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Análise: Guerra da Síria se arrasta, mas o futuro de Assad parece mais garantido do que nunca

13.abr.2017 - O presidente sírio, Bashar al-Assad durante entrevista e Damasco, na Síria - SANA/REUTERS
13.abr.2017 - O presidente sírio, Bashar al-Assad durante entrevista e Damasco, na Síria Imagem: SANA/REUTERS

Ben Hubbard

Em Beirute

27/09/2017 00h01

Ainda que a sangrenta guerra que já dura seis anos na Síria esteja longe do fim, já existe um resultado se definindo: parece que o presidente Bashar Assad está aqui para ficar.

No campo de batalha, não resta ninguém que esteja disposto e seja capaz de derrubá-lo. As forças rebeldes estão minguando, e o presidente Donald Trump cancelou o programa da CIA que lhes fornecia armas e apoio. O Estado Islâmico, com sua agenda própria para governar a Síria como um califado, está sendo expulso de seus bastiões.

As potências regionais, autoridades estrangeiras e os próprios sírios estão cada vez mais operando como se ele fosse governar por anos a fio, ainda que um país bastante reduzido. Seus aliados começaram a apregoar o que eles veem como sua vitória iminente, e seu governo já fala em reconstruir um país despedaçado, tendo sediado uma feira internacional de negócios no mês passado e assinado um acordo com o Irã para reconstruir sua rede elétrica.

Até mesmo alguns antigos apoiadores dos rebeldes se cansaram da guerra e começaram a aceitar o inevitável.

Desde que o governo retomou o controle da cidade de Madaya após um longo cerco, a vida no local melhorou para aqueles que ficaram. Os atiradores foram embora, a eletricidade voltou, os alimentos voltaram a aparecer nos mercados. Os cafés reabriram e as pessoas começaram a sair.

“Estamos fartos da guerra”, disse uma professora local através de um aplicativo de mensagens, falando sob condição de anonimato para não sofrer represálias por sua oposição ao governo no passado. “Queremos viver em paz e segurança, e não podemos fazer isso a menos que estejamos do lado do regime”.

Esses desdobramentos não sugerem que Assad tenha um caminho fácil pela frente. Ele continua sendo um pária em boa parte do mundo, presidindo uma terra dividida e destruída. Se ele sair vitorioso, provavelmente terá nas mãos um Estado frágil, endividado com potências estrangeiras e sem os recursos necessários para a reconstrução.

Mas sua resistência tem ramificações sérias para o país e para o Oriente Médio, o que afeta as perspectivas de uma futura estabilidade da Síria, de refugiados voltarem para casa e do governo sírio de ter acesso a fundos internacionais para reconstruir suas cidades destruídas.

É também um triste ato final dos levantes da Primavera Árabe que estouraram em 2011. Enquanto os protestos e as insurreições armadas removeram do poder os líderes da Tunísia, do Egito, da Líbia e do Iêmen, Assad permaneceu, apesar de exercer uma violência tremenda contra seu povo.

O próprio Assad reconheceu os danos da guerra, mas argumentou que ela teria purificado o Estado ao eliminar ameaças à nação e ao unir os sírios em torno de um projeto em comum.

“Perdemos o melhor de nossos jovens e de nossa infraestrutura”, ele disse durante uma conferência em Damasco, capital da Síria, no mês passado. “Isso nos custou muito dinheiro e muito suor, por gerações. Mas em compensação ganhamos uma sociedade mais saudável e mais homogênea de verdade”.

O conflito na Síria começou em 2011 com uma revolta popular contra Assad, que suas forças de segurança tentaram suprimir com uma força esmagadora. A oposição pegou em armas, e os Estados Unidos, a Arábia Saudita e outros endossaram a causa dos rebeldes, apoiando-os politicamente e fornecendo-lhes armas e dinheiro.

Agora Assad conseguiu dispersar a ameaça rebelde, em grande parte por causa do firme apoio financeiro e militar de seus patrocinadores estrangeiros.

Seu governo controla as maiores cidades da Síria e a maior parte de seu povo remanescente, que em geral vive em condições melhores do que as pessoas no resto do país. Seus aliados—a Rússia, o Irã e o Hezbollah—ficaram do seu lado, sustentando seu Exército exaurido e ajudando-a avançar.

