A ferida exposta dos afroamericanos transgênero: "Somos considerados uma piada"

John Eligon

  • AJ Mast/The New York Times

    Elle Hearns

    Elle Hearns

Quando Elle Hearns assistiu ao vídeo que lhe enviaram por uma mídia social, realmente doeu.

O vídeo trazia um comediante negro, Lil Duval, no "The Breakfast Club", um popular programa matutino de rádio em Nova York que atende uma audiência afroamericana, brincando que se ele descobrisse que uma parceira sexual era uma mulher transgênero, ele ia querer matá-la se ela não tivesse lhe contado antes.

Hearns é uma mulher negra transgênero que dedicou boa parte de sua vida nos últimos anos a defender os negros —homens, em sua maioria— de perseguição, brutalidade e mortes que eles enfrentam nas mãos de policiais. No entanto, lá estava um homem negro, sendo entrevistado por três apresentadores negros, pregando o que pareceu a Hearns como "um ataque contra toda uma comunidade".

"Fiquei com vergonha, fiquei constrangida, fiquei com raiva", ela disse.

A dor de Hearns é essencialmente por uma deslealdade que, segundo os negros transgêneros, os afeta há muito tempo.

Com poucas exceções, homens e mulheres transgênero dizem receber mais ódio por parte de negros do que de qualquer outra pessoa, ainda que tenham estado nas linhas de frente de protestos contra questões que afetam todos os afroamericanos.

"Nós estivemos na linha de frente junto com tanta gente lutando, e agora que chegou a hora de as pessoas se juntarem à nossa luta, não tem ninguém", disse Atlantis Narcisse, 45, fundadora da Save Our Sisters, uma organização de apoio a mulheres negras transgênero em Houston. "Eles se revoltam com um traficante de drogas sendo morto ou um homem negro sendo espancado, mas não se revoltam quando uma mulher negra transgênero é assassinada".

Narcisse, uma mulher negra transgênero, disse ter recebido mais apoio dos brancos, e ela se sente desconfortável em torno de afroamericanos porque não acredita que eles a apoiarão caso ela seja atacada.

"Somos consideradas uma piada", ela disse. "Eles ainda nos veem como homens se fantasiando, brincando com roupas de mulher, o que não é o caso".

Muitas das visões que os negros têm sobre transgêneros vêm em parte do papel central que a religião e a igreja exercem na vida negra, segundo vários transgêneros. Isso também vem da ênfase na hipermasculinidade que existe na cultura negra, que tem raízes profundas no fato de os homens negros terem tido de usar a força física para sobreviver a gerações de opressão, segundo eles.

"Ser visto como afeminado se você é visto como homem negro é sinal de fraqueza", disse Kiara St. James, diretora do New York Transgender Advocacy Group.

Essa atitude poderia resultar em consequências graves para os transgêneros negros.

Alguns homens negros que entram em relacionamentos conscientemente com mulheres transgênero podem ficar envergonhados quando os outros descobrem, tornando-se violentos com suas parceiras, segundo ativistas. St. James se lembra de ter sido sexualmente agredida nas ruas de Flatbush, no Brooklyn, por um conhecido. Quando ela pediu ajuda a pessoas que passavam na rua, seu agressor disse a elas que ela era transgênero, e as pessoas em vez de ajudar zombaram dela.

Embora os números brutos sejam pequenos, estimativas sugerem que pessoas transgênero sejam mortas em um índice muito mais alto que a população geral. Enquanto a probabilidade de um jovem adulto ser assassinado é de 1 em 12 mil, ela aumenta para 1 em 2.600 entre mulheres negras jovens transgênero, de acordo com uma análise feita pela organização de notícias Mic. Pelo menos 111 pessoas que eram transgênero ou não se identificavam com nenhum gênero foram mortas entre 2010 e 2016, segundo o relatório, com quase 3 em cada 4 delas sendo mulheres negras ou pessoas que se apresentassem como afeminadas.

Os comentários de Lil Duval no programa de rádio, que foi ao ar no dia 28 de julho, refletem essas tristes estatísticas. O programa matutino na Power 105.1 —com apresentação de DJ Envy, Angela Yee e Charlamagne Tha God— é conhecido por suas entrevistas provocativas com celebridades, que vão desde rappers até Hillary Clinton, que esteve no programa algumas semanas antes das eleições do ano passado.

