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Destino de empresária é teste da determinação da China em relação à Coreia do Norte

Lam Yik Fei/The New York Times
Empresas ligadas a Ma Xiaohong operam de um prédio em Dandong, na China Imagem: Lam Yik Fei/The New York Times
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Steven Lee Myers

Em Dandong (China)

14/01/2018 00h01

Há não muito tempo, Ma Xiaohong era a face pública do comércio da China com a Coreia do Norte.

Aos 44 anos, ela construiu um império comercial responsável por um quinto do comércio entre os vizinhos comunistas. Ela foi nomeada para o Congresso do Povo provincial, recebeu privilégios especiais para exportação de derivados de petróleo para a Coreia do Norte e foi festejada pelas autoridades como "uma mulher de distinção".

Agora, o destino de Ma será um teste da disposição da China de apoiar os esforços de Donald Trump para sufocar as ambições nucleares norte-coreanas.

No ano passado, promotores americanos indiciaram Ma pelo uso de suas companhias para ajudar a Coreia do Norte a driblar as sanções internacionais. Após diplomatas americanos comunicarem Pequim, os chineses anunciaram sua própria investigação da principal empresa de Ma.

Mas passados quinze meses, não está claro o destino de Ma. O governo diz não ter encontrado evidência que apoiasse as acusações americanas de que ela ou seus sócios auxiliaram o programa de armas de Coreia do Norte. Apesar de ela permanecer sob investigação por "crimes econômicos", não se sabe se ela foi presa ou onde está agora.

Uma revisão do caso de Ma, envolvendo entrevistas com autoridades, diplomatas e outros, assim como pesquisas em registros de empresas, ressalta a profunda ambivalência da China enquanto sofre crescente pressão para aplicar as sanções contra a Coreia do Norte. Apesar de oficialmente a China ser contrária à busca norte-coreana por armas nucleares, ela não gosta de ser vista impondo punições a pedido dos Estados Unidos, especialmente contra seus próprios cidadãos.

Lam Yik Fei/The New York Times
Garçonete canta em restaurante de propriedade de Ma Xiaohong em Dandong, na China Imagem: Lam Yik Fei/The New York Times

O acordo de terça-feira da Coreia do Norte para envio de atletas aos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul, no mês que vem, e para realização de conversações e outros intercâmbios com o Sul, pode ser simbólico e talvez um esforço cínico para ganhar tempo. Mas sugere que o aumento da pressão diplomática e econômica, visando lhe negar os recursos materiais e financeiros necessários para desenvolvimento de armas nucleares e mísseis balísticos, pode ter surtido algum efeito sobre o líder norte-coreano, Kim Jong Un.

Kim não deu sinal de que abriria mão de suas ambições nucleares, mas após as aberturas iniciais norte-coreanas, Trump escreveu pelo Twitter que as conversações eram evidência de que "as sanções e 'outras' pressões estão começando a ter impacto sobre a Coreia do Norte".

A China demonstrou disposição em apoiar sanções mais duras pelo Conselho de Segurança da ONU ao longo do ano passado, mas o fez a contragosto. Os motivos para isso são históricos e estratégicos. A Coreia do Norte há muito considera a China sua única aliada real, por exemplo, mas alguns analistas argumentam que fatores econômicos também exercem um papel.

"Os chineses não querem ter de fazer isso", disse Ken E. Gause, um especialista em Coreia do Norte da CNA, uma organização de pesquisa em Arlington, Virgínia. "Há muito dinheiro a ser ganho naquela fronteira, e há muitas conexões entre os operadores na fronteira e seus patronos em Pequim."

O destino de Ma continua envolto em mistério. Há rumores de intrigas políticas e de prisões de autoridades na fronteira, mas poucos fatos concretos.

A China adotou medidas para o fechamento de pelo menos parte do império comercial de Ma, congelando sua participação acionária de sua principal empresa, a Dandong Hongxiang Industrial Development Company Ltd., por exemplo, segundo um registro do governo. A participação acionária de três colegas, que também foram indiciados nos Estados Unidos, foi congelada por algum tempo, mas posteriormente liberada, sugerindo que eles não mais enfrentavam acusações criminais.

Na primeira declaração do governo sobre o caso em um ano, o Escritório de Informação do Conselho de Estado respondeu às perguntas do "New York Times" dizendo que Ma e outros enfrentam investigação por "crimes econômicos".

Mas a declaração disse que, em relação à principal empresa de Ma, os investigadores "ainda não encontraram evidência de que a empresa Dandong Hongxiang e Ma Xiaohong estejam diretamente envolvidas nas atividades de desenvolvimento de mísseis nucleares da Coreia do Norte".

A sede da empresa em Dandong, na fronteira com a Coreia do Norte, está fechada desde o ano passado, quando as decorações para o Ano do Galo, que ainda estão penduradas na entrada, foram colocadas para boa sorte.

Outras subsidiárias ligadas a Ma continuaram operando até recentemente, proporcionando receita direta ao governo norte-coreano. Uma é um empreendimento conjunto com o governo norte-coreano para operação de um hotel, o Chilbosan, em Shenyang, a capital provincial a 240 km ao norte de Dandong.

Ma ainda é listada como vice-presidente do consórcio entre a Dandong Hongxiang e North Korea Liujing Economic Exchange Group. Mas após repórteres do "New York Times" visitarem e fazerem perguntas sobre os negócios de Ma, o hotel restaurante foi fechado. Isso pareceu estar de acordo com a mais recente rodada de sanções, adotada pelo Conselho de Segurança em dezembro.

