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Recém-libertado, fazendeiro mais controverso dos EUA tem recepção de herói

Lido Vizzutti/The New York Times
Cliven Bundy conversa com apoiadores durante festa por sua libertação em Paradise, Montana Imagem: Lido Vizzutti/The New York Times
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Julie Turkewitz

Em Paradise, Montana (EUA)

28/01/2018 00h01

Cliven Bundy foi solto da prisão, e o mais controverso fazendeiro do país chegou à cidade de fronteira de Paradise e convocou centenas de simpatizantes, um mar de criadores de gado, madeireiros e crianças fascinadas, a seguirem seus passos.

“Vão ler a Constituição”, ele disse, dizendo ao público para rejeitar o controle federal de milhões de hectares de terras americanas. Washington, ele declarou, não tem o direito de “lhes dizer como pastar seu gado, cortar sua madeira, explorar suas minas”.

Em 2014, quando a disputa dele em torno da pastagem do gado levou a um confronto armado com agentes federais, Bundy se tornou um símbolo de desafio para a população rural do Oeste, furiosa com a gestão de terras públicas pelo governo.

Quando foi solto neste mês, a questão se tornou um tema nacional. O governo Trump abriu mais terras para mineração, perfuração e corte de madeira, para alegria dos ativistas de direito de uso de terras e dos interesses comerciais, assim como desalento dos ambientalistas.

O caso de Bundy também se tornou um caso de estudo dos erros do governo. Após declarar o julgamento inválido, a juíza Gloria M. Navarro, do Tribunal Distrital Federal em Las Vegas, disse que os promotores retiveram intencionalmente uma série de informações potencialmente atenuantes da equipe legal de Bundy, cometendo “má conduta processual flagrante”. O Departamento de Justiça abriu uma investigação das ações de seus promotores, e Bundy, seus filhos Ammon e Ryan, e um apoiador chamado Ryan C. Payne, foram soltos. Navarro rejeitou as acusações contra eles de uma forma que não podem voltar a ser julgados.

Agora, a liberdade dos Bundys está se desdobrando por duas trilhas paralelas no Oeste. Em uma está Bundy, 71 anos, que deu uma “volta da vitória” no fim de semana passado, dirigindo cerca de 15 horas de sua fazenda em Bunkerville, Nevada, para fazer um discurso a pedido de um grupo chamado Coalizão dos Proprietários de Terras do Oeste.

Paradise, Montana, é uma pequena cidade entre as montanhas cobertas de neve ao norte de Missoula. É um lugar onde as pessoas há muito dizem que as restritivas políticas de terras federais estão impedindo seu ganha-pão. No fim de semana, pelo menos 300 pessoas lotaram a escola, declarando que a forte crítica da juíza era prova do que eles dizem há anos: o governo federal é corrupto e disposto a destruir pessoas do campo como Bundy.

“Ele é meu ídolo”, disse Chaleen Hill, 38 anos, que dirige uma operação de resgate de cavalos indesejados, e disse que sua família desistiu de sua fazenda depois que conflitos com o Serviço Florestal dos Estados Unidos tornaram sua administração difícil demais. Ela esteve com Bundy e prometeu “estar ao seu lado com uma arma em meu cavalo” caso o governo volte para confiscar o gado dele.

“Clive”, ela disse, apertando uma edição de bolso da Constituição entre suas mãos, “você tem um segundo para autografá-la para mim?”

Em outra trilha estão os ambientalistas, funcionários do governo e muitos outros que temem que a soltura de Bundy encorajará as pessoas que se opõem à política federal de uso de terras (a designação de um novo parque nacional, por exemplo, ou a proibição de mineração em um parque nacional) a montarem protestos armados.

“O legado disso persistirá”, disse Mark Fiege, um professor de História Ocidental da Universidade Estadual de Montana, que disse que grande parte de sua ira é voltada para os promotores federais, que arruinaram o caso.

“Parece muito claro para muitos de nós”, ele disse. “Como conseguiram estragar isso?”

A família Bundy vive no sul de Nevada há gerações, pastando gado em uma parte das centenas de milhões de acres por todo o Oeste de propriedade do governo federal.

Em 1993, Bundy se recusou a renovar sua permissão para pastagem, dizendo não reconhecer a propriedade por Washington daqueles acres. Em 2014, quando as autoridades começaram a confiscar seu gado devido aos mais de US$ 1 milhão em taxas de pastagem não pagas, centenas de simpatizantes armados se uniram a ele. Os agentes federais, em número menor, devolveram o gado e foram embora.

O confronto colocou em dúvida a capacidade do governo de assegurar o cumprimento da lei de terras públicas, uma questão que apenas aumentou quando os filhos de Bundy, Ammon e Ryan, iniciaram uma ocupação armada do Refúgio Nacional Malheur da Vida Selvagem, no Oregon, dois anos depois.

Os irmãos e cinco outros envolvidos no caso foram absolvidos em outubro de 2016 de todas as acusações federais, após argumentarem que estavam apenas protestando contra as ações do governo e não representavam uma ameaça. Depois disso, o julgamento em Nevada do pai parecia ser a última chance de o governo mostrar que a desobediência da lei de terras públicas não seria tolerada.

Clive, Ammon, Ryan Bundy e Payne foram acusados de agressão, obstrução da Justiça, extorsão, conspiração para impedir que agentes federais realizassem seu trabalho e outras acusações que os deixariam por anos na prisão.

Mas passadas semanas do julgamento, Navarro disse que os promotores retiveram pelo menos seis informações que poderiam ter auxiliado a defesa, incluindo evidência de que atiradores de elite federais estavam posicionados perto da casa de Bundy e os relatos que indicavam que “a probabilidade de violência por parte de Cliven Bundy era mínima”.

Segundo uma decisão de 1963 da Suprema Corte, os promotores são obrigados a entregar todo o material que pode ser de ajuda aos réus. A retenção das evidências pareceu reforçar a alegação de Bundy de que as pessoas reunidas não tinham a intenção de atacar os agentes federais, mas apenas protestar contra o tratamento pelos agentes, que montaram uma operação ao estilo militar em sua fazenda.

Somando-se ao fracasso dos promotores estava a divulgação do relatório de um funcionário federal chamado Larry C. Wooten, que alegou que o Birô de Gestão de Terras federal realizou a apreensão de gado por invasão mais intrusiva, opressora, em grande escala e militarista possível” na fazenda, e o que o principal promotor do governo, Steven W. Myhre, pareceu ignorar evidência disso “visando vencer”.

Em um memorando legal, Myhre escreveu que o fracasso de sua equipe em revelar materiais se deve ocasionalmente a “simples descuido”, mas que na maioria dos casos ocorre pelos promotores acreditarem que a evidência não é relevante ao caso do réu.

“O governo não reteve material visando obter uma vantagem tática”, ele escreveu. “Na verdade, o caso foi conduzido em boa fé.”

Steve Ellis, que era o vice-diretor do Birô de Gestão de Terras na época do confronto, disse em uma entrevista que “sabia que tínhamos alguns problemas”, mas reconheceu que parte da má conduta apresentada “foi simplesmente assombrosa”.

Mesmo assim, Ellis disse estar preocupado que a liberdade de Bundy possa estabelecer um precedente perigoso.

“O que isso diz?” ele disse. “Se você não gostar de uma decisão pelo Departamento do Interior, você reúne um bando armado e faz as coisas como quer?”