Tropas dos EUA treinam na Europa em meio a tensão que remete à Guerra Fria

Eric Schmitt

Campo de Treinamento Novo Selo (Bulgária)

  • GORDON WELTERS/NYT

    Militares treinam em campo de treinamento na Bulgária

    Militares treinam em campo de treinamento na Bulgária

Após mais de uma década combatendo os insurgentes islâmicos no Iraque e no Afeganistão, o Exército americano se esforça para reaprender técnicas da Guerra Fria para enfrentar potenciais ameaças da Rússia no Leste Europeu, território antes defendido pelo Exército soviético.

Os ajustes às novas ameaças são variados. Centenas de tanques e veículos de combate blindados da cor do deserto devem ser repintados de verde-escuro para se confundirem com o terreno europeu.

Soldados acostumados a operar em bases grandes e seguras no Iraque e no Afeganistão agora devem praticar usando redes de camuflagem para disfarçar suas posições e movimentar-se em pequenos grupos para evitar drones de vigilância sofisticados, que podem dirigir ataques de foguetes ou mísseis contra tropas ou postos de comando.

As tropas americanas não têm mais direito de passagem no ar ou em terra, como nos vales do Iraque e nas montanhas do Afeganistão. Na Europa de hoje, as fronteiras contam em todas as questões militares.

Em uma sexta-feira recente, um comboio de suprimentos do Exército americano que levava munição da Alemanha à Romênia foi detido na fronteira austríaca até a segunda-feira, por causa de restrições a comboios militares durante o movimentado período das férias de verão.

GORDON WELTERS/NYT
Soldados observam treinamento de salto de paraquedas em campo de treinamento na Bulgária

Um exercício de dez dias no mês passado envolvendo 25 mil soldados americanos e aliados espalhados por três países do antigo Pacto de Varsóvia --Hungria, Romênia e Bulgária-- ofereceu uma janela sobre como uma geração de comandantes do Exército veteranos ensaia táticas e estratégias atualizadas, antes usadas para conter as tropas, tanques e artilharia soviéticos, incluindo ataques aéreos noturnos com centenas de paraquedistas.

Os comandantes estão treinando uma força mais jovem que enfrentou principalmente inimigos terroristas obscuros no Oriente Médio e no Sudeste Asiático depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

"Temos de aprender a nos adaptar a esse novo ambiente", disse o coronel Clair A. Gill, formado em West Point em 1994 e comandante da 10ª Brigada de Aviação de Combate em Fort Drum, Nova York, que voa helicópteros Apache, Black Hawk e Chinook. "Acho que ainda não chegamos lá."

Sem dúvida é esperado que os comandantes argumentem que as guerras no Iraque e no Afeganistão ainda exigirão milhares de tropas americanas em um futuro previsível. Mas os EUA e seus aliados da Otan recentemente terminaram o posicionamento de cerca de 4.500 soldados nos três países bálticos e na Polônia, e estão se preparando para manter milhares de tropas blindadas no continente como dissuasor contra agressões russas.

Essas tensões fazem parte de uma crescente rivalidade e mobilização militar, com ecos da Guerra Fria, entre Washington e Moscou.

Moscou está enviando forças para exercícios em sua fronteira ocidental com a Europa e também se mobiliza na Síria e no leste da Ucrânia, e está aumentando seu arsenal nuclear e elementos de guerra cibernética no que autoridades militares dos EUA dizem ser uma tentativa de provar sua relevância após anos de declínio econômico e recessão. A Rússia programou um grande exercício em setembro que poderá envolver até 100 mil soldados e outras forças de segurança.

Em resposta, o Pentágono intensificou os rodízios e exercícios de treinamentos no território dos mais novos aliados da Otan no leste, como esta base na Bulgária. Os aliados aumentaram as patrulhas por ar, mar e submarinas do mar Báltico ao mar Negro para enfrentar um aumento semelhante de forças russas na periferia da Otan.

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Soldado treina em base na Bulgária

A ameaça militar russa mudou de maneira notável desde o colapso da União Soviética em 1991. O presidente Vladimir Putin, da Rússia, investiu pesado em forças de infantaria, tanques e artilharia modernos. Moscou também aumentou sua galáxia de drones de vigilância, capazes de identificar alvos e coordenar ataques lançados por outras armas.

A chamada guerra híbrida da Rússia combina poderio militar convencional com a capacidade de manipular eventos usando uma mistura de subterfúgios, ciberataques e guerra de informação. No início deste ano, por exemplo, promotores da Lituânia abriram uma investigação criminal de um falso relato de estupro por soldados alemães estacionados na Lituânia como parte de uma missão da Otan para dissuadir a Rússia. Moscou negou seu envolvimento em qualquer campanha de desinformação destinada a desacreditar as tropas aliadas.