A controvérsia em torno da entrevista de Duval começou quando um dos apresentadores perguntou o que ele pensava sobre a proposta do presidente Donald Trump de proibir transgêneros nas forças armadas. Quando ele brincou que na verdade mulheres transgênero eram homens, os apresentadores riram junto, mas logo o corrigiram quando ele se referiu a pessoas transgênero usando um termo pejorativo. Mas quando o DJ Envy perguntou a Lil Duval o que ele faria se uma mulher com quem tivesse feito sexo dissesse que ela era transgênero, ele respondeu: "Pode parecer zoado, mas não estou nem aí: ela morre".

Os apresentadores logo lhe disseram que isso seria um crime de ódio e que ele não poderia fazer aquilo. Mas Lil Duval continuou fazendo piadas e disse que tinha a ver com manipulação e com privá-lo de sua possibilidade de escolha.

Charlamagne Tha God, o apresentador mais popular do programa, concordou com esse argumento, dizendo que ao não revelar que ela é transgênero, a mulher está "tirando de uma pessoa o poder de escolha", e acrescentou que "você deveria ir preso ou algo assim".

Em uma declaração ao "The New York Times" divulgada através de seu assessor de imprensa no sábado, Charlamagne Tha God condenou qualquer preconceito e crime de ódio, enfatizando que ele acreditava de coração que a violência contra transgêneros era errada.

"Ninguém deveria ser morto só por existir", ele disse.

Ele acrescentou que o que precisava ser discutido em maior profundidade era se pessoas transgênero deveriam revelar suas identidades de gênero a parceiros sexuais.

"Para mim, se você tira o poder de escolha de alguém, isso é criminoso", ele disse. "Cabe a mim decidir se é isso que eu quero. Mas se uma pessoa trans não revela até que os atos sexuais tenham ocorrido, ela não deveria ser morta por isso".

Os comentários no programa teriam sido mais perturbadores se não fossem tão previsíveis, disse Narcisse.

"É isso que os negros são ensinados a pensar sobre nós —que estamos enganando as pessoas", disse Narcisse. "Como posso ficar brava com uma mensagem que está sedimentada em uma comunidade há anos?"

Após o programa, Hearns passou horas discutindo sobre como responder junto com organizadores do Marsha P. Johnson Institute, uma organização que ela está criando para defender os direitos das mulheres negras transgênero. Eles circularam um abaixo-assinado pedindo para que a estação de rádio e a empresa que a controla, a iHeartMedia, tirasse do ar o "The Breakfast Club".

"Acho que a única forma de avançar na proteção de comunidades sub-representadas é realmente protestando e lutando contra as normas culturais", disse Hearns.

Em resposta ao programa, Ashlee Marie Preston, uma mulher negra transgênero, interrompeu Charlamagne Tha God enquanto ele falava em um evento na semana passada. A reação que ela atraiu para seu protesto, disse Preston, é um indicativo do duro estigma em relação aos transgêneros que ela vê em comunidades negras.

Embora tenha dito que recebeu muitos comentários positivos por parte de negros nas mídias sociais, Preston, editora-chefe da revista feminista "Wear Your Voice", também recebeu muitas mensagens de ódio. Uma pessoa disse que os transgêneros estavam "saindo de controle". Outros estavam bravos com o fato de estarem criticando um programa negro e defenderam Lil Duval, dizendo que ele só estava dando sua opinião.

"Vocês duas deviam ter vergonha pelo constrangimento que causaram à comunidade negra", escreveu Richard Dickerson no Twitter.

A pior coisa sobre a discussão no rádio, disse Preston, foi que ela retratou as mulheres negras transgênero como calculistas e atribuiu toda a culpa a elas.

"É a mesma retórica antiquada que a polícia usa ao tentar justificar os tiros disparados contra afroamericanos quando param carros rotineiramente para verificações", ela disse. "A ideia é que se alguém mata uma pessoa transgênero, ela deve ter feito alguma coisa. Ela deve ter sido culpada de ter causado algum dano a alguém".

Tradutor: UOL

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