muitas toalhas e lençóis que exigem lavanderia. Veneza não tem mais capacidade para essa empreitada. Por isso, de madrugada, barcos carregam a roupa suja e o lixo para Tronchetto, uma ilha artificial e estacionamento de caminhões que vêm do continente.

Em troca, eles entregam toalhas limpas e também um número incalculável de litros de água potável, alimentos, garrafas de Aperol para fazer o onipresente Aperol Spritz e tudo o mais que é consumido no interior da laguna.

Durante um fim de semana por ano, na Festa do Redentor, em julho, os venezianos recuperam a cidade. Eles retornam de Mestre para tomar vinho nas margens do Grand Canal e esperar pelo show de fogos de artifício que causa vergonha ao de Grucci em Nova York.

Neste ano, a comemoração coincidiu com a Bienal de Veneza, que atrai milhares de visitantes sofisticados e viajados para verificar as últimas da arte, dança e teatro. Os moradores e os amantes da arte desenvolveram uma espécie de aliança contra as multidões que marcham em São Marcos.

Andrew Testa/The New York Times
18.jul.2017 - Barcos abastecem Veneza com suprimentos para turistas e moradores

"Somos um modelo do que pode ser", disse Paolo Baratta, o presidente da Biennale, enquanto assistia aos fogos do terraço da sede do festival. As pessoas que desembarcam dos navios "não estão preocupadas com o que acontece em Veneza", disse ele.

À noite, muitos turistas voltam aos navios ou se recolhem depois de jantar cedo. O resultado é um alívio momentâneo, mas também, como Veneza está nos meses mais lentos do inverno, um retorno no tempo a uma outra Veneza.

Para mim, é a que conheci há 20 anos, antes do Google Maps, quando pude me perder e tropeçar em "campos" aparentemente desertos ou esquecidos. À noite, longe do centro da cidade, alguns turistas que comemoravam seu casamento em um café qualquer não eram incômodos, mas encantadores.

Essas horas agradáveis se estendem até de manhã cedo, antes que os turistas despertem, quando a própria Praça de São Marcos fica vazia, exceto pelos pombos e os que levantam cedo para trabalhar.

Essas horas, com as sombras ainda compridas e a luz se refletindo na laguna e nas janelas em arcos, lembram-me do que Raffaelle Nocera, que parecia deprimido sobre a situação da cidade, me disse quando navegava um ônibus aquático pelo Grand Canal: "Se você se levantar bem cedo, terá Veneza inteira só para você".

Isso lembra por que é tão válido proteger, e por que os italianos vêm assumindo uma posição.

"Hoje é a Praça de São Marcos ou a Ponte di Rialto", disse Franceschini. "Daqui a alguns anos o problema pode se espalhar."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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