O tenente-general Frederick B. Hodges, chefe das forças do Exército dos EUA na Europa, descartou as perspectivas de uma guerra entre o Ocidente e a Rússia, mas disse que Putin provavelmente continuará intensificando esforços para manter os Exércitos e governos ocidentais em desequilíbrio. "Ele vai estar por aí durante muito tempo", disse Hodges, que se aposenta no mês que vem após uma carreira de 37 anos no Exército. "Ele é à prova de golpes."

Com isso em mente, autoridades graduadas de planejamento e inteligência observam de perto as operações russas na Crimeia, no leste da Ucrânia e na Síria, todos terrenos de provas para novas táticas e armamentos russos.

Jovens oficiais do Exército americano estão mais uma vez usando fichas de anotações ou seu equivalente digital para estudar a estrutura e as capacidades das unidades do Exército russo, assim como oficiais americanos fizeram com gerações anteriores de forças e armas russas nos anos 1970 e 80.

Os centros de treinamento do Exército na Califórnia, na Louisiana e na Alemanha hoje incluem mais cenários que imitam as forças russas, mesmo que os planejadores de cenários tomem cuidado para dar às forças opositoras nomes fictícios, para não aguçar os atritos diplomáticos entre Washington e Moscou.

A presença do Exército dos EUA na Europa está muito distante da do tempo da Guerra Fria: hoje são 30 mil soldados, comparados com 300 mil na época, segundo Hodges. Por isso, o general está dando muita ênfase à "velocidade de reunião" --a rapidez com que as tropas e seu equipamento podem se mover centenas de quilômetros e estar preparadas para lutar a qualquer momento.

O exercício de US$ 40 milhões feito aqui, batizado de Saber Guardian [Guardião do Sabre], o maior feito na Europa neste ano, incluiu o transporte de mais de mil soldados e centenas de veículos por cerca de 2.000 km através da Europa.

Centenas de tropas aliadas --incluindo soldados americanos com o rosto pintado de camuflagem verde e preta-- e seus tanques de 60 toneladas cruzaram o rio Danúbio sobre pontes provisórias, repelindo ataques fictícios do outro lado.

Para os Exércitos do Leste Europeu, muitos dos quais ainda usam equipamento de fabricação russa, esses testes com forças americanas e europeias melhoram a coordenação e a confiança e são garantias concretas de que os aliados os protegem.

"Ganhamos uma espécie de confiança de que não estamos sozinhos aqui no flanco oriental da Otan", disse o brigadeiro-general Theo Toader, oficial da Força Aérea da Romênia que dirigiu o exercício em seu país a partir de uma ampla base aérea próxima a Constanta, no mar Negro.

De todo modo, houve alguns obstáculos, mas esses exercícios se destinam a revelá-los. Por exemplo, Hodges mais de uma vez ficou claramente frustrado por alguns atrasos de suas forças ao cruzar o continente. "Precisamos ter maior liberdade de movimento", disse ele.

Vários dos coronéis em rápida ascensão aqui --a próxima geração de generais do Exército dos EUA-- iniciaram sua experiência com a ameaça russa, mas passaram os anos de formação de suas carreiras lutando contra a Al Qaeda e o Estado Islâmico, e agora fecham o círculo.

Gill foi nomeado para a 101ª Divisão Aerotransportada depois de se formar em West Point, quando a Rússia ainda era considerada uma ameaça. Depois dos ataques do 11 de Setembro, porém, Gill, um dos melhores pilotos de helicóptero Black Hawk do Exército, passou a maior parte de sua carreira em pequenas unidades altamente secretas de Operações Especiais, combatendo militantes islâmicos.

Quando ele assumiu o comando da 10ª Brigada de Aviação de Combate, há um ano, reconheceu que demorou um pouco para se adaptar ao combate em batalhas mais tradicionais.

Agora no comando de 2.200 pessoas e mais de 80 helicópteros, Gill disse que um grande desafio é manter a prontidão para combate reforçada mesmo quando alguns soldados terminam seu alistamento e novos soldados entram na brigada. Cerca de 40% de sua unidade foram substituídos desde outubro passado.

"Devemos estar prontos para ir a qualquer lugar a qualquer momento", disse Gill, 45, que nasceu em Patton, na Pensilvânia.

O coronel Patrick Ellis estudou russo em West Point, onde foi colega de Gill. Ele acreditava então que precisava aprender a língua de seu potencial adversário. Depois dos ataques de 11 de Setembro, Ellis foi enviado diversas vezes ao Afeganistão com unidades especiais de Patrulheiros do Exército.

Hoje Ellis, 45, que é filho de um oficial da Marinha de Alameda, na Califórnia, comanda o 2º Regimento de Cavalaria --cerca de 4.800 soldados e 330 veículos de combate. Conforme suas tropas dirigiam da Alemanha à Bulgária, paravam periodicamente e interagiam com as populações locais, permitindo que as crianças subissem nos veículos de combate Stryker e explicando aos moradores por que estavam lá.

"Sabemos quando acordamos todas as manhãs quem é a ameaça", disse Ellis. "Estamos focados na ameaça russa."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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