A China já cortou as importações de carvão, prata e outros commodities da Coreia do Norte, segundo registros alfandegários. Apesar da Coreia do Norte continuar vendendo US$ 270 milhões em bens proibidos nos seis meses encerrados em agosto, segundo o mais recente relatório da ONU sobre as sanções, o comércio ao longo da fronteira apresentou uma queda significativa, perturbando os comerciantes e mergulhando a região em recessão.

O antes próspero comércio pela fronteira foi o que alimentou a ascensão de Ma e seu sufocamento agora parece ter contribuído para sua queda.

Ela tinha apenas 24 anos quando a Coreia do Norte, sofrendo os efeitos da fome, começou a abrir sua economia, primeiro permitindo a exportação de sucata em 1996. O que começou como um fio de água logo se tornou uma enxurrada, ela disse ao "Southern Weekly", um proeminente jornal chinês, com sua empresa comprando a sucata para revender para a China. "Então, todo dia recebíamos quase 10 mil toneladas", ela disse.

O comércio de Ma expandiu para outros produtos e commodities. Logo, ela passou a investir em empresas dentro da Coreia do Norte, incluindo uma fábrica de roupas e uma mina de ouro. O custo da segunda, ela disse, foi a entrega de 80 caminhões Steyr fabricados pela Sinotruck. Em janeiro de 2000, ela formou a Dandong Hongxiang.

Em 2010, Ma construiu um conglomerado global de empresas responsável por um quinto de todas as exportações e importações entre os dois países.

À medida que seus negócios prosperavam, ela passou a se gabar dos laços estreitos que mantinha com autoridades em ambos os lados da fronteira. Entre eles estavam Jang Song Thaek, o tio do líder norte-coreano, que foi um dos arquitetos das políticas econômicas exploradas por Ma. Em 2013, ele foi executado por traição, acusado de planejar um golpe enquanto seu sobrinho consolidava o poder.

No lado chinês da fronteira, Dandong a reconheceu como uma das 10 mulheres notáveis da cidade; em 2013, ela foi escolhida como delegada do Congresso do Povo provincial, um posto cerimonial em um país não democrático, porém um indicando suas conexões com a elite política.

Em um dia em 2006, quando a Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear, ela por acaso estava em uma reunião com executivos de uma das maiores empresas estatais do país, que expressaram orgulho com o teste. Ela descreveu os norte-coreanos como educados e conhecedores do mundo, mesmo com seu isolamento, apesar de suas viagens também terem lhe mostrado a privação enfrentada por muitos norte-coreanos comuns.

"A Coreia do Norte tem computadores, tem Coca-Cola", ela disse ao "Southern Weekly", "mas a Coreia do Norte ainda é a Coreia do Norte".

Cada nova rodada de sanções perturbava os negócios, porém abria outros caminhos. Em 2009, sob o presidente Barack Obama, os Estados Unidos impuseram sanções ao Korea Kwangson Banking Corp., um dos bancos mais proeminentes da Coreia do Norte, o acusando de financiar duas empresas envolvidas no comércio de armas e mísseis do país.

Nos meses que se seguiram, segundo promotores americanos e pesquisadores independentes, a empresa de Ma abriu ou adquiriu subsidiárias e empresas de fachada em Hong Kong e outros paraísos fiscais. A finalidade, segundo eles, era realizar transações com o banco e outras entidades norte-coreanas, assim como lavar dinheiro e importar materiais proibidos usados na fabricação de armas.

A Dandong Hongxiang adicionou 28 subsidiárias nos dois anos que se seguiram às sanções ao Korea Kwangson, segundo um relatório da C4ADS, uma organização de pesquisa em Washington dedicada a questões de segurança, e do Instituto Sejong, em Seul.

A China também proíbe essas exportações, mas as autoridades não agiram contra a Dandong Hongxiang até receberem pelos diplomatas americanos o indiciamento secreto, impetrado no tribunal de Nova Jersey em agosto de 2016, de Ma e três executivos da empresa.

O Departamento de Segurança Pública de Liaoning, onde fica Dandong, respondeu anunciando uma investigação, mas o governo não disse virtualmente nada até a declaração emitida na semana passada pelo Escritório de Informação do Conselho de Estado. Artigos que inicialmente apareceram na mídia estatal foram posteriormente censurados, sugerindo um esforço para minimizar a atenção ao caso.

Uma pista dos apuros legais de Ma veio em declarações pela Liaoning Darong Information Technology Company Ltd., da qual ela se tornou presidente do conselho diretor a partir de 2013. Em novembro de 2016, dois meses após os chineses anunciarem sua investigação, ela foi afastada pela empresa. Em um comunicado de imprensa, a empresa explicou que não foi capaz de contatar Ma Xiaohong, nem os parentes dela tinham conhecimento de detalhes da situação.

Durante recentes visitas a Dandong, poucas pessoas quiseram discutir Ma. Algumas empresas ligadas à Dandong Hongxiang continuam funcionando, incluindo uma subsidiária de transporte que ocupa um escritório com ampla vista da Ponte da Amizade que cruza o rio Yalu para a Coreia do Norte. Uma mulher que parecia encarregada se recusou de forma brusca a responder perguntas.

No final de dezembro, outro restaurante norte-coreano continuava operando, assim como uma galeria próxima que vendia pinturas de artistas norte-coreanos. Os negócios estão registrados no nome de Ma, apesar de serem administrados pelo marido dela, segundo seus funcionários. "A esposa dele foi presa, mas ele está bem", disse um.

A própria Ma parecia prever os riscos de seus negócios. "Se ocorrer alguma mudança na situação política", ela disse ao "Southern Weekly", "nossos negócios ficar em pedaços".