Vilarejos da Rússia, juntamente com sua cultura, estão desaparecendo

Neil Macfarquhar

Em Baruta (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    Antonina Lebedeva, 73, cuida dos túmulos de seus parentes na igreja da Intercessão em Baruta, na Rússia

    Antonina Lebedeva, 73, cuida dos túmulos de seus parentes na igreja da Intercessão em Baruta, na Rússia

Com suas sinuosas estradas de terra emolduradas por lilases, casas pitorescas de madeira e sua elegante igreja de cúpula em formato de cebola, a pequena aldeia rural de Baruta já foi no passado um verdadeiro cartão postal da felicidade bucólica da Rússia.

Hoje, não mais. Há mais gente enterrada no lotado cemitério da igreja do que morando no vilarejo. A agricultura também está desaparecendo aos poucos —telhados de belos celeiros de pedra desabaram, enquanto florestas indomadas invadem os campos do entorno.

Com o crescimento natural da população da Rússia entrando em um contínuo processo de declínio, vilarejos como o de Baruta estão desaparecendo da vastidão continental do país.

"Já faz um bom tempo que não temos um casamento ou um batizado —nós basicamente temos funerais", disse um habitante grisalho, Alexander Fyodorov, 59, um dos somente 17 homens que restaram do que já foi um próspero coletivo de aproximadamente 500 agricultores.

O presidente Vladimir Putin cita o crescimento populacional robusto como um dos pilares para restaurar a posição da Rússia no topo da ordem mundial.

"A demografia é uma questão vital que influenciará o desenvolvimento de nosso país durante décadas por vir", ele disse recentemente em uma conferência sobre economia, dizendo também que é uma importante referência de bem-estar social e econômico.

Contudo, há uma pronunciada discrepância entre os termos positivos nos quais Putin e seus assessores costumam discutir tendências demográficas e a realidade dos números.

Basicamente, os russos estão morrendo mais rápido do que estão nascendo, segundo os demógrafos. Considerando a hostilidade geral em relação à imigração, a questão é até que ponto a população de 146 milhões de habitantes, incluindo a Crimeia anexada, pode encolher.

O número de mortes superou o número de nascimentos em 2016 em alguns milhares, e o prognóstico para os próximos anos é ruim. De 2013 a 2015, um crescimento natural extremamente modesto culminou em 2015 com somente 32.038 nascimentos a mais do que mortes.

"Estatística e propaganda são coisas muito diferentes", disse Natalya V. Zubarevich, uma especialista em geografia social e política na Universidade Estatal de Moscou.

James Hill/The New York Times
Casa abandonada no vilarejo de Baruta

No cenário internacional, a Rússia tem exibido seu recém-restaurado poder militar e político em lugares como Síria e Ucrânia, e está usando táticas de guerra cibernéticas para distorcer a política nos Estados Unidos e na Europa. Mas com frequência ela parece muito menos robusta em casa.

Em especial, suas áreas rurais —por muito tempo consideradas o manancial da cultura e da identidade russas— estão morrendo.

Valentin Kurbatov, um especialista em prosa rural, se mudou para a região de Pskov, no noroeste da Rússia, em 1964. Naquela época, a região inteira era conhecida por cultivar linho, planta que dá origem ao tecido.

"O linho tem essa cor azul celestial, e quando vim para cá os céus se refletiam nos campos de linho", disse Kurbatov durante uma longa conversa que por fim terminou porque ele disse ser angustiante demais. "Agora o mato e os pântanos voltaram. Mesmo quando você anda de trem até Moscou, tudo que você vê é essa floresta escura sem nada nela."

Assim como um pneu que vaza lentamente, vilarejos como o de Baruta, cerca de 600 km a noroeste de Moscou em Pskov, começaram a murchar após o fim da União Soviética.

A Fazenda Coletiva Liberdade, que era o cimento que unia o vilarejo, se desmembrou. Os jovens, que agora não estavam mais atados às rígidas regras de residência soviéticas, foram para as cidades grandes com perspectivas melhores.

A escola fechou e a igreja parou de realizar missas regulares. O único ponto de encontro que sobrou para os 160 habitantes fixos é uma pequena mercearia que estoca muita vodca e mais um pouco de tudo.

"Assim como os peixes buscam águas mais profundas, as pessoas buscam lugares melhores para viver", disse Fyodorov, o fazendeiro, mostrando a sucinta sabedoria rural que é tão cara aos russos.

James Hill/The New York Times
Clientes compram na única loja de Baruta

Em termos de perda populacional, Pskov, que faz fronteira com a Letônia e partes da Estônia, está entre as regiões mais afetadas da Rússia. A população teve seu pico em torno de 1,8 milhão de habitantes nos anos 1920, disse Andrei Manakov, um demógrafo da Universidade Estatal de Pskov. Ela diminuiu para 642 mil, e a projeção é de que caia para cerca de 513 mil até 2033.

Os pesquisadores estimam que dos 8.300 vilarejos da região em 1910, 2 mil deles não têm mais habitantes permanentes.

As fábricas da indústria de defesa da região fecharam nos anos 1990, mas os habitantes esperavam que a área fosse se tornar uma porta de entrada para a Europa com a adesão à União Europeia dos países bálticos vizinhos recém-independentes.

Mas a região não conseguiu virar um grande centro, e então veio a crise em torno da Ucrânia em 2014, que trouxe tensão às relações e interrompeu o comércio.

"A fronteira se tornou muito hostil", disse Lev M. Shlosberg, um político da oposição no parlamento local. "Por causa da política, a região está virando um lugar desolado".

Em Baruta, Dmitry Mikhailov, 40, está entre os mais jovens habitantes permanentes. Quando lhe perguntamos como era a vida lá, ele disse: "É pão, mas sem manteiga. Não é totalmente horrível, mas também não tem nada de muito bom".

A região de Pskov tem quatro maternidades, que uma década atrás eram em 26. "Nós entendemos que a região de Pskov está desaparecendo", disse Shlosberg.

A tendência é a mesma em toda a Rússia. Pelas projeções mais otimistas dos demógrafos, a população até 2050 permanecerá a mesma, em cerca de 146 milhões, se a imigração vinda da Ásia Central —que também vem caindo— compensar o baixo índice de natalidade. Números menos otimistas preveem a população em cerca de 130 milhões até 2050, e os mais pessimistas dizem que serão menos de 100 milhões.

"Nós entendemos que se a população for pequena, a Rússia não conseguirá ter um papel na política, na economia mundial", disse Manakov, da Universidade Estatal de Pskov. "É por isso que as autoridades querem que o índice de natalidade suba".

Tradutor: UOL

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