Mas, em vários aspectos, Assad é um chefe de Estado limitado.

Boa parte do território da Síria permanece fora de suas mãos, e potências estrangeiras cavaram esferas de influência, minando sua reivindicação de dominar toda a Síria.

As forças turcas aliadas a rebeldes locais controlam o território ao norte, e os Estados Unidos estão trabalhando com combatentes curdos e árabes contra o Estado Islâmico no leste.

Mesmo em áreas teoricamente sob controle de Assad, a Rússia, o Irã, o Hezbollah e milícias locais fortalecidas pela guerra muitas vezes exercem um controle maior do que o Estado sírio. E a Rússia assumiu a liderança na diplomacia internacional com a Síria, negociando zonas seguras com potências estrangeiras em todo o país para tentar conter a violência.

Os danos da guerra foram imensos e poderão ser um fardo para Assad e seus aliados nas próximas décadas.

Um relatório recente do Banco Mundial revelou que a perda da produção econômica do país durante os seis primeiros anos da guerra foi de US$ 226 bilhões (R$ 712 bilhões), quatro vezes seu PIB em 2010, antes do início do conflito.

E embora imagens das cidades destruídas da Síria tenham se tornado símbolos comuns dos prejuízos da guerra, o custo de fatores invisíveis como a confiança social abalada e as redes sociais destruídas poderia superar em muito os danos físicos, disse em uma entrevista Harun Onder, o principal autor do relatório.

“Com a continuidade do conflito, não é somente a destruição física, mas também a degradação no tecido social que se intensifica”, ele disse.

Só de permanecer no poder, Assad poderia entravar a reconstrução.

Autoridades nos Estados Unidos e na Europa ainda esperam que Assad deixe o cargo em um possível acordo político, mas prometeram não recompensá-lo por sua brutalidade e violações desenfreadas dos direitos humanos caso ele permaneça ajudando a reconstruir o país.

Outros países que apoiam Assad poderiam ajudar, mas seus recursos são limitados. O Irã e a Rússia estão sob sanções internacionais, e suas economias vêm sofrendo com o baixo preço do petróleo.

No mês passado, o governo realizou uma feira internacional de negócios em Damasco pela primeira vez desde 2011, recebendo empresas do Irã, do Iraque, da Rússia, da Venezuela e outros lugares. Entre os novos acordos assinados estavam contratos para a importação de 200 ônibus de Belarus e para a exportação de 50 mil toneladas de produtos agrícolas.

A permanência de Assad no poder também poderia afetar o retorno de refugiados, uma questão crítica para Estados vizinhos.

Cerca de metade da população da Síria foi deslocada pela guerra, com mais de 5 milhões de habitantes buscando refúgio em outros países. Muitos deles fugiram de ataques das forças de Assad e não têm casas para onde voltar. Outros dizem que a situação não é segura ou temem ser presos ou recrutados pelas forças de segurança de Assad.

Após anos vivendo no exílio, Bassam al-Malik, um empresário e ex-membro do principal grupo de oposição no exílio, tentou voltar para a Síria este ano para vender parte de suas propriedades. Através de um intermediário, o governo o alertou para que ele não voltasse, do contrário seria detido.

Ele disse que agora estava preso entre “o regime e a oposição”.

Alguns sírios deixaram a oposição e fizeram as pazes com um governo que parece estar vencendo.

Em 2012, Firas al-Khatib, um astro do futebol, contou a uma multidão de fãs que não jogaria para a seleção nacional da Síria “enquanto houvesse qualquer artilharia bombardeando qualquer lugar da Síria”.

No mês passado, ele voltou para Damasco e foi recebido como herói no aeroporto. “Hoje, estamos na terra de nossa pátria e a serviço de nossa pátria”, ele disse.

A equipe, que tem relações próximas com Assad, ainda está tentando se classificar para a Copa do Mundo de 2018.

Outros cidadãos, como a professora de Madaya, se contentam em apoiar qualquer um que consiga fornecer segurança e serviços básicos.

“Somos pessoas que vão para onde os ventos nos levam”, ela disse. “Durante o cerco, estivemos com a revolução. Agora estamos pendurando fotos de Bashar e cantamos para ele”.