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Na Rússia, avenida especial ajuda privilegiados a evitarem o trânsito intenso

James Hill/The New York Times
Faixa do meio de avenida em Moscou é usada apenas por ricos e privilegiados Imagem: James Hill/The New York Times
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Ivan Nechepurenko

Em Moscou (Rússia)

13/04/2018 00h01

Ela é conhecida como 'via especial', uma avenida larga com uma faixa central, que liga o Kremlin à residência do presidente Vladimir Putin, que fica a 22 km de Moscou, em meio a um bosque de pinheiros.

Reservada pela lei para emergências, a faixa central é usada principalmente pelos ricos e privilegiados da Rússia para evitar o trânsito intenso. Ter acesso à faixa se transformou em um símbolo de status, a moeda principal na Rússia atualmente.

Mas a via, que passa pelas avenidas Kutuzovsky e Novy Arbat, também é especial de outra forma. Diferentemente da maioria das estradas e avenidas de múltiplas faixas na Rússia, essa não conta com barreiras de segurança para separação dos fluxos de tráfego e desencorajar a presença de pedestres. Ela é uma das vias com maior número de fatalidades na cidade, segundo a polícia e especialistas em trânsito.

Pelo menos cinco mortes em acidentes na via em 2017 e mais duas neste ano estiveram relacionadas com a falta de barreiras na faixa central, segundo relatos. Uma foi de Sergei V. Grachyov, um policial de trânsito de 32 anos e pai de dois filhos, que estava no meio da pista e morreu no local.

Para alguns, a existência de uma via especial sem barreiras de segurança é um reflexo da Rússia atual, onde uma cultura de privilégio define a sociedade.

"Trata-se de um pequeno espelho que reflete problemas muito maiores na Rússia", disse Mikhail Y. Blinkin, o principal especialista em transporte do país.

A Rússia tem uma cultura elaborada do chamado "ponty", gíria para um sistema de símbolos e padrões comportamentais que informam o status. Sergei S. Teplygin, 35 anos, é um ávido estudante da cultura e diz que a via especial é um grande exemplo.

"Conheço essa cultura muito bem", disse Teplygin, que é dono de uma agência de turismo em São Petersburgo. "Faz parte da minha vida."

Teplygin dirige uma comunidade online de poucas dezenas de entusiastas que percorrem as cidades russas, à procura de carros de luxo com placas especiais violando as leis de trânsito, como se para demonstrar seu status intocável. As pessoas do grupo dele tiram fotos dos carros e as postam online. O fórum online dele conta com um tópico de discussão dedicado à via especial.

"Você não sabe o quão bacana você é até dirigir no meio dessa via", disse Teglypin, sentado em uma hamburgueria. "Assistir isso é como um esporte para nós."

A via foi construída nos anos 50 para ligar o Kremlin às residências do governo no oeste de Moscou. Ao longo da via estão grandes prédios stalinistas, construídos para os membros da elite soviética. A faixa central no início também era reservada aos carros do governo, mas o trânsito era muito menor na época, de modo que não havia muitos acidentes.

Hoje, a via reflete a hierarquia que organiza a vida na Rússia em uma estrutura de cima para baixo.

O trânsito é plenamente bloqueado para a passagem dos carros que levam Putin e o primeiro-ministro Dmitri Medvedev. Apenas certos carros com placas especiais podem usar a faixa central e os violadores são rapidamente retirados pela polícia, dizem defensores da segurança no trânsito. Os ministros do governo dirigem junto com o trânsito regular, alguns deles cercados por algumas poucas viaturas da polícia, dependendo de quão alta é sua posição no governo.

Um regimento especial da polícia de trânsito patrulha a via, que também é repleta de câmeras de segurança. Em 2013, Gadzhi N. Makhachev, o vice-primeiro-ministro do Daguestão, uma república russa no norte do Cáucaso, colidiu com outro carro na faixa especial. Ele e duas pessoas no outro veículo morreram.

Sergei A. Medvedev, atualmente um popular comentarista e apresentador de TV (sem parentesco com o primeiro-ministro Medvedev), cresceu em um dos prédios imponentes perto da via e já viu muitos acidentes nela. Leonid Brejnev, o ex-líder soviético, morava nas proximidades.

"Na Rússia, você precisa sempre provar seu status", disse Medvedev, que também é professor da Escola Superior de Economia, em Moscou. "Uma das principais perguntas da vida russa é: quem é você? Quem é você para dirigir dessa forma, viver nessa casa, andar com essa mulher?"

Sob o antigo sistema soviético, dependendo de seu status oficial, as pessoas recebiam apartamentos em um determinado prédio ou acesso a certos resorts ou mercados especiais reservados a autoridades importantes e seus clientes, a chamada "nomenklatura".

Esse sistema desapareceu por um tempo após o colapso da União Soviética em 1991. Um dos golpes publicitários mais famosos de Boris Yeltsin, por exemplo, era ir para o trabalho de trólebus.

Mas o sistema ressurgiu rapidamente na nova Rússia capitalista e floresceu sob o governo de Putin, que famosamente percorreu o trecho da Novy Arbat da via especial virtualmente esvaziado em uma carreata durante a última posse presidencial, em 2012.

O carro que atropelou Grachyov, o policial de trânsito, em setembro, tinha uma placa reservada ao Serviço Federal de Segurança (FSB), disse Pyotr M. Shkumatov, que dirige a Sociedade dos Baldes Azuis, uma comunidade de motoristas que protestam contra as luzes azuis dos carros do governo e outros privilégios nas vias públicas russas. Shkumatov disse que identificou a placa a partir das fotos da cena do acidente.

Alexei Razgonov, um taxista, testemunhou o acidente e registrou em vídeo o que aconteceu depois. Em uma entrevista, ele disse que a placa do carro foi removida logo depois do acidente e o motorista partiu em um Ford Focus com placa do governo. Policiais de trânsito estavam presentes o tempo todo, ele disse.

A polícia de trânsito disse no relatório oficial que o motorista partiu do local e não foi identificado.

O Ministério do Interior prometeu uma ampla investigação da morte, mas nenhum resultado foi anunciado. Nenhuma das agências do governo responsáveis pela investigação respondeu aos pedidos de comentário.

Medvedev, o professor, disse que se você dirige pela faixa central da via que é bloqueada para a passagem de Putin, isso significa que você pertence à casta mais elevada. Para ele, a via simboliza um dos princípios mais importantes da política russa e da vida em geral, o de que as elites recebem tratamento especial, mesmo se os cidadãos comuns forem colocados em risco.

"Acho que a Rússia ruiria se instalassem barreiras na faixa central", ele